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07/03/2005 «Eu só acredito no poder
do povo» Luis Bruschtein Washington acusou‑o de ser o Bin Laden latino‑americano,
de ser financiado pelas FARC colombianas e pelo presidente da Venezuela Hugo
Chávez. Em alguns sectores da esquerda boliviana acusam‑no exactamente
do contrário. A verdade é que Evo Morales, que começou a sua luta como
expressão dos camponeses cocaleros, converteu-se no político em maior ascensão
do seu país. Nas últimas eleições municipais, o Movimento Ao Socialismo
(MAS), que encabeça, foi o que obteve maior quantidade de votos. Será candidato
à presidente da Bolívia em 2007 com muitas possibilidades de ganhar a
eleição. De origem humilde, provém da nação aymara e o seu partido representa
a irrupção de aymaras e quechuas sem intermediários na política boliviana. «Fomos
considerados pouco menos do que como animais», afirma Morales numa descrição
que não se afasta da realidade. Neste momento, o seu partido mobilizou‑se
para que se aprove a Lei de Hidrocarbonetos que refundará a Yacimientos
Petrolíferos Fiscales de Bolivia. E convocou à redacção de uma nova
Constituição que termine com a marginalização e exploração discriminatória
dos povos nativos que constituem a grande maioria da população boliviana. «Temos
que aprender a viver na unidade na diversidade, esse é o nosso destino, não
somente na Bolívia, mas em todo o Continente». A semana passada, Morales chegou a Buenos Aires da Venezuela e do
Uruguai, onde participou na assunção do presidente Tabaré Vázquez. Em menos
de um dia reuniu com o ministro Julio De Vido e com o secretário geral da
Presidência, Oscar Parrilli, e manteve reuniões com dirigentes de Bairros de
Pé e outros agrupamentos piqueteiras. Morales expressa o desgaste dos velhos partidos políticos da Bolívia
e o surgimento de uma alternativa que, a triunfar, se somaria ao processo
regional expressado pelos governos da Venezuela, do Brasil, da Argentina e do
Uruguai com o agregado de expressar de forma directa os povos nativos. Qual é a posição do Movimento ao Socialismo em relação ao gás de
Bolívia? Nós consideramos que se trata de um recurso natural que é património
nacional. Então, a primeira etapa na luta do nosso povo é recuperar a
propriedade. E o segundo passo é encontrar a forma de a comercialização e a exploração
desse gás beneficiarem os bolivianos. Em terceiro lugar está a exportação
para a região, quer se trate do Brasil, do Chile ou da própria Argentina. No
caso do Chile, nós a incluímos no âmbito de outra negociação que é a saída
para o mar. Se eles querem importar gás boliviano, estamos a falar de uma
reciprocidade, isto é, fazê-lo de uma maneira que permita resolver os
problemas dos nossos dois países ou de outros. Quando falo de reciprocidade,
os países da região devem fundamentalmente entender-se. E se falamos da
Argentina, temos que entabular as negociações, mas num âmbito de equilíbrio,
que beneficie os nossos países, tanto o produtor como também o consumidor. E
para isso temos que tirar do meio as transnacionais, os intermediários. Que
sentido tem um negócio para os nossos países quando a negociação se faz entre
Repsol‑Bolívia, com Repsol‑Argentina? Não tem nenhum sentido. Para chegar a uma negociação desse tipo, deveriam mudar muitas coisas
nos dois países... Aqui a negociação tem que ser Estado a Estado para que os povos sejam
beneficiados. Neste momento estamos na etapa de mudar a lei de
hidrocarbonetos na Bolívia, que recupera a propriedade dos hidrocarbonetos.
Seria refundada a Yacimientos Petrolíferos Fiscales Bolivianos para que
exerça o direito de propriedade e estabeleça as negociações em nome do povo
boliviano. A Yacimientos tinha sido eliminada como empresa estatal. Nós
propomos que deve refundar‑se para que explore, industrialize e
exporte esse recurso natural. Em que ponto se encontra essa discussão na Bolívia? Neste momento o povo está mobilizado em greves de fome, marchas, em
bloqueios de estrada, para que o Parlamento aprove de uma vez a nova Lei de
Hidrocarbonetos onde garanta a propriedade, refunde a Yacimientos, com cinquenta
por cento de regalias para a empresa e cinquenta por cento para o Estado. O
direito dos povos indígenas, o direito à consulta, o direito aos benefícios,
além disso, o tema da industrialização. Quanto pode demorar a aprovação dessa nova lei? A lei em si já está aprovada, falta que passe no Senado. O tema a que
puseram maiores objecções é o das regalias. Que propõe a Repsol frente a esta lei? Bem, as multinacionais nunca querem deixar a mama. Esse é o problema.
