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20/03/2006 Há 30 anos fechava‑se
o ciclo do terror Emir Sader * Nesta semana, no dia 24,
completam-se 30 anos do golpe militar na Argentina. Com ele se fechava o
círculo de regimes de terror que dominaram a região, desde os golpes
militares no Brasil e na Bolívia em 1964, passando pelos realizados no Chile
e no Uruguai em 1973. Foi o período mais obscuro da
história do continente. A aliança entre o governo dos EUA e as elites
militares e do grande empresariado dos países da região impôs os maiores
sofrimentos de que foram vítimas os nossos povos, desde os massacres dos
povos indígenas e a escravidão. Vários milhares de pessoas foram executadas,
centenas de milhares foram presas e torturadas, sem mandatos legais, outros
tantos se exilaram dos seus países. Cometeram-se crimes hediondos – tortura,
sequestro, desaparição, execução – em nome de uma “Doutrina da Segurança
Nacional”, pioneira das doutrinas de guerra do governo Bush. Foram atacados todos os
vestígios de democracia social e política, foram destruídos os sindicatos e
os partidos, perseguidos os movimentos estudantil, operário e camponês,
reprimidas as universidades e toda a forma de pensamento crítico e
independente. As economias da região foram submetidas abertamente ao domínio
do capital estrangeiro, desnacionalizadas as empresas, privatizado o património
público, desarticuladas as formas de integração regional, mercantilizada a
imprensa, impôs-se definitivamente o monopólio nos sectores industrial, comercial,
bancário, agrário e midiático. A história da região passou a
estar marcada por um antes e um depois das ditaduras militares. As elites
dominantes, através desses regimes de terror, trataram de fazer com que as
classes populares pagassem caro o seu atrevimento de disputar o poder nas nossas
sociedades. Quiseram reduzi‑las ao “seu lugar” de classes subalternas,
exploradas, humilhadas, discriminadas e, com a repressão que desataram contra
elas, prepararam o caminho para os governos neoliberais. O golpe argentino foi o mais
sangrento de todos, porque teve que se enfrentar com uma oposição que, além
da força de massas, conseguiu construir uma impressionante força militar.
Contando com as tenebrosas experiências de tortura da ditadura brasileira – o
“pau de arara” foi uma das mercadorias da pauta exportadora da ditadura – e dos
fuzilamentos da ditadura pinochetista, a ditadura argentina também aprendeu,
com a chilena, que não valia a pena deter as pessoas. Pinochet disse a Videla
que a experiência do Estado Nacional era negativa, que se sucediam campanhas
pela libertação dos presos, que desgastavam o regime. Havia que
“desaparecê-los”. A partir dali, os presos que
eram interrogados sem capuz sabiam que seriam fuzilados, porque não
importaria aos seus torturadores serem reconhecidos. Milhares de pessoas
tiveram os seus corpos jogados no rio da Prata, nos dois voos semanais
conhecidos como voos da morte, que eram acompanhados sempre por um capelão da
Igreja católica argentina. Foi provavelmente este o
destino do Tenorinho, o pianista do Vinicius que se encontrava em excursão
por Buenos Aires, quando foi detido, por engano, por usar barba, confundido
com um líder montonero. Como havia sido torturado sem capuz, porque o
dirigente montonero seria fuzilado, Tenorinho foi assassinado para não
transmitir o seu testemunho sobre as torturas e sobre os seus torturadores. Foram duas décadas de horror
para a região, que ainda não recuperou dos seus efeitos. Muitos políticos que
participaram das ditaduras – no Brasil, para citar apenas os que andam pelos
noticiários de jornal, como Antonio Carlos Magalhães, Jorge Bornhausen, Marco
Maciel, para citar apenas alguns, majoritariamente no PFL – continuam
impunemente a ocupar cargos públicos. As amnistias acobertaram os criminosos e seus cúmplices. Pelo menos Videla e Pinochet têm que se enfrentar com algumas das consequências dos seus crimes. Mas as raízes que os regimes de terror implantaram – inclusive a promoção acintosa de alguns grupos económicos – continuam presentes nas nossas sociedades. ______ * Emir Sader é professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), coordenador do Laboratório de Políticas Públicas da UERJ e autor, entre outros, de A vingança da História. |