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06/10/2005 A guerra real, na Bolívia,
é a pobreza Eduardo Seidl No dia 10 de abril de 2003, na cidade de El Alto, região
metropolitana de La Paz, capital da Bolívia, às 7h da manhã, a casa de
Claudio Ramirez, militante sindical, foi cercada por mais de 100 agentes
encapuzados da polícia militar boliviana. Armados com metralhadoras, os polícias invadem a casa, assustando os
moradores que ainda dormiam. Na presença da imprensa local, os agentes tiram
da casa um bebé de um ano, mais duas menores e três adultos, todos com roupas
íntimas. No acto da prisão, as pessoas não sabiam do que se tratava. No dia anterior, o presidente Gonzalo Sánchez de Lozada, em
depoimento nacional, afirmava que, frente aos conflitos sociais que sacudiam
o país, era preciso defender a democracia com armas. Um dos detidos do dia 10 era Francisco José Cortés Aguilar (Pacho),
camponês e líder sindical colombiano que já estivera na Bolívia outras vezes
para seminários e encontros com movimentos campesinos. A primeira voz de prisão que recebeu foi sob a acusação de fazer
parte das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC). Logo, a sentença
era de envolvimento com o Movimento Revolucionário Tupac Amaru, do Peru.
Depois, passaram a citar o Sendero Luminoso. PROVAS FORJADAS Por fim, após citarem também o Exército de Libertação Nacional da
Colômbia (ELN), nos autos do processo ficou registrado que Pacho estava no
país criando um grupo guerrilheiro, já com 250 integrantes, de ideologia
política subversiva. Três horas depois da detenção, a polícia apresentou
supostas provas que teria encontrado na casa: drogas, munição, bandeiras e
materiais impressos do ELN da Colômbia. Durante o processo judicial, o Estado
indiciou 48 pessoas, acusou 18, mantendo preso apenas Pacho Cortés. Durante um mês, o colombiano ficou no presídio de San Pedro, em La
Paz. Transferido para o presídio de segurança máxima de Chonchocoro, em El
Alto, a 4,1 mil metros de altitude, lá ficou durante 52 dias confinado, sem
luz do sol, com um banho a cada 4 dias. Depois de um pedido da comunidade internacional feito por movimentos
de direitos humanos da Colômbia e da Bolívia, conseguiu o direito de 1 hora
de sol por dia, durante nove meses. Em seguida, transferido para as celas normais, Pacho foi escolhido
representante dos presos internacionais – argentinos, peruanos, chilenos,
colombianos, brasileiros, a maioria enquadrada na Lei 1.008, do narcotráfico.
Presos políticos bolivianos quase não havia, diz. «Para muitos, eu era um preso de respeito. Assim, pude ajudar muita
gente, inclusive na defesa dos seus direitos humanos. Transmiti as minhas ideias,
incentivei as pessoas a superar as dificuldades», relata o líder camponês. Em um mês, um motim é organizado, e Pacho é acusado de comandá-lo. A
administração do presídio volta a isolá‑lo, e ele fica muito doente,
devido às condições insalubres. A comunidade internacional, agora fortalecida
pela Via Campesina de diversos países, volta a manifestar‑se em frente
às embaixadas bolivianas de cada país. Envia cartas à Presidência da Bolívia. Pacho recebe visitas de delegações europeias. A campanha pró‑liberdade
ganha dimensão internacional, e ele volta a San Pedro, onde as condições eram
melhores. Em pouco tempo, consegue a liberdade condicional, que é o cárcere
privado onde está há nove meses. Abaixo, a entrevista com Francisco José Cortés Aguilar (Pacho), feita
na prisão, no dia 16 de Setembro, em La Paz. Como é o quotidiano neste cárcere privado? O cárcere tem um pequeno quarto, onde durmo; uma pequena sala de
estudos; um posto policial onde vivem dois guardas; uma pequena cozinha;
quarto‑de‑banho com chuveiro. Não há pátio. Portanto, é um
espaço bastante reduzido, mas muito bem controlado. Fico aqui com duas
escoltas. Quando vem gente, fazemos café, mascamos coca, conversamos. Recebe visitas? Vêm muitos jovens universitários que querem trocar ideias, averiguar
quem sou. Mas a mim não importa quem venha, mas que as minhas ideias cheguem às
pessoas. Os polícias que estão aqui compartilham a luta comigo. Alguns estão
há quatro ou cinco meses comigo. Eles também sofrem. Até mais do que eu,
