Informação Alternativa

América Latina

27/10/2004

 

Bolívia inflamável

 

Wilson Sobrinho

Planeta Porto Alegre

 

Cerca de quatro anos depois de rebelar-se contra corporações multinacionais na chamada “Guerra da Água”, de Cochabamba, o povo boliviano toma novamente a história em suas mãos. Desta vez para garantir que o gás natural – uma riqueza estimada em cerca de 70 bilhões de dólares – não figure apenas nos gordos balanços de multinacionais, numa luta que começou há um ano atrás.

 

Na semana passada, todos os caminhos de indígenas, cocaleros e sindicalistas convergiam para La Paz, numa mobilização popular que lembrava o aniversário de ano da “Guerra do Gás” e os 79 mortos e mais de 400 feridos que ela produziu, no primeiro capítulo desta história. Pediam também o julgamento do ex-presidente Gonzalo Sanches de Lozada, hoje exilado em Washington, acusado de ser o responsável pelas mortes, resultado do enfrentamento nas ruas. Mas a principal demanda era o cumprimento do que fora decidido em plebiscito pelo povo boliviano em Julho: o fim das regalias aos “investidores” estrangeiros.

 

Passados três meses do celebrado referendo que mostrou de modo incontestável o apoio popular ao controle estatal do sector, a marcha popular sobre La Paz foi a saída encontrada pelos movimentos sociais para garantir que o projecto não fosse esquecido.

 

A nova lei passou numa primeira votação no Congresso. Se chegar ao final das discussões sem ser dilacerada, as empresas multinacionais que exploram o gás na Bolívia deixarão 50% dos seus lucros em forma de impostos no país, ao invés dos actuais 18%. Além disso, uma empresa estatal irá supervisionar toda a cadeia de extracção, produção e comercialização do gás.

 

Com a lei nas mãos dos parlamentares, os movimentos sociais retiraram-se da capital, deixando cerca de 50 dos seus líderes para vigiar de perto o andamento das discussões. O recado é claro: as novas regras devem beneficiar o povo boliviano, de contrário, mais manifestações irão ocorrer.

 

Contudo, enquanto o Congresso boliviano se abria para a discussão das novas regras em consonância com a decisão de referendo popular de Julho, a pressão interna e externa começou a aumentar no país. Empresários nacionais e estrangeiros opõem­‑se à mudança nas regras e, de fora, EUA e Inglaterra rangem os dentes.

 

O recado mais duro veio do norte. Charles Shapiro, ex-embaixador dos EUA na Venezuela, foi pessoalmente à Bolívia e encontrou-se com o presidente Carlos Mesa. No final da reunião, disse à imprensa que é preciso «medir as consequências e o impacto da lei». Shapiro disse ainda num tom pouco amistoso, mas sem detalhar, que caso a lei seja aprovada, pode «haver complicações» já que os EUA têm «obrigação de proteger os seus investimentos».

 

Uma ameaça bem mais concreta veio da Inglaterra. Segundo a versão electrónica do jornal britânico The Times, o governo inglês teria deixado claro que a promessa de perdão da dívida externa da Bolívia ficaria comprometida caso a nova lei seja aprovada.

 

Evo Morales, o principal líder de oposição, aposta em conquistar a simpatia de dois países que desempenham um papel chave no processamento do gás boliviano: Brasil e Espanha. Morales já manifestou o desejo de encontrar-se com Lula e José Luis Rodríguez Zapatero para conversar pessoalmente sobre o tema, já que tanto a Petrobrás quanto a espanhola Repsol YPF detêm boa fatia do mercado boliviano.

 

Nesta semana, após um encontro com o enviado do governo brasileiro Marco Aurélio Garcia, Morales garantiu não ter ouvido do representante brasileiro nenhum pedido de flexibilização ou de alteração no projecto inicial.

 

As pressões não são apenas externas. A Confederação dos Empresários Privados da Bolívia qualificou a lei como “confiscatória”. Enquanto isso, começam a aparecer boatos de que eventualmente até um golpe de Estado estaria entre as cartas conservadoras para impedir a aprovação da lei. Um texto assinado pelo deputado do MAS (Movimento ao Socialismo) Antonio Peredo Leigue, publicado na última segunda­‑feira pela agência alternativa equatoriana ALAI, sugere que focos conservadores poderiam estar a pensar num golpe.

 

«É evidente que se concentram uma série de factores que a direita não está disposta a aceitar sem usar o recurso dos covardes: colocar-se atrás de efectivos armados para provocar o derramamento de sangue daqueles que seriam os beneficiados», escreve Leigue.

 

No Congresso, a lei deve ser avaliada ponto por ponto. O que faz com que as análises mais optimistas sejam de que ela demore mais de um mês para ser estudada e aprovada. Além disso, as eleições municipais marcadas para começo de Dezembro devem atrasar ainda mais a decisão. Até lá, os movimentos sociais estarão de plantão.

 

Saiba mais:

 

Carl Morttished, National backlash threatens British stakes in Bolivian gas

 

Antonio Peredo Leigue, Bolivia: Otra vez el golpe