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Julho 2005 Bolívia: Devolver o país
ao povo Paul-Emile Dupret * «A Bolívia foi produtora de prata, estanho, borracha, e não conseguiu
reter a riqueza da exploração destas matérias-primas. Agora resta-nos a
exploração do gás. É a nossa última oportunidade, não a podemos deixar
perder», garante Santos Ramirez, deputado e presidente da Comissão de
Economia do parlamento boliviano. Estas declarações foram proferidas aquando da visita ao parlamento
Europeu do grupo da Esquerda Europeia (GUE), juntamente com outros delegados
do MAS, o partido do líder indígena Evo Morales. Entre os representantes do
MAS estavam Leonilda Zurita dirigente agrária que liderou a marcha até La Paz
e Aurélio Ambrosio, deputado, líder tradicional que milita há muito tempo no
despertar indígena para a participação política. À exploração colonial das matérias-primas, somou-se desde há 20 anos,
a aplicação das clássicas “recomendações” do FMI e outras agências
financeiras: privatização dos serviços públicos (caminhos de ferro,
telefones, serviços de luz, água, linhas aéreas e claro o gás…) e abertura dos
mercados aos produtos subsidiados da agricultura dos países do norte. Estas
medidas levaram a um empobrecimento acelerado da população. Em menos de 15
anos o rendimento médio das famílias camponesas, 40% da população, baixou
para metade. Anualmente vão à falência 16 mil pequenas explorações agrícolas.
Nada disto impediu os dirigentes da Bolívia de apoiar uma supressão total das
ajudas aos camponeses na reunião da OMC em Cancún… No entanto, contra esta burguesia que pretende obter rendimentos à
custa de desbaratar as riquezas do país, têm vindo a crescer os movimentos
sociais com a reivindicação da participação política da maioria indígena
tradicionalmente excluída, e da recuperação dos recursos naturais para o
bem-estar dos bolivianos. Em Cochabamba, a contestação generalizada da população conseguiu
expulsar as companhias estrangeiras que haviam beneficiado da privatização da
água, decretada pelo FMI, entre as quais a Bechtel, multinacional também
muito activa no Iraque. Uma batalha semelhante está a ocorrer no município do
El Alto, um bairro popular que domina La Paz, para recuperar a propriedade
pública da distribuição da água, privatizada a favor das Aguas del Illimani,
uma filial da francesa Suez. Foi, no entanto, o assunto da exploração do gás que foi o detonador
para uma verdadeira rebelião popular nacional. Em Outubro de 2003, os
bolivianos derrubaram Sanchez de Losada, presidente corrupto que foi o
promotor das privatizações e grande defensor dos interesses das
multinacionais. A Sanchez, que fugiu com ajuda dos Estados Unidos, sucedeu o
então vice-presidente Carlos Mesa com a promessa de organizar um referendo e
uma constituinte. Organizou um referendo, mas não permitiu que se cumprisse a
vontade popular de 95% dos votantes que defenderam a recuperação do controlo
do Estado sobre a indústria dos hidrocarbonetos. Em Março de 2005, quando o projecto de lei promovido pelo MAS que
teria permitido ao Estado arrecadar 50% dos lucros das petrolíferas estava a
ponto de ser aprovado, o presidente Mesa e sectores do parlamento
orquestraram uma série de manobras para impedir a aprovação desta legislação,
levando os movimentos sociais a exigir a nacionalização pura e simples dessa
indústria. As multinacionais contra-atacaram animando sectores coloniais e racistas
de Santa Cruz que ameaçaram com a secessão do país (como no Katanga, no ex‑Congo
Belga). Esses mesmos sectores tentaram substituir o presidente Mesa, que
tinha renunciado, pelo presidente do Senado ou da câmara dos deputados, bem
conhecidos como defensores dos interesses das multinacionais. Mas a pressão
do movimento social obrigou estes dois personagens a declinar o cargo e
deixar que assumisse esse alto cargo o presidente do Supremo Tribunal de
Justiça, com a incumbência de organizar novas eleições. Ao mesmo tempo, várias multinacionais, como a espanhola Repsol, a
brasileira Petrobras, a inglesa BP, a francesa Total, a holandesa Amoco que
exploram o gás boliviano, com contratos altamente favoráveis, ameaçam
processar a Bolívia nos tribunais de arbitragem, apesar de ser público que as
suas margens de lucro são totalmente abusivas e que a lei aprovada
recentemente não faz mais do que corrigi-las de uma maneira insuficiente. E
apesar de não ignorarem que o Tribunal Constitucional da Bolívia decretou nulos
os contratos com as multinacionais, porque privatizam recursos naturais
inalienáveis, segundo o artigo 139 da Constituição boliviana. Enquanto esperam pelas medidas do novo governo, os movimentos sociais
fizeram um compasso de espera na sua luta em prol da plena recuperação, pelo
povo, dos recursos naturais da Bolívia. __________ * Assessor do GUE, especialista em assuntos da América Latina. |