porque onde ficam faz mais frio. Ao meio dia cozinhamos, comemos juntos, os
três, ou quem mais esteja. À tardinha, fazemos uma sopa. Cafezinho. Não há
mais que fazer. Por que você está preso na Bolívia? No mundo globalizado política e economicamente, imposto pelo
capitalismo, matam‑se os pobres. Por isso, quando surgem lideranças
contra este sistema, são presas sob qualquer pretexto. Chamam‑nos
terroristas, ou narcotraficantes, delinquentes, ou matam‑nos. A minha
história, desde jovem, é envolvida com comunidades campesinas. Depois de me
casar, fomos para o leste do país, onde comecei a trabalhar como professor
rural. Além de ensinar, o que mais fazia? Apoiava e assessorava a organização da comunidade, buscando soluções
para as necessidades básicas da região, planos de desenvolvimento
alternativo. Chegamos a ter 450 cantões organizados, trabalhando juntos. A minha
detenção obedece a interesses políticos do capitalismo. Por isso hoje, depois
de cumpridos 29 meses, não me dão a liberdade. Apesar de toda a mobilização internacional? As Nações Unidas acabaram de decretar neste ano que Francisco Cortés
é um preso detido arbitrariamente. Muitos dirigentes foram afastados das suas
terras, têm que buscar refúgio noutros países. Muito foram presos, como eu. E
muitos tiveram que oferecer as suas preciosas vidas por lutar contra este
sistema. A minha luta, primeiro, foi pela liberdade dos povos. Agora, é pela
minha, inclusive. A luta continua, então? Sim, pelos homens e mulheres que lutam por um mundo melhor. Porque
Francisco Cortés não morreu. O meu cárcere continua a ser a minha trincheira
de luta. Como está o seu processo judicial? Na etapa de preparação para o início do julgamento no tribunal, para
definir a sentença. Entramos com um recurso contra o Quinto Tribunal de
Sentença, para trocar o tribunal e os juízes, porque eles são comprados pelo
Ministério Público boliviano e pela embaixada estadunidense. Trabalham para
os interesses da globalização política e económica do mundo, para o capital.
E neste tribunal eu já estou condenado. Eu já tenho oito mil dólares pagos
como fiança, obtidos através da solidariedade da comunidade internacional,
tenho trâmite de arraigo. O que é isso? Uma declaração em como não fujo do país. Tenho contrato de trabalho,
matrícula para estudar jornalismo numa universidade. Já apresentámos todos os
requisitos exigidos pela lei, mas a Justiça não tem feito nada. Afinal, por que você está preso? Até Yerko Kucock, ministro do Interior no governo de Gonzalo Sánchez
de Lozada, declarou publicamente que Francisco Cortés deixava a sua
consciência pesada por estar detido injustamente, e que os advogados de
defesa deveriam procurá‑lo. O meu caso foi usado para justificar a
guerra contra os movimentos sociais, o investimento em armamento, cadeias e
modernização das forças armadas. Para justificar uma guerra na Bolívia, que
não existe. O país está em paz, então? Na Bolívia não há terrorismo, só um povo que clama por Justiça, que
tem fome, não tem emprego, um povo que tem sido governado por regimes
ditatoriais, apoiados num poder capitalista. Temos o terrorismo de Estado.
Faz dois ou três anos que umas 150 pessoas morreram vítimas do Estado, mil
pessoas foram feridas, companheiros expulsos das suas regiões. Eu estou
encarcerado porque sou uma vítima do terrorismo de Estado. Quais são as suas perspectivas para a eleição de Dezembro? Qualquer que seja o partido que ganhe a eleições, o meu cálculo é que
governará só um ano. Governar, na Bolívia, continua a ser um problema, face
às duas forças em cena – a social e a da direita. Pela esquerda, sobe o Evo
Morales, pela direita, Tuto, ou qualquer outro. Se Evo ganha, a classe média,
a oligarquia, as empresas, alguns meios de comunicação vão começar a bloquear
o país política e economicamente, partir para a violência militar e a
repressão aos movimentos sociais. Vão fazer de tudo para derrubar Evo. E se a direita ganhar as eleições? Se as coisas continuarem como estão, não restará ao povo senão
continuar a derrubar presidentes. Há muitos interesses em jogo, a Bolívia tem
muitas riquezas naturais e há muita gente interessada em se apropriar delas.
