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13/10/2004 Três anos com a Zanón:
Fábrica de resistência A Zanón é uma das mais estranhas fábricas de que se tem notícia. Entrar ali é como ingressar num trovão de máquinas incompreensíveis, robôs minuciosos, e pessoas sorridentes que realizam algo que certos sectores judiciais consideram um delito: trabalhar. Quando o trovão amaina escuta‑se música de fundo. Um dos temas favoritos continua a ser do conjunto argentino Bersuit: Un pacto para vivir.
Estranha fábrica. A Zanón não cessava de dar lucros, mas os seus donos geraram um conflito desmesurado para dispensar trabalhadores, reconverter a fábrica e aumentar ainda mais a rentabilidade. (O caso evoca o que foi imaginado pelo senhor Esopo 600 anos antes de Cristo, sobre o dono de uma galinha que punha ovos de ouro, fábula que não circulou no ambiente empresarial argentino). A entidade patronal era apoiada pelos sindicalistas. A manobra chocou contra a teimosia quase inocente dos trabalhadores, que não podiam acreditar que a empresa para a qual tinham trabalhado toda uma vida os estivesse a submeter a semelhante injúria. O senhor Luis Zanón, homem de sorriso, intenções e amizades postiças (a mais notória, talvez, Carlos Menem), acabou por abandonar a fábrica, no que a juíza Norma Rivero considerou mais tarde um lock out ofensivo. A partir de então começou outra dança judicial. (Aclaração para não iniciados: a justiça argentina tem mais caras do que um dado. Às vezes, tudo depende do acaso, ainda que também seja sabido que os que manejam o negócio podem usar dados viciados). O negócio passou a ser o despejo, a que os trabalhadores resistiram em cinco oportunidades, enquanto ocorrem outros dois factos que transformam a Zanón numa das fábricas mais estranhas de que se tenha notícia: · Resistem trabalhando e produzindo cada vez mais. Aumentaram a planta de pessoal em 80 por cento, e criaram uma cooperativa para que a justiça os reconheça. Chama-se FaSinPat (Fábrica Sem Patrão). · São sistematicamente acossados de diferentes modos: judicial, policial, político ou mafioso. De novo, o dado é o mesmo, tudo depende de qual seja a cara que lhes calhe em sorte. Ou em desgraça. Veteranos do delito Em que medida a Zanón é criminalizada? «De todas as formas, e desde o primeiro dia» diz Raúl Godoy, homem de boné eterno e referência do protesto laboral. «À partida acusaram‑nos de usurpadores. Em Outubro do 2001 tomámos a fábrica, em Novembro fizemos um corte na estrada, e aí já me iniciaram um processo. Usam como provas fotos onde desenham círculos para identificar os que andam a procurar. É cómico: usam um vídeo da televisão onde se vê como há uma grande assembleia na estrada a votar pelo corte, com gente da Universidade do Comahue, docentes, o MTD de Neuquén, as pessoas da Zanón, vizinhos... mas processaram‑me só a mim como suposto instigador. Começou uma perseguição mais seleccionada». Godoy é integrante do Partido dos Trabalhadores pelo Socialismo (PTS) mas conseguiu não ficar afectado por isso. Na Argentina uma enorme quantidade de pessoas supõe – com boas razões – que os partidos políticos, os seus militantes ou dirigentes, pertencem à espécie biológica dos vampiros. Não obstante, Godoy é respeitado até pelos apartidários e apolíticos, enquanto o PTS em Neuquén ficou localizado no último lugar nas eleições de 2003, abaixo inclusive de outras forças de esquerda, sem ter podido capitalizar o prestígio da luta da Zanón. A própria assembleia da Zanón votou contra que qualquer dos trabalhadores se apresentasse como candidato. Pressões e perseguições: houve ameaças a Godoy por parte de um comissário chamado Herrera, que a justiça