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01/06/2005 A Bolívia vive a sua hora
histórica Elaine Tavares Já se estende por mais de duas semanas a onda de protestos que vem
incendiando a Bolívia desde o dia em que o presidente Carlos Mesa decidiu
aprovar a Lei dos Hidrocarbonetos sem contemplar a reivindicação dos
movimentos de camponeses e trabalhadores do país. Os grupos organizados
querem que a exploração do gás seja nacionalizada e que as populações
originárias tenham o direito de domínio sobre os seus territórios. Este já é
o segundo levantamento significativo dentro do governo Mesa e é bom lembrar
que foi o povo em rebelião quem permitiu que o actual presidente governasse,
uma vez que Sánchez de Lozada, o presidente eleito e do qual Mesa era vice,
foi deposto pela mesma gente, noutro levantamento em 2004. O QUE É A BOLÍVIA Para entender todo o processo que hoje vive a Bolívia é preciso fazer
um breve retorno na história, contextualizando estes factos que aparecem na
mídia como “mais uma rebelião”. Não é bem assim. A história dos povos que
constituem a Bolívia é cheia de beleza e pontuada por grandes lutas que visam
manter a sua cultura e a sua soberania. O território que actualmente compõe o país foi constituído em 6 de
Agosto de 1825 nas chamadas guerras de libertação do Alto Peru e levou esse
nome em homenagem a Simón Bolívar, um dos mais importantes líderes desse
movimento. Antes disso, o espaço geográfico boliviano foi, por 300 anos,
parte da grande extensão da colónia espanhola.
Em 1964, tal e qual como no Brasil, a Bolívia mergulhou outra vez na
lógica dos governos militares, bem dentro da ideia de freamento das lutas e
conquistas populares, imposta pelos Estados Unidos. Era um tempo em que os
governos de carácter mais progressista precisavam de ser cortados pela raiz.
O governo de René Barrientos, o mesmo que matou Che Guevara, apesar de apoiado
pela maioria do povo, foi quem garantiu o desmonte da organização popular
mais radical que estava em ritmo de crescimento. Depois, a Bolívia passou por
tempos críticos como os do governo de Hugo Bánzer, quando o país viveu quatro
anos em estado de sítio. Tudo porque as gentes não se deixavam vencer por
governos de força. Trancar as estradas com pedras e fazer gigantescas marchas
fez e faz parte da resistência atávica do povo boliviano. Em 1985 Paz Estenssoro volta ao poder e as esperanças renovam‑se.
Mas o seu terceiro governo – que vai até 1989 – principia a pender para a
lógica neoliberal que começa a apontar na América Latina e não avança na
discussão de um poder popular e democrático. O seu ministro de planejamento
era Sánchez de Lozada, que viria a ser presidente em 93. Jaime Paz Zamora – que o sucede depois de uma espécie de “acordão”
entre as forças políticas de direita e centro-esquerda – apesar de ter feito
parte de vários processos de desmonte do então governo militar, acaba
pendendo para a lógica social‑democrata e não consegue avançar nas
promessas de melhorias para o povo boliviano. No ano de 1993 é a vez de
assumir o comando do país um homem que nem sequer sabia falar a sua língua.
Sánchez de Lozada, educado nos Estados Unidos, assume a presidência e durante
os quatro anos que governa só consegue aprofundar o abismo entre pobres e
ricos. Em 1997 o poder volta para as mãos de Hugo Banzer que não chega a
terminar o mandato em função da sua morte. Em 2003, numa disputa com Evo
Morales, da comunidade aymara e do Movimento ao Socialismo, Sánchez de Lozada
vence as eleições, embora pouco esquente a cadeira. Em mais uma das revoltas
promovidas pelo povo – desta vez por conta da nacionalização do gás e da
soberania das comunidades autóctones – Lozada é deposto assumindo, então, o
seu vice, o jornalista Carlos Mesa. O CONFLITO HOJE Como se pode perceber, a queda de braço entre governantes e população
não é de hoje na Bolívia. A história mostra que o povo não mede esforços para
fazer valer aquilo que pensa ser melhor para si. Desde 1825, quando se
libertou da Espanha, o país já passou por quase 200 golpes de estado ou
deposições de presidente. A sua política é marcada por levantamentos
populares violentos e decisivos. Os povos autóctones, os camponeses, os
trabalhadores urbanos e os estudantes param o país, trancam as ruas e
estradas, invadem palácios, enfrentam fuzis. O mistério que fica insolúvel
resume‑se na pergunta: por é que, com tanta força de mobilização, o
povo da Bolívia não toma o poder? A guerra pela nacionalização do gás e o controle do petróleo ficou
mais forte no segundo mandado de Goni – Lozada. Como o sector estava
praticamente entregue nas mãos dos estrangeiros, a população decidiu que ou o
presidente tomava as rédeas do país ou saía. Goni não resistiu e em 2004 foi
deposto depois de vários dias de rebelião nas ruas. Em nome da
“constitucionalidade”, as gentes decidiram deixar que o vice assumisse o
cargo com a promessa de que iria rever a lei do gás. Há duas semanas,
pressionado pelas multinacionais, pelos Estados Unidos e até pelo Brasil –
que tem interesses pesados no país – Mesa aprovou a lei que vai contra os
interesses da população. Dramaticamente, o presidente foi à televisão
justificar‑se dizendo que «as multinacionais mandam no país. Não
podemos aprovar uma lei que lhes desagrade». Dava um recado simples: ou o
povo aceitava perder um pouco ou tinha que se ver com os deputados que eram
mais reaccionários do que ele, Mesa. A nova lei aumenta os impostos pagos pelas empresas, mas não atende a
reivindicação de que elas deveriam pagar 50% de royalties pelo gás e
pelo petróleo, e muito menos nacionaliza o sector. Com isso, Mesa atiçou os
movimentos populares mais importantes hoje na Bolívia que são o MAS
(Movimiento al Socialismo), a COB (Central Obrera Boliviana) e a comunidade
de El Alto. Nestes dias, mineiros, camponeses, professores universitários,
gente de El Alto, enfim, a Bolívia inteira está de pé e pede a renúncia de
Mesa. Agora ninguém mais quer saber dos royalties de 50%. Os gritos
que se ouvem são: “ni 30, ni 50. Nacionalización!”. A paciência com as
multinacionais chegou ao fim. AS DIVERGÊNCIAS Mas, apesar de as palavras de ordem serem de mudanças radicais, entre
as organizações populares há muita divergência sobre o destino da rebelião.