Por isso, estão a transformar o país num pólo turístico, para viver bem às
custas dos pobres. Sendo assim, não tenho muita esperança com as eleições. Quais as alternativas que vê? Tenho dito aos companheiros e companheiras que tratem de curar o
câncer eleitoreiro, que comecem a semear planos alternativos de
desenvolvimento integral e equilibrado. Por exemplo, bons colégios agro‑pecuários,
boas universidades agrárias; hospitais que incentivem o uso de medicamentos
naturais, baseados em plantas medicinais e no saber do povo, e não baseados
nos medicamentos de morte, químicos. Desenvolver projectos hidroeléctricos,
para que o povo tenha a sua própria electricidade e não tenha de pagar às
transnacionais nem ao governo. Implementar projectos de economia solidária,
onde a produção e a comercialização sejam feitas pelas comunidades;
alternativas orgânicas para que toda a contaminação química seja afastada dos
cultivos. E o que pensa da nacionalização? Eu aconselharia os bolivianos a não nacionalizar os hidrocarburantes,
mas que adoptem uma lei para nacionalizar cada um dos recursos naturais sobre
e sob o seu solo. Caso contrário, teremos presos, mortos e feridos para
nacionalizar petróleo e gás, outros mais para nacionalizar a água, a terra, a
madeira. O caminho não é este. O povo tem de batalhar pesado para que todos
os recursos naturais da Bolívia sejam dos bolivianos, administrados por ele.
Se uma empresa estiver interessada em negociar algo, que negocie uma parte, –
administrar, explorar ou processar –, mas sempre na condição de contratada
pelo Estado, e por determinado tempo. A assembleia constituinte será no final do ano que vem? A constituinte não resolve nada. Os problemas resolvem‑se na
luta de um povo. A verdadeira democracia é distribuir a riqueza entre os
pobres, fazer com que os hidrocarbonetos se convertam em universidades,
hospitais, estradas, tudo que o for produzido se transforme em bem-estar
social para os povos e os pobres. Por isso digo que os pobres têm que
organizar empresinhas, começar a partir da economia solidária, lentamente
construir um mundo melhor desde a base. Não há alternativa. Os governos são
conjunturais em qualquer parte do mundo, e existem muitos companheiros que
chegam ao poder e se perdem, se vendem à burguesia. Então nós temos de fazer
o contrário, ir organizando projectos que até incluam burgueses e a
oligarquia trabalhando pelo povo. Porque é melhor ganharmos todos juntos. Qual é o verdadeiro objectivo do combate ao narcotráfico que vem
sendo feito na América do Sul? Há alguns anos, EUA, Alemanha, Inglaterra etc. dedicavam‑se à
guerra pelo petróleo e pelos recursos naturais do mundo. Depois, disseram que
não era muito rentável, que havia outros negócios importantes como as comunicações,
e investiram em mega-projectos de comunicações. Hoje, dizem que os recursos
naturais, as comunicações e as demais riquezas têm que dar mais
rentabilidade, inclusive o narcotráfico. Como? Com o melhor negócio que
surgiu nos últimos anos, que é a guerra. A guerra é rentável, por isso a
promovem em qualquer país onde os EUA tenham interesses. Significa venda de
armas, de sistemas de comunicação, de medicamentos químicos, empregos para os
países ricos, alimentação para os soldados, aviões, barcos. Quais são os seus planos? O que faria se fosse libertado hoje? Tenho um compromisso social com duas linhas. Uma, é continuar a luta pelos direitos humanos e pela paz na América do Sul, ajudando a construir um mundo melhor. Depois da prisão vem a morte, e dela não podemos esquivar‑nos. Mas antes quero deixar registrada uma série de ideias que, no futuro, outras gerações vão poder aproveitar. Que realmente brilhe, não só para mim, mas para todos, nossos filhos e futuras gerações, uma liberdade digna e justa. É isto que vou fazer se me deixarem ficar na Bolívia. À Colômbia não posso voltar, não tão cedo. Lá, corro risco de vida. É possível que vá ao Brasil, talvez à Venezuela, possivelmente Cuba. Eu não tenho pátria. Penso que, para um lutador, a pátria é o mundo onde vivemos. Não há fronteiras. |