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07/09/2005 100 clãs familiares são
donos da terra na Bolívia Donos de vidas e fazendas, cerca de 100 poderosos clãs familiares apoderaram‑se
das terras mais férteis da Bolívia e levantaram gigantescos latifúndios,
enquanto milhões de camponeses estão sumidos numa fome virtual e no minifúndio. O mais recente Relatório sobre Desenvolvimento Humano do Programa das
Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), difundido hoje, estabelece que a
distribuição da terra é tão desigual no país, que menos de 100 famílias são
proprietárias de 25 milhões de hectares, enquanto dois milhões de famílias
camponesas – quase todas indígenas – mal têm acesso a este recurso natural e
trabalham em cinco milhões de hectares. Isto quer dizer que as 100 famílias de poderosos oligarcas, que têm
fortes laços com o poder político e económico e estão assentados em todo o
país e em especial no oriente, dispõem de cinco vezes mais terras que os
camponeses pobres, que subsistem com duras provações nos minifúndios,
degradados pela sobrexploração agrícola e pela baixa produtividade. A aguda desigualdade no acesso às terras aptas para a agricultura e
pecuária explica, em parte, a cruel ironia que a Bolívia vive, ao contar com
um território extenso e extremamente rico, dotado de grandes riquezas
naturais e uma invejável diversidade, e uma maioria da sua população
extremamente pobre. Segundo o relatório das Nações Unidas, esta aguda desigualdade, entre
uns poucos que têm muito e os outros que quase não têm nada, é o motor dos
constantes conflitos que o país vive e a causa principal da sua instabilidade
política e social. Os especialistas advertem, além disso, que a persistência
destas desigualdades torna inviável a democracia e a convivência pacífica. A OLIGARQUIA TERRATENENTE A despeito de 50 anos de reforma agrária, o agro boliviano está partido
em dois, parcelado entre os gigantescos latifúndios, a maior parte deles
improdutivos, e centenas de milhares de pequenas propriedades camponesas que
já não abastecem suficientemente os agricultores indígenas. Apesar disso, a
economia camponesa contribui com mais alimentos e produção agrícola para o
mercado local, do que a produção dos latifúndios que prefere a exportação de
soja e os cultivos de arroz, açúcar, algodão e a depredadora exploração de
madeiras preciosas. Segundo os dados recolhidos por Econoticias, há pelo menos 250
mil camponeses sem terra, que deambulam nos bairros mais pobres das cidades e
que constantemente ocupam terras dos latifundiários, das quais são
desalojados à bala e chicote pelos mercenários contratados pelos terratenentes
e pelo Exército e a Polícia, que protegem os mesmos interesses, ainda que sem
custo algum. E é que os clãs familiares que se apoderaram das terras mais férteis
da Bolívia têm enorme poder nas instituições públicas e entidades privadas.
Assim, mantiveram uma poderosa e invariável influência no Ministério da
Agricultura, na Superintendência Agrária e no Instituto Nacional de Reforma
Agrária, controlando a concessão de terras e propriedades. Estas famílias
também têm enorme peso nos partidos políticos de direita e quase sempre
controlaram o Congresso e o Governo. No entanto, a sua maior influência está nas associações empresariais
de agro‑pecuários e produtores agrícolas do oriente como a Câmara Agro‑pecuária
do Oriente (CAO), a Câmara de Indústria e Comércio (CAINCO) e o Comité Cívico
Pró Santa Cruz, de onde controlam o poder regional e tecem alianças com as
empresas multinacionais do petróleo e do gás. Não é casual, por isso, que o poder latifundiário e petrolífero
maneje a seu prazer a região mais rica da Bolívia como é Santa Cruz, e dali
articule um projecto secessionista contra as organizações sociais, laborais e
populares do país que batalham pela nacionalização dos hidrocarbonetos e por
uma nova e genuína reforma agrária. Estas duas reivindicações (nacionalização e reforma agrária) já
emergiram com força nas revolucionárias jornadas de Outubro do 2003 e de Maio‑Junho
de 2005, que culminaram com o derrubamento dos ex presidentes neoliberais
Gonzalo Sánchez de Lozada e Carlos Mesa, fervorosos defensores das
petrolíferas e dos latifundiários. FOME DE TERRA Entre camponeses e indígenas, a maior reivindicação é a recuperação
das terras e a segunda reforma agrária, expropriando os grandes