E não faltam alguns parlamentares e políticos que defendem os interesses das
multinacionais acima dos interesses dos bolivianos. Depois das últimas eleições, o MAS, o partido que você conduz, ficou
posicionado como o partido mais importante da Bolívia... Nas eleições nacionais de 2002, posicionámo-nos legalmente como o
segundo partido. Mas nas municipais fomos a primeira força legal e
legitimamente. Ou seja, as perspectivas de ganhar as eleições presidenciais de 2007
são bastante possíveis? Os chamados índios, quechuas e aymaras, condenados à extinção, ao
extermínio, os nossos antepassados, os nossos avôs, não tinham direito a
entrar ou caminhar pelas praças principais, não tinham direito a caminhar nas
calçadas, agora estamos no Palácio Legislativo, a um passo do Poder
Executivo. Propusemo-lo como que nós mesmos nos governemos. Quantos legisladores tem o MAS? De 130 deputados, temos 27; dos 27 senadores, temos oito. Isso foi
produto das eleições nacionais onde fomos a segunda força política. A sua figura no cenário político boliviano foi duramente criticada
pelo governo dos Estados Unidos. Como vê você essa reacção? Se o cão ladra é porque alguém anda, não é verdade? E o movimento dos
povos nativos, o Movimento ao Socialismo, avança com firmeza para a frente para,
primeiro, fazer de Evo presidente em 2007, e, segundo, para que o MAS seja
governo. Mas da presidência, do governo, governará pelo poder do povo. Eu só
acredito no poder do povo. Há firmeza, somos consequentes com essa proposta,
apesar da reacção do Norte, e não nos assusta, felizmente o povo perdeu o medo
às ameaças do governo dos Estados Unidos. Pensa que possa haver uma atitude intervencionista, mais agressiva? Eu creio que procuram isso, mas felizmente também, agora um governo
deste tipo na Bolívia não estaria só. Agora há presidentes que estão com o seu
povo, ontem somou‑se Tabaré Vázquez como uma grande esperança para os
despossuídos, é uma grande esperança mais que temos que está junto dos
movimentos sociais e políticos para frear a soberba do Império. Eu considero
que essas declarações que vêm da Casa Branca são uma campanha, são ameaças,
amedrontamento, eles farão campanha para os outros candidatos, mas eu creio
que não tomam em conta a decisão do movimento popular de liberar-nos do
império. Qualquer atitude mais agressiva não teria futuro. É assim que o
Império agoniza no Iraque. Eu estou seguro que Iraque será o segundo Vietname
para o governo de Bush e se tenta alguma intervenção em Cuba, na Venezuela,
na Argentina, na Bolívia ou no Uruguai ou no Brasil, esse será o terceiro
Vietname para os norte‑americanos. Além do apoio dos sectores camponeses, dos povos nativos, o MAS
recebeu o voto de outros sectores da sociedade, como camadas médias, sectores
empresariais? Sim, foi um processo interessante. Eu ponho o exemplo de quando
marcho pela rua com os meus colegas, fazendo campanha, então uma senhora,
citadina, bem pintada, apresenta-se e diz‑me: «Eu vou dizer-te: Evo tu
não estás preparado para governar». Foi uma situação bastante agressiva e não
lhe quis responder assim, só lhe disse «obrigado». Então a senhora diz‑me:
«Continua para a frente Evo, eu vou votar em ti porque tu és honesto». Eu
vejo que a classe média, intelectuais, vão‑se juntando, inclusive
empresários sãos, honestos. Estamos juntando sectores empresarias, agro‑industriais. Um governo do MAS precisaria do sustento de outros sectores sociais
além do camponês... Sim, neste momento o movimento camponês, dos povos nativos, é o mais
importante, antes era o movimento mineiro, mas um governo do MAS abarcaria outros
sectores, evidentemente... Vocês estão a propor uma convocatória para redigir uma nova
Constituição? Queremos refundar a Bolívia mediante uma Assembleia Constituinte.
