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09/03/2005 Bolívia: como compreender
o que está a acontecer Raquel
Gutiérrez Compreender o que vai acontecendo na convulsa Bolívia resulta
difícil: um presidente que renuncia ao uso da força pública para impor as
decisões governamentais e que, mais bem, apresenta a sua renúncia como medida
de pressão ante a enésima acção de protesto e insubordinação da população
civil; uma população aymara urbana na cidade de El Alto que atingiu uma
experiência de mobilização tal, que de modo quase repentino é capaz de cercar
a cidade de La Paz, impedindo a entrada e saída de veículos, mercadorias e
pessoas. Na recente acção de confrontação entre população simples das cidades
e de algumas zonas rurais, governo boliviano e corporações multinacionais, exibe‑se
o caótico “empate” entre as forças sociais em conflito: uns não podem impor o
que decidem, os outros também não. Carlos Mesa, o presidente que chegou a esse cargo em Outubro de 2003
depois de outro levantamento que fez fugir o ultraneoliberal Gonzalo Sánchez
de Lozada, não pode governar. De acordo, é claro, com o significado que hoje
se outorga a esta palavra: Carlos Mesa não pode guiar, dirigir ou reger o
destino do país; as suas decisões são insistentemente impugnadas na rua e nos
caminhos, por uma população brutalmente empobrecida que pouco a pouco vai procurando
mecanismos e formas para assegurar a sua possibilidade de intervir na decisão
sobre os assuntos públicos. A população, por sua vez, não está disposta a
deixar-se governar, se o presidente não “obedece” ao que a população decide. O recente episódio de mobilização na Bolívia, cujo desenlace ainda
está pendente, tem três reivindicações centrais. A primeira é a expulsão da
empresa transnacional Suez‑Lyonesse des Eaux – a maior corporação
mundial de distribuição de água potável – de El Alto e a construção em sua substituição
de uma empresa pública na qual a gestão esteja em mãos dos habitantes. Entre 10 e 14 de Janeiro passados os habitantes da cidade de El Alto
realizaram uma greve com essa mesma reivindicação e, aparentemente,
conseguiram os seus objectivos. Em Fevereiro, os habitantes souberam que o
governo tinha decidido «ater-se às formalidades da lei» para a terminação do
contrato com a Suez que, portanto, continuava a operar a concessão. Além
disso, Mesa e o seu gabinete recusavam a vontade cidadã de construir uma
empresa pública de distribuição de água sob o controle dos próprios habitantes
e propunham, como solução transitória, a constituição de uma sociedade mista
onde se permitisse a participação de capital privado. Isto foi o que detonou
a nova mobilização. Como expressavam os habitantes de El Alto nos seus
bloqueios: «Já dissemos que não queremos aqui a transnacional. Que se vá,
pois. Que Carlos Mesa entenda». A segunda reivindicação do movimento vem‑se arrastando desde,
pelo menos, Outubro de 2003: é a exigência de que, de imediato, se estabeleça
um imposto de 50 por cento na exploração dos hidrocarbonetos igualmente concessionados
a consórcios transnacionais e que este imposto se inclua na Lei de
Hidrocarbonetos, que continua a ser discutida no parlamento nacional. Em
relação a esta reivindicação sucede algo similar ao que se passa com a água:
os governantes e a “classe política” em geral, depois da irrupção colectiva e
contundente da população na rua, manifestando a sua intenção de recuperar o
que consideram que deve ser património público, empenha‑se em apagar e
diluir na negociação o que a população mobilizada estabelece como conveniente
para o destino do país. O governo de Carlos Mesa apostou durante todo o ano de 2004 no
debilitamento dos movimentos sociais. Em certa medida conseguiu‑o,
pois o terreno das “comissões de especialistas” não é um lugar no qual os
milhares de habitantes que se mobilizam possam participar. No entanto, a
força do movimento boliviano, pelo menos até agora, está na clareza com que a
população simples entende a necessidade de recuperar o que é riqueza natural
saqueada. Por isso se apresentam na rua uma e outra vez. Finalmente, a terceira reivindicação do movimento, que possivelmente poderá constituir uma saída para esta confrontação cada vez mais intensa, é a vontade das múltiplas e diversas organizações sociais de levar adiante uma Assembleia Constituinte para refundar um país que, sem nenhuma dúvida, range pelos quatro costados no meio da instabilidade e da carência. |