não tomou em conta. Ameaças e exibição de armas de fogo por parte da polícia contra as pequenas filhas de Godoy, a quem ademais espojaram a casa num roubo que os vizinhos descreveram como «operação de comandos». Um caso paradigmático foi o do sequestro e roubo perpetrado por dois delinquentes fugidos da Unidade 11, a quem o diário Río Negro definiu como «dois veteranos do delito». O principal era «um Gordo Valor de Neuquén» exemplifica Godoy, para referir-se a esses delinquentes cuja fronteira com os polícias é de uma infinita leveza. O seu nome: Nelson Gómez Tejada (não confundir com Tejada Gómez, poeta progressista dos anos 70). O seu compincha foi Juan Antonio Gómez. Veteranos do delito não pela sua idade (37 e 25 anos), mas pela sua constância. Estes senhores foram à casa de Miguel Vázquez. Os vizinhos denunciaram movimentos estranhos porque Gómez estava no telhado da casa a cortar os cabos de luz e telefone. Chegou a polícia, que conversou amavelmente com Gómez Tejada, e se retirou do lugar. Os dois Gómez estavam nesse momento fugidos da Unidade 11 e com mandato de captura mas a polícia, talvez num gesto humanitário, não quis cercear a sua liberdade. Gómez Tejada, armado, entrou na casa, reteve a família, e roubou o dinheiro com que no dia seguinte se pagaria aos trabalhadores da Zanón, mais de 20.000 pesos. Outro trabalhador, Miguel Papatryphonos, chegou no seu Fiat Uno à procura de Vázquez. Gómez Tejada levou ambos, e roubou também o Fiat Uno. O cúmulo de denúncias conseguiu que a polícia o detivesse, e passadas poucas semanas voltou a fugir da Unidade 11, qual criança que foge da escola. Godoy: «Depois foram a julgamento mas saíram sobressaídos porque dizem que não havia provas, e quando cometeram o roubo estavam fugidos da prisão!». O dinheiro nunca apareceu. O diário de Río Negro, nas suas crónicas do julgamento, comentou como a promotoria «interrogou a fundo as vítimas, como se fossem os acusados». Os trabalhadores acabaram lançando sobre o edifício dos tribunais ovos, tomates e zapallos podres, símbolo da sua opinião sobre a justiça. Telemóveis sob escuta Houve mais. A tentativa de sequestro de Carlos Acuña, responsável de imprensa da Zanón – evitou‑se chamando a atenção aos gritos quando o queriam meter num automóvel – ameaças telefónicas, carros misteriosos: o mesmo de sempre na Argentina. Nenhuma denúncia efectuada pelos trabalhadores prosperou. A justiça criminaliza o protesto, mas nem sempre criminaliza o crime. Outra operação de comandos sucedeu em Dezembro do 2003, quando pessoas com armas longas chegaram à Zanón, dirigiram-se ao sector de vendas ao público, ataram os trabalhadores que estavam ali, deixaram uma generosa recordação de coronhadas, e levaram a arrecadação do dia, fugindo com toda a comodidade e intrepidez para a zona onde está a esquadra. A perseguição também exibiu inovações tecnológicas, como os telemóveis colocados sob escuta (ou “fincados” segundo a velha mas vigente gíria dos tempos da ditadura). «Para nós é um folklore. Estamos numa reunião a conversar, chamam outro colega que está lá fora, e passam‑lhe a gravação das nossas vozes, tudo o que estamos a falar. Usam o teu próprio telemóvel como um rádio. Recebo uma mensagem, segundo o identificador de telefonemas trata‑se de um colega, mas na realidade passam‑me a gravação de uma reunião. Já nos provoca riso. No outro dia disse a um: tira o telemóvel, pá, que estás a transmitir toda a reunião. Isso cá é do mais normal». Os trabalhadores têm causas na Corte estadual, tribunais de primeira instância, juízes de instrução, laborais, câmaras: «Nunca se sabe de onde vai sair o disparo» assinala Godoy. Em 2004 a surpresa foi no tribunal