Refundar a Bolívia para unir a Bolívia. Refundar a Bolívia para eliminar a
discriminação, a exploração, a marginalização, a alienação. Refundar a
Bolívia para vivermos unidos na diversidade. Somos diversos, mas formamos um
mesmo país. Você disse que tinham uns 30 por cento dos votos, mas um apoio de 50
por cento, porque havia muita gente que não podia votar nas eleições... O grande problema que temos é o da documentação, o da identificação.
Recordo um caso familiar, no bilhete de identidade do meu pai dizia a data do
seu nascimento. Então eu estava a preparar‑me para festejar o seu
aniversário. Mas ele dizia‑me que não sabia se esse dia era o do seu
aniversário. Eu não entendia. Então ele dizia‑me que não sabia, tal
como os meus avôs, em que dia tinha nascido. «Inventei essa data para ter o
bilhete de identidade», explicou-me. Há famílias que não sabem a data de
nascimento, não têm certificado de nascimento, portanto quando chegam as
eleições não podem votar. Na campanha, há parceiros que me dizem: “Colega
Evo, eu só sirvo para levantar a mão, mas não sirvo para votar”. Imagine-se.
Aos partidos da direita não lhes interessa documentar, porque se documentam os
pobres, isso será um voto contra os partidos da direita. Nós queremos
documentar, mas também não temos elementos. Outros movimentos populares, como o da revolução de 52, também não
fizeram campanhas de documentação? Minimamente nas cidades e em algumas províncias, mas documentação para
todos, não. Claro, até 52 não havia voto universal. O voto universal custou
sangue. Antes de 52 diziam que como os camponeses não pagavam impostos, não
podiam votar, os camponeses não sabem ler e portanto não podem votar, bom,
havia milhares de imposições e entraves, aos camponeses da Nação Aymara consideravam‑nos
quase como animais, como selvagens, portanto não tínhamos direito ao voto. O
voto custou‑nos sangre consegui-lo. Assim como o referendo vinculatório
custou sangue agora. Não somente agora temos o direito de decidir quem é o
presidente, o presidente departamental, mas também o direito a decidir sobre
os destinos do país mediante o plebiscito. Quais seriam os pontos mais importantes da nova Constituição que a
vocês lhes interessa propor? Primeiro, no regime económico, acabar com o Estado concessionário, o
Estado privatizador. No plano social, propomos equidade, igualdade no tema
educação, habitação, saúde e trabalho. Quanto à estrutura política,
reformá-la completamente para que ser autoridade não seja servir-se do povo,
mas um serviço para o povo, que é o que praticamos nas nossas comunidades. E
fundamentalmente procurar, não somente verdadeiro equilíbrio, mas potenciar os
movimentos sociais a partir da nova Constituição, e o debate sobre a demarcação.
Há a região quechua, a região aymara, têm que se respeitar. A nova demarcação
territorial do mapa político na Bolívia. Além disso, nós vamos propor que os
residentes bolivianos noutros países, na Argentina, nos Estados Unidos e na
Europa, tenham direito a votar nas embaixadas, nas nossas eleições. Nós sempre
o propusemos, mas isto não foi aceite até agora, porque essa gente que se foi
para a Argentina, para Espanha, para os Estados Unidos, à procura de
empregos, essa gente foi‑se embora da Bolívia justamente por más
políticas económicas que se implementavam no nosso país. Então estes partidos
de direita, o MNR, o MIR e DNA sabem que se lhes permite votar, o voto será contra
eles. Agora na Assembleia Constituinte, um dos temas centrais da nossa
proposta será que toda essa gente vote. O MAS procurará alianças com outros partidos no caminho para as
eleições presidenciais? Não nos interessa a aliança com outros partidos, nós procuramos a
aliança com os movimentos sociais, do magistério, fabris, estudantis,
camponeses, mineiros, jornalistas, centrais laborais departamentais. Como vê o processo regional que se produziu com a chegada de governos
com diferente signo desde há cinco anos atrás? Em 90-92, quando eu ainda era dirigente sindical, um jornalista perguntou‑me
que pensava de Cuba. Eu respondi‑lhe que um dia haveria muitas Cubas,
com soberania, como Cuba libertada, nações que reivindicarão a sua
independência do Império. Eu digo agora que não me enganei. Temos nações como
a Venezuela, temos inclusive o Brasil ou o presidente Kirchner que dignifica
a posição dos argentinos. Agora junta‑se o Uruguai com Tabaré Vázquez.
Oxalá um dia todos os países latino‑americanos vivamos com dignidade,
com a nossa soberania e freando a soberba do Império, como a de Bush e do seu
governo, que está orientado a só concentrar o capital em poucas mãos e que as
maiorias morram de fome. Um governo do MAS encaixaria também nesse processo? Esperemos que sim, seríamos um governo dos povos nativos, um governo
totalmente diferente, mas anti‑neoliberal e anti‑imperialista,
creio que um governo assim no cenário latino‑americano contribuiria com
essa faceta que ainda falta a esse processo que é a voz dos povos nativos.
Todos os povos latino‑americanos estão no processo de viver na unidade
na diversidade, somos brancos, somos morenos, negros, simpáticos ou feios
como o Negro Morales... E como começou em você essa inquietude pelos processos políticos? Eu jamais, jamais, tinha pensado fazer política nestes níveis,
converter-me numa referência a nível nacional ou quem sabe internacional, ou
que falasse assim de mim o governo dos Estados Unidos. Começou por razões económicas,
eu diria de sobrevivência no Planalto, da nação aymara, da nação quechua, a
necessidade de sobreviver e trabalhar e aí impulsionaram‑me os colegas
do sindicato agrário camponês de São Francisco, em Chapare, Cochabamba. O meu
primeiro cargo foi secretário de desporto do sindicato, que tinha 140
filiados. Chamavam-me «jovem batedor». Sábado e domingo dedicava‑me ao
futebol, e continuo a fazê‑lo, mas agora por problemas no joelho não
posso jogar por dois meses. Também jogo squash, não sou campeão, mas vou andando.
O segundo cargo foi secretário de actas e depois secretário geral do
sindicato. Depois em 88 estivemos na federação e em 92 fui presidente das
seis federações de Cochabamba. Os seus pais tinham tido alguma participação, discutia-se política em
sua casa? O meu pai foi autoridade nativa, mayllku. Ele dizia‑me que se
queria ser importante na vida tinha que respeitar pequenos e grandes. Essa
foi a sua melhor lição. Eu guio‑me por três ou quatro coisas: respeito
ao povo; quem sabe, perdoa; soberba contra o império, não provocador, mas por
defender a nossa identidade, a nossa nação e os pobres, porque às vezes há
que responder de igual para igual; honestidade, sinceridade e coerência.
Essas foram as bases para ter sido primeiro dirigente sindical e agora
dirigente político. Você também trabalhava no campo? Claro, trabalhava como arrieiro, caminhava quilómetros para levar um
rebanho de lhamas de um lugar para outro. Às vezes ia pelo caminho com as lhamas
e passava o autocarro. Os passageiros comiam laranjas e atiravam as cascas
pelas janelas. E ali ia eu, comendo as cascas de laranja que recolhia.
Sonhava com viajar alguma vez no autocarro comendo laranjas. Parece-me
mentira que agora às vezes faço esse trajecto em avião. A primeira escola que frequentou foi aqui na Argentina? Sim. Lembro-me de uma temporada em 64-65, estava em moda a safra na Argentina. Havia um boliviano que recrutava trabalhadores para trazer à safra. Caminhamos a pé até uma estação de comboios, em Oruro, apanhámos comboio, os meus pais trouxeram‑me até à Argentina, passámos por Villazón, La Quiaca, e chegamos a Jujuy. E lembro‑me que chegámos a um acampamento em Calilegua, ao lado de Ledesma. Ali o meu pai foi safreiro e aos filhos dos safreiros mandavam‑nos à escola. Havia tractores que nos levavam numas chatas, faziam subir as crianças e íamos para uma escola. Eu era aymara fechado, na escola não entendia nada, foi a minha primeira escola primária. |