Há os que acreditam que Mesa pode continuar a governar se tomar a atitude de
nacionalizar o petróleo e o gás, ou quem sabe antecipar as eleições para que
tudo siga na normalidade constitucional, e os que querem todo poder ao povo.
Lideranças como Evo Morales já estão a ser consideradas conciliatórias demais
– porque defendia a continuidade de Mesa no poder – e já se percebe uma
mudança no seu discurso por causa da força das gentes nas ruas. Os militantes
do MAS em caminhada pelas estradas da Bolívia exigiram um posição mais dura. A comunidade de El Alto é a mais radical, quer a expulsão das
multinacionais, dos deputados, do presidente e a instalação de assembleias
populares para organizar a tomada do poder. Evo Morales pede uma Assembleia
Nacional Constituinte e os demais querem um Assembleia Popular no rumo do
“que se vayan todos”. Esse parece ser o grande embate hoje na Bolívia. Há uma clara divisão entre duas forças: o governo, a elite, o parlamento
e as multinacionais de um lado, e o povo pobre e trabalhador de outro, embora
este esteja dividido no conceito de fim. Essa divisão pode, mais uma vez,
levar à vitória da elite que, nessas horas, acaba ficando unida. A ideia de
uma Assembleia Nacional Constituinte parece ser a saída para os donos do
poder, daí a revolta com a posição de Evo Morales. Segundo analistas
bolivianos, nos jornais locais, essa proposta foi bem aceite por órgãos muito
suspeitos como o Banco Mundial. Lógico. Se o povo boliviano aceitar essa
armadilha, a vida volta ao normal e as forças políticas ao serviço do capital
têm todo o tempo do mundo para se reorganizar e vencer as eleições. Tudo muda
para continuar como está. Para se ter ideia de como o poder se organiza, os
Estados Unidos, através da USAID, estabeleceram o que chamam de Iniciativas
de Transição na Bolívia e já investiram mais de quatro milhões de dólares
nessas “trampas”, inclusive tentando subornar lideranças da comunidade de El
Alto, a mais radical nesse processo. A sorte está lançada. Nas mãos do povo boliviano está o seu destino.
Optar por uma Assembleia Popular, construída de forma libertária em cada
comunidade do país pressupõe uma outra forma de poder, popular de verdade,
vinda “desde abajo”. Seria o povo verdadeiramente no poder, os camponeses, as
comunidades autóctones, os trabalhadores das minas, das cidades, os
professores, enfim, aqueles que vêm resistindo desde há 200 anos, promovendo
revoltas, rebeliões, revoluções e sempre cedendo ao poder instituído, às
elites. Talvez esteja na hora de experimentar tomar conta do mando. Quem
sabe, numa construção local, que tenha a verdadeira cara da Bolívia, não seja
possível construir formas novas de praticar o poder, colectiva, solidária,
numa outra órbita cultural. Está mais do que na hora das gentes da Bolívia
não voltarem das portas do palácio deixando-o para os de sempre. É hora de
entrar e ocupar as salas, reformando toda o cenário e conduzindo o país para
novos rumos. Para que isso aconteça os interesses terão de ser contrariados, mas isso faz parte do processo. Tal como acontece hoje na Venezuela, as elites bolivianas também não cederão tão fácil, com medo de perderem o osso para o que chamam de “bando de índios”. Para isso já estão na contra-ofensiva organizando os chamados Comités Cívicos em defesa do “estado das coisas e da propriedade”. O número de pessoas que tem aderido a esses apelos da direita não é pouco. Sempre há os que acreditam que melhor do que a liberdade é ficar protegido sob a asa de algum graúdo. De qualquer forma, os próximos dias deverão definir o destino da Bolívia. O povo unido já mostrou a força que tem e esta não é a primeira vez. Resta saber se essa força vai ser canalizada para a construção de um país livre, soberano, de democracia radical sob o controle dos trabalhadores e camponeses. A hora histórica é agora. |