portenho [que diz respeito à capital, Buenos Aires] que leva adiante a quebra, quando a delegação de trabalhadores se encontrou com o próprio Luis Zanón, que além do seu sorriso tinha outros implantes: funcionários do Banco Mundial, do Banco Interfinanças e da burocracia sindical ceramista deslocada do sindicato. Os bancos são credores da Zanón, e os sindicalistas pertencem à espécie que engordou graças às suas boas relações com as entidades patronais. Medita Godoy: «Isso mostra a magnitude do que temos defronte. O perigo é grande porque muitos planetas se estão a alinhar contra nós e em geral contra as fábricas recuperadas. Querem ver-te ajoelhado, demonstrar que os trabalhadores não servem para nada, e menos para manejar empresas». Onde está o dinheiro? Talvez seja verdade. Os trabalhadores não servem para manejar empresas ao estilo que é propugnado pela banca internacional e pelo soviete empresarial. Exemplos: expulsaram a burocracia sindical (e não a engordaram), puseram em marcha uma fábrica que a entidade patronal tinha abandonado, e não despedem pessoal, mas dão sim trabalho. A fábrica tem 80.000 metros cobertos e ocupa nove hectares ao todo. O percurso por esses armazéns que chegam até ao horizonte mostra máquinas com ecrãs que têm uma chuva de pontos verdes, tipo Matrix, homens e mulheres concentrados no que estão a fazer mas que se dão tempo para conversar, pinças gigantes, erucas mecânicas com tenazes que agarram cerâmicas e as empilham. Guanacos mecânicos que cospem cola para as caixas de papelão. Chapas que se movem como mãos de ferro que empacotam tudo. Além há uns funis gigantes, de quatro ou cinco andares de altura dentro do armazém, que misturam uma substância barrosa. Passa um veículo interno de carga de material que desliza sobre vias, como um trem, fazendo soar um alarme: ninguém o maneja, e depois escuta‑se a suavidade de Un pacto para vivir. As caixas de papelão dizem FaSinPat, a marca dos cerâmicos. Na página web www.fasinpat.com.ar podem‑se conhecer os modelos e desenhos produzidos na fábrica, tanto em cerâmicas de monococção (há 13 colecções diferentes, entre elas Mapuche e Obrero), porcelanato natural e porcelanato polido (outras doze colecções). Estes últimos produtos colocam a FaSinPat – potencialmente – num nível capaz de competir internacionalmente já que de facto a Zanón, antes de degolar a galinha dos ovos de ouro, exportava para a Austrália e dez países europeus. E um dos seus projectos, conta Cristian Moya, era focalizar a fábrica exclusivamente na fabricação de porcelanato: «É o supra‑sumo em soalhos a nível mundial, um soalho polido, espelhado. Somos a única fábrica latino‑americana com três polidoras, e a única que elabora tudo, desde a matéria‑prima até ao produto final. É inexplicável e absurdo que com essa possibilidade tenham levado as coisas ao extremo de matar vida». Algumas hipóteses sustentam que o senhor Zanón ia transferindo os seus ganhos para o estrangeiro, outros desconfiam que os perdeu no jogo especulativo financeiro dos anos 90, e todos coincidem que qualquer dessas possibilidades eram práticas quotidianas na época menemista e do seu apêndice delarruísta. Continua o percurso. Na sala de administração há uma assembleia (os telemóveis estão lá fora) e vêem‑se cartazes: «Exigimos trabalho genuíno, dão‑nos balas de chumbo e repressão» e «Clarín, jornalismo de infantaria». Há desenhos de miúdos da primária: imagens de operários trabalhando, tema que em amplas zonas da Argentina se converteu em realismo mágico. O truque do futebol O entrerriano Miguel Ramírez e Reinaldo Giménez são dois dos jovens veteranos da fábrica. Tomam mate, e repassam a história. Até 1998 tudