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14/01/2005 Luiz A. Gomez La Paz-El Alto, 13 de Janeiro. Foram três dias e uma madrugada de
greve indefinida nesta cidade boliviana, mas depois de 80 horas as mais de
600 juntas de moradores mobilizadas em El Alto conseguiram uma nova vitória:
o consórcio multinacional francês Suez, o segundo mais importante em serviços
de água no mundo, terá que abandonar a administração de Aguas del Illimani,
empresa que fornece o serviço às cidades de La Paz e El Alto. O governo do
presidente Carlos Mesa, com a sede de governo isolada pela greve altenha,
promulgou ontem à tarde o Decreto Supremo 27293, pelo qual se torna oficial a
terminação do contrato entre a Suez e o Estado boliviano. Esta manhã, os altenhos
decidiram dar por boa a medida e baixaram a La Paz numa marcha «de vitória»
que congregou à volta de 20 mil pessoas. Cinco anos depois da Guerra da Água
em Cochabamba, novamente os bolivianos voltaram a recuperar o que para eles é
um bem comum.
Entre as explosões de dinamite e os gritos que avisavam o presidente
Mesa que «a Bolívia não está à venda», Abel Mamani, presidente da Federação
de Juntas de Moradores da cidade de El Alto (Fejuve), sorria desde a
descoberta da marcha. «Conseguimos um triunfo histórico. A empresa Aguas
del Illimani vai‑se embora do nosso país. Mas agora vamos
continuar a trabalhar, não somente no tema da nova empresa de água que há que
criar para que na verdade sirva o povo, mas nos demais pontos do nosso
caderno reivindicativo». E caminhando, Mamani dirigiu‑se para a sede
da Federação de Trabalhadores Fabris de La Paz, onde iria realizar‑se
um comício. «UMA GUERRA SEM SANGUE» Ontem quarta-feira, dia 12 ao meio dia, em Cela de El Alto não
circulavam automóveis, somente havia centenas de pessoas de pé, queimando llantas
e gritando palavras de ordem frente a cem polícias fortemente armados,
que guardavam a auto‑estrada que leva a La Paz com ordem presidencial
de não reprimir os grevistas. Aí, o sociólogo altenho Pablo Mamani disse ao La
Jornada: «É importante ver como se têm rearticulado, depois de Outubro
(de 2003), estes micro governos de bairro. Mas desta vez é uma guerra sem
sangue, as pessoas saíram pacificamente a exigir os seus direitos». Decretado
como «indefinida e pacífica», a greve desta semana foi de qualquer forma a
última medida de pressão adoptada pelos moradores depois de quase cinco meses
de exigências, marchas e mesas de negociação com o governo boliviano. No Distrito 6, ao norte, os moradores dos bairros de Ballivián e de Alto
Lima ocuparam na terça-feira 11 instalações de Aguas del Illimani. Aí,
onde as casas se mesclam com semeadouros de papa, encontra‑se um dos
principais tanques de água potável mas, paradoxalmente, os homens e as
mulheres que habitam a zona carecem de ligações de água potável e esgoto. De
acordo com as estatísticas do último censo geral de população, 52 por cento
das famílias altenhas carece dos serviços básicos de água e saneamento básico.
E os preços do serviço, «impossíveis... veja, senhor jornalista, muitos de
nós vivemos com 20 bolivianos ao dia (2,50 dólares ao câmbio actual), como
vamos pagar a nossa ligação se nos querem cobrá‑la a 160 dólares?»,
explicava uma senhora. Nesse dia o governo de Mesa enviou uma carta dizendo que iniciava «as
acções necessárias para a terminação do contrato de concessão» assinado com a
empresa. Pela tarde, enquanto uma chuva gelada caía sobre as ruas de El Alto,
no edifício verde da Fejuve encontraram‑se os presidentes das juntas
de moradores numa reunião geral de emergência, para aceitar ou não os termos
da rendição do governo. Depois de três horas de deliberação, os nove
distritos altenhos votaram: não se aceitava a carta, queriam um decreto, e
davam ao governo um prazo de 24 horas para promulgá‑lo ou tomariam as
instalações da empresa. Nessa noite, mal terminou a assembleia, um funcionário
público do governo chamou Abel Mamani para lhe dizer que no dia seguinte, na
primeira hora, estaria pronta a normativa presidencial. «DE FORMA IMEDIATA» O decreto sem assinatura chegou às mãos de todos os moradores na
quarta‑feira, dia 12 pela manhã, mas foi rejeitado. Um detalhe na forma
(com muita substância para os altenhos) obrigou a uma nova reunião de
emergência na sede da Fejuve: não estava claro quando se iria embora a
multinacional, que já nessa altura não deixava El Alto, mas a Bolívia. «Tem
que dizer “imediatamente”; não queremos que fiquem mais tempo». No final do
dia, passadas as seis da tarde, chegou o decreto já promulgado, que, entre os
seus «considerandos», se estende sobre a convulsão social e a rejeição à
empresa multinacional... e dita que as «acções necessárias» para a terminação
do contrato se realizem de «forma imediata». Durante a noite de quarta-feira, distrito por distrito, bairro por
bairro, os dirigentes organizaram assembleias. Hoje, em horas de madrugada,
aceitou‑se a acção do governo de Carlos Mesa. «Sabemos que de qualquer
modo a empresa não vai ir da noite para o dia, mas vamos estar suspensos.
Agora mesmo já devem estar grupos de moradores em redor dos escritórios da
empresa em El Alto para vigiar que não levem nada», explicava depois da
marcha a dirigente Mercedes Condori Quispe, uma mulher baixinha e gordinha do
Distrito 4 conhecida como Mechi, enquanto distribuía a granel fotocópias do
decreto. No comício recordaram‑se os demais pontos do caderno
reivindicativo altenho, que incluem os serviços de electricidade, um juízo ao
ex presidente Gonzalo Sánchez de Lozada pelas matanças de 2003 e temas como
educação, emprego e saúde. E antes de se irem embora, os moradores começaram
a gritar: «Segue‑se a Electropaz», a empresa de energia eléctrica
administrada pela espanhola Iberdrola. «A greve levantou‑se com um
quarto intervalo (continuamos em emergência), para iniciar as mesas de negociações
pelos demais pontos do nosso caderno reivindicativo. E se o governo não nos
escuta, vamos voltar a mobilizar-nos», fechou a manhã de festa dona Mechi
antes de regressar à sua cidade.
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