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12/10/2004 Alex Contreras Baspineiro * «Só vamos voltar às nossas comunidades quando o governo de Carlos
Mesa promulgar uma nova Lei de Hidrocarburetos e iniciar o julgamento por
responsabilidades contra o ex‑presidente da República Gonzalo Sánchez
de Lozada e os seus ministros», declarou Victoria Alcoba, uma trabalhadora do
campo que vive numa província da região de Chuquisaca, na Bolívia. Ela é uma
das bolivianas que engrossam uma marcha que se dirige à capital do país, La
Paz. Ontem, uma coluna de milhares de homens e mulheres, do campo e da
cidade, iniciou uma marcha que partiu da cidade de Caracollo (Oruro) rumo à
sede do governo da Bolívia. Estima-se que nos 190 quilómetros de distância outros sectores
sociais se juntarão à marcha para chegar a La Paz no dia 18 de Outubro,
quando se completa um ano desde que a dignidade dos bolivianos e bolivianas
tirou do poder o ex‑presidente da República Gonzalo Sánchez de Lozada,
conhecido pelo sobrenome gringo “El Goni”. Victoria Alcoba não está só nem é apenas uma representante das
trabalhadoras rurais desse departamento e do país. Leva nos seus braços, ou
nas suas costas, Zulma, a sua filha de apenas dois anos. Ambas suportam o
rigor da dura travessia: o frio dos altiplanos, a escassez de comida e de
bebida. Apenas a solidariedade das comunidades rurais que atravessam e os
ranchos preparados por mulheres integrantes da marcha sustentam esta
impressionante quantidade de pessoas que caminham três mil e quinhentos
metros acima do nível do mar, rumo à sede do governo do país localizado no
coração do continente americano. Na sua passagem, os caminhantes estão encarregados de desnudar a
realidade das comunidades rurais localizadas nas regiões altiplanas: pobres e
varridas do mapa do país. Unidade popular A grande marcha “Pela Nacionalização, Justiça e Soberania Nacional” é
formada por produtores de coca, trabalhadores da irrigação, aldeões,
estudantes, donas-de-casa e diversos sectores populares de todo o território
nacional. O deputado e dirigente dos produtores de coca que encabeça a marcha,
Evo Morales Aima, afirmou: «Esta é uma mobilização pacífica porque queremos
que se imponha a justiça contra a impunidade, o povo pede a prisão de Goni,
por ele ser o responsável pelos vários assassinatos e também pedimos que
sejam recuperadas as reservas de hidrocarburetos com a nova lei». Os integrantes da marcha portam uma mochila ou um embrulho nas costas
e as suas “wiphalas” nas mãos – a bandeira de libertação nacional com as
cores do arco-íris – avançam a passos lentos mas seguros, comovendo os
milhares de passageiros que transitam pela Estrada Oruro-La Paz. Enquanto essa mobilização se dirige à sede do governo, das cidades de
Nor Yungas, Ventilla, Warisata e outras povoações organizam‑se outras
colunas para seguir em direcção a La Paz. A dirigente Leonilda Zurita assegura que na segunda-feira, 18 de
Outubro, estarão diante da sede do governo mais de 50 mil manifestantes e se,
até esse dia, não tiver sido aprovada a nova Lei de Hidrocarburetos e o Julgamento
de Responsabilidades, haverá uma série de mobilizações contra o governo de
Carlos Mesa. «Não sairemos da sede do governo e não voltaremos de mãos
vazias», adverte. A Comissão Mista de Constituição do Congresso autorizou a votação, no
dia 11, do julgamento contra Goni e dois dos seus ex‑ministros: Carlos
Sánchez Berzaín e Yerko Kukok, acusados de serem os responsáveis pelo
massacre de Outubro. A votação dessa comissão deve ser apreciada em sessão plenária do
Congresso Nacional, que com dois terços dos votos (105 votos) deve aprovar,
ou não, o julgamento. Várias vozes – inclusive de parlamentares bolivianos – asseguram que
se até à chegada da marcha a La Paz não for aprovado o processo de julgamento
contra o ex‑presidente Sánchez de Lozada, «o Congresso deve ser
encerrado». Omar Fernández, dirigente da Federação de Irrigadores de Cochabamba,
comentou que somente a força do povo derrotará os interesses dos políticos,
dos governantes e das transnacionais. Um ano depois Enquanto os trabalhadores rurais avançam a passo seguro, ontem em El
Alto de La Paz, realizou‑se a exumação e o transporte dos restos
mortais das vítimas do Outubro Negro. Segundo dados da Assembleia Permanente de Direitos Humanos da
Bolívia, foram assassinadas 79 pessoas durante a “guerra do gás” e mais de
400 foram feridas a tiro, além de haver uma legião de órfãos e viúvas. «Neste momento não devemos esquecer os nossos mortos, porque morreram
e, principalmente, não devemos esquecer quem ordenou as suas mortes e aqueles
que mataram, aqueles que puxaram o gatilho. Todos devem estar em
Chonchocoro», [1] afirmou Sacha Llorenti, presidente da Assembleia de
Direitos Humanos. A exumação dos restos mortais nos mausoléus construídos nos
cemitérios das zonas populosas de Villa Santiago e Villa Ingenio de El Alto,
cidade que teve a sua população massacrada, foi realizada em presença de
pesar generalizado mas também da lembrança e da promessa de que não se deve
permitir a impunidade. Os bolivianos e bolivianas que integram a Associação de Familiares e
Vítimas da Guerra do Gás e outras organizações populares como a Central de
Trabalhadores de El Alto, a Federação de Comissões de Bairros, Direitos
Humanos e a Coordenadora do Gás, também serão protagonistas, na sexta-feira,
15, de uma marcha que sairá de Ventilla até La Paz. Oscar Oliveira, porta-voz da Coordenadora do Gás, disse que os
movimentos sociais do país exigem justiça pelos acontecimentos de Outubro do
ano passado e a nacionalização dos hidrocarburetos na nova lei. Enquanto o passo dos caminhantes se consolida, hoje deu‑se a conhecer um “documento secreto” assinado faz um ano por representantes do Alto Comando Militar do Exército, mais representantes do MIR, NFR e MNR, os ex‑aliados de Goni, que apoiaram “uma tenaz defesa” nas jornadas de Outubro de 2003. Nessa reunião reservada, mencionou-se que nas jornadas de Outubro supostamente existiam grupos organizados unidos ao narcotráfico e apoiados por organizações subversivas como o ELN e o MRTKL e apoiados internacionalmente pela Venezuela e por Cuba. O principal dirigente dos camponeses deste país, Román Loayza, que também faz parte da marcha, assinalou que no julgamento contra Sánchez de Lozada também devem estar incluídos os políticos que deram aval ao accionar dos militares. A um ano da “Guerra do Gás”, a Bolívia ingressa novamente numa difícil etapa política e social que será determinante não só para o futuro deste país, mas também para as mudanças profundas que se consolidam no continente americano… |
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Jornalista e escritor boliviano.
[1]
Prisão de Segurança Máxima de San Pedro de Chonchocoro, localizada 4.150 metros
acima do nível do mar, na região dos altiplanos (N. do T.)