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17/12/2005 Uma história aberta Emir Sader A chegada já dá uma ideia do país que se quer projectar. Não há voos
do Brasil para La Paz. Tanto a Varig, quanto o Lloyd Aéreo Boliviano nos
levam a Santa Cruz de la Sierra. Daí se troca de avião; só a LAB voa para La
Paz, a Varig não. Interessa garantir o intercâmbio com o centro da economia
oficial da Bolívia, a região que reivindica autonomia, sede da burguesia mais
dinâmica e com menos raízes nacionais. No entanto, se o voo fosse directo,
chegar‑se‑ia de São Paulo a La Paz em três horas; estamos muito
perto desse país tão desconhecido para nós. O comício de Evo Morales em Santa Cruz de la Sierra foi anunciado
pela imprensa local como: «Evo em terra inimiga». Ali, o candidato da
direita, Jorge Quiroga – chamado de “Tuto” –, tinha três vezes mais votos do
que Evo – a proporção inversa de La Paz. Mas preocupa à direita o crescimento
do candidato do MAS no reduto de ouro da direita. Um editorial de um jornal cruzenho reivindica a cidade como aquela
que se incorporou à historia da Bolívia há apenas 50 anos, «à margem do
centralismo», delineando o seu próprio modelo de desenvolvimento – «mais
inclusivo do ponto de vista social» – segundo o diário El nuevo dia –,
em contradição com o que chamam de «oligarquias mineiras do ocidente», que
seriam responsáveis pela sistemática opressão do campesinato. Orgulham-se de
ser a zona que mais atrai gente em busca de trabalho, como resultado da
expansão da exploração do hidrocarburos. A imprensa de direita – esse jornal, assim como a revista Datos –
diaboliza dois personagens em particular: Hugo Chávez e o candidato a
vice-presidente do MAS, o intelectual marxista Álvaro Garcia Lineira. A
revista – no estilo sensacionalista e bushista da Veja – anuncia, na
sua capa, na semana das eleições, «O perigo da desintegração». Insere o
destaque: «Opinam especialistas: “O candidato do MAS é um risco para a
América Latina”». No mesmo estilo da guerra fria em que na mesma semana a Veja entrevistou
o colunista de direita dos EUA, Thomas Friedman, que afirmou que «o modelo do
Fórum Social Mundial de Porto Alegre é a Coreia do Norte» (sic), o
“especialista a que acorre a Datos” é nada menos que Fukuyama. Tomam
trechos de entrevista do funcionário do Departamento de Estado dos EUA para a
revista argentina Noticias que afirma que «os movimentos indigenistas
do Equador e da Bolívia...» estão a ficar «fora da modernidade, as suas vidas
foram perturbadas por ela, mas ainda não receberam os benefícios. O futuro da
Bolívia está no ar. Se Evo Morales é eleito presidente, então Santa Cruz pode
decidir tornar‑se independente e isso gerará um conflito interno». Esse separatismo é também alentado de posições de (ultra)esquerda. O
mesmo número da revista entrevista Felipe Quispe, principal dirigente do
Movimento Indígena Pachacuti (MIP), também candidato a presidência da
república, embora lutando para chegar a 3% dos votos para que o seu partido
tenha personalidade jurídica. Pregador de um indigenismo fundamentalista,
Quispe propõe o separatismo das regiões, desconhecendo o Estado boliviano
como criação dos colonizadores e, da mesma forma, da nação boliviana. Propõe
que se se dá a autonomia de Santa Cruz, que se dê o mesmo em La Paz, em
Cochabamba, no Grande Chaco – que constituem as três grandes nações dos
aymaras, quéchuas e guaranis. Diz que Evo Morales e o MAS são os seus principais inimigos, no
estilo clássico da ultra-esquerda, que descarrega as suas baterias
preferencialmente contra quem ocupa o espaço central da esquerda. «Todos os
candidatos deste eleições, inclusive Evo, representam as transnacionais»,
afirma na entrevista à revista de direita Datos. E acrescenta: «Evo é
a criança mimada de Chávez», somando-se ao coro da direita. Para ele, Evo
«não tem uma linha indigenista, é socialista». Entra-se na Bolívia – pela mão das companhias aéreas – por Santa Cruz
de la Sierra, num avião quase vazio, com alguns mochileiros e gente com jeito
da burguesia caipira do interior de São Paulo, que parece ter ido fazer
compras no comércio paulista. Apesar do corredor que se instala directamente
na porta do avião, o aeroporto de Santa Cruz de la Sierra não é um não-lugar,
como grande parte dos aeroportos pelo mundo afora, sem nenhuma identidade
local. O bafo quente do calor húmido dos 460 metros de altitude da cidade, ao
invés daquela temperatura constante e globalizada do ar refrigerado, denuncia
a cor local do aeroporto. Nem sequer a Burger King, cuja rede é de
propriedade de um dos candidatos da direita, está presente. A hora de voo até La Paz representa subir até aos 4.100 metros de altitude
de El Alto, onde está o aeroporto, e dali fazer a descida impressionante de
carro, em 500 metros de ladeira, até à capital. As ruas estão calmas, muita
gente, com os seus ponchos e os seus chapéus – típicos das indígenas
bolivianas – sobem a pé na direcção de El Alto. A imprensa acusa a presença de muita gente da mídia internacional,
atraída pela possibilidade de, pela primeira vez, um líder indígena
conquistar a presidência do país. Há três anos, quando Evo Morales e Sanchez de Losada foram para o
segundo turno no Congresso, o teste para a fidelidade da representação
popular do Parlamento dava‑se pelo contraste entre a cara indígena e
camponesa de Evo e a tez branca de representante da oligarquia de Sanchez de
Losada – que para mal dos seus pecados ainda fala com notório sotaque gringo.
Quem olhasse para o país e olhasse para a cara deles, não teria dúvidas:
triunfaria Evo. Mas deu‑se exactamente o contrário, por esmagadora
maioria. Porém, quando Sanchez de Losada teve que se defrontar com o país real
a que queria governar pela segunda vez, depois de ter sido um dos artífices
da implantação do neoliberalismo na Bolívia, o seu mandato terminou em poucos
meses, o mesmo sucedendo com o seu vice: Carlos Mesa. Desde a luta dos camponeses que impediu a privatização da água, em
2000, a Bolívia vive o que Forrest Hylton e Sinclair Thomson caracterizam –
em artigo na New Left Review de Setembro/Outubro deste ano – como «o
terceiro maior momento revolucionário da história da Bolívia». O primeiro foi
indígena, começando em Agosto de 1780, como uma insurreição regional em
Potosi, sob a liderança de um dirigente chamado Tomás Katari, que desencadeou
uma série de movimentos locais que ficaram conhecidos pelo papel desempenhado
pelo descendente da realeza inca, José Gabriel Tupák Amaru, que dirigiu a
rebelião em Cuzco. As tropas de aymaras e quéchuas expulsaram os espanhóis da região. O
comandante aymará em La Paz, Túpaj Katari, cercou a cidade durante cinco
meses, embora, na falta de aliados, nunca tenham conseguido tomar La Paz. Em
1871, Katari foi derrotado, os espanhóis retomaram o controle do país, até
que foram expulsos definitivamente em 1825. Mas para as elites nativas, assim
como para os aymaras, os cercos de La Paz nas manifestações destes últimos
anos – incluído o cerco de 2005, que levou a que o Parlamento fosse deslocado
para se reunir na conservadora cidade de Sucre –, recordam a grande
insurreição anti-colonial de há dois séculos. O segundo momento foi o da revolução nacionalista de 1952, que
nacionalizou o estanho, fez reforma agrária, substituiu as FFAA por milícias
populares, até ser cooptada pela oligarquia conservadora. O terceiro começou
com a derrota do plano de erradicação de coca do ex-ditador Hugo Banzer,
eleito posteriormente presidente, e concretizou‑se com a “guerra da
água”, quando os camponeses impediram a privatização da água. Desde 2000 a
Bolívia vive uma situação revolucionária. Diante de tudo isso, as oligarquias bolivianas tremem. Se é verdade
que derrotaram Tupác Amaru, Tu’j Katari, Tomás Katari, se é verdade que
neutralizaram e cooptaram a revolução boliviana de 1952, se é verdade que
assassinaram o Che, se é verdade que derrotaram a Assembleia Popular do
governo de Juan José Torres – os velhos fantasmas reaparecem, de novo, com
cara de índios. Sabem que podem derrotar Evo Morales num segundo turno, no
Congresso, com maioria azeitada pelas suas máquinas da oligarquia partidária
tradicional. Mas, atrever‑se‑ão a redespertar a ira popular, de
que já tiveram provas da capacidade de se rebelar? Ou tratarão de cercar Evo
Morales a partir da maioria parlamentar que pretendem obter? Nesse caso,
terão que impedir a convocação da Assembleia Constituinte – um dos eixos da plataforma
do movimento popular boliviano, juntamente com a nacionalização dos
hidrocarburos, o bloqueio à privatização da água e a luta pela recuperação da
saída para o mar, tomada pelo Chile. Conseguirão? A CNN faz o seu papel. Depois de conversar com o taxista,
trabalhadores do hotel, todos a favor de Evo Morales, o canal dos EUA
selecciona todos os entrevistados que declararam que nada iria mudar na
Bolívia, que todos os governos são iguais, etc., em total contraposição com o
que a imprensa ressalta: as grandes manifestações que marcaram a campanha
eleitoral. Já o comentarista sobre as eleições na Bolívia – de Miami – não
esconde as suas preferências por Quiroga e prenuncia um período ainda mais
conturbado para o país. Poucas vezes a história de um país parece tão aberta como a da Bolívia deste Dezembro de 2005. Neste momento, os de cima parecem já não poder continuar a dominar como antes, enquanto os de baixo já não querem continuar a ser dominados. Nestes momentos, o passado mescla‑se com o presente com toda a sua carga de vivências históricas, apontando os caminhos de um novo assalto ao céu. |