latifundiários. Com 90 por cento da população indígena e camponesa sumida na
pobreza, a sede de terra está a gerar actualmente a ocupação de extensos
latifúndios improdutivos, que estão nas mãos de empresários, militares e
aderentes às ditaduras das décadas de 70 e 80 , e do esquema neoliberal dos anos
90. «Essas terras vamos ocupá-las, se o governo não tiver a capacidade e
a vontade política de reverter estas propriedades que não cumprem nenhuma
função económica e social, e só servem para negócios e tráfico de terras»,
disse há algum tempo à Econoticias o líder dos camponeses sem terra,
Angel Durán. «Estas concessões a proprietários grandes não são trabalhadas agricolamente
(mais de 95 por cento estão sem trabalhar) e encontram‑se geralmente
nas mãos de especuladores, que guardam essas boas terras agrícolas para
vendê-las posteriormente, quando o Estado as beneficie com caminhos e outro
tipo de infra‑estrutura», diz convencido de que o único caminho viável
para que haja paz e progresso no campo é a reforma agrária. As autoridades da Superintendência Agrária e do Ministério da
Agricultura avalizam, com dados precisos, que a maior parte destes neolatifúndios
se levantaram com base em concessões ilegais e prebendais de terras. MINIFÚNDIO EMPOBRECEDOR Em contrapartida, no ocidente do país, a terra vai perdendo a sua fertilidade
e já não abastece suficientemente os camponeses, que estão a transitar
dolorosamente do minifúndio para o “sulcofúndio”. «O processo de fragmentação extrema da terra no planalto e nos vales,
em superfícies cada vez menores, apresenta problemas para a aplicação de
tecnologias mais eficientes, as quais possibilitariam a geração de excedentes
e a acumulação de capitais», assinala um relatório oficial a que teve acesso
esta agência. O minifúndio e a crise produtiva estão a condenar à ruína a economia
camponesa do planalto e dos vales, onde predomina uma baixíssima
produtividade, reina a pobreza e cresce o descontentamento. A 50 anos da reforma agrária, que tentou redistribuir equitativamente
a terra na Bolívia, gerou‑se um processo de fragmentação da terra tão
extremo e acelerado nestas regiões que, segundo um relatório do Ministério da
Agricultura, surgem cada ano 16 mil novos minifúndios, o que dificulta os
processos produtivos e os torna inviáveis em muito curto prazo. Hoje, em média, cada camponês do planalto e dos vales tem muito menos
terra do que antes, pelo que se está a dar também um acelerado processo de
abandono das áreas tradicionais e uma forte migração do campo para as cidades
e do ocidente para o oriente. O resultado deste processo é a dilatação das cinturas de pobreza e
marginalidade nas principais cidades e crescentes conflitos pela posse de
terras, especialmente no oriente, segundo estabelecem diversos estudos. DIFERENÇAS ABISMAIS Nos últimos anos, esta extrema desigualdade e iniquidade existente na
área rural potenciou as abismais diferenças de rendimentos na área urbana e
em todo o país. O Relatório do PNUD estabelece que o rendimento dos 10 por
cento mais ricos da população supera 90 vezes o rendimento dos 10 por cento
mais pobres. Estas diferenças baseadas na riqueza são o primeiro elo de um ciclo
de desigualdade que persegue as pessoas durante toda a sua vida, aponta o
estudo. E isto repete‑se de maneira dramática em todas as esferas da
vida dos bolivianos. As mulheres de lares pobres têm muito menos probabilidade
de receber atendimento pré‑natal e no parto por pessoal médico
especializado e os seus filhos têm também menos probabilidade de sobreviver e
completar a escolaridade, e as crianças que não a completam têm mais
probabilidades de receber menores rendimentos. Assim, o ciclo de privações transmite‑se
de uma geração para outra, assinala o documento. A respeito da educação, informa-se que conquanto em média os
bolivianos têm entre cinco anos e cinco anos e meio de escolaridade, existe
uma diferença de sete anos de escolaridade média entre os 20 por cento mais
ricos e os 20 por cento mais pobres da população. A taxa de pobreza, que tinha diminuído para 48,7 por cento em 1999,
aumentou para 61,2 por cento em 2002. A cifra é mais alarmante se se
considerar a população indígena: 88 por cento é pobre. As cifras também reflectem as desigualdades entre as zonas rurais e as urbanas. Por exemplo, «as taxas de mortalidade são 1,9 vezes maiores entre as crianças do campo do que entre os que vivem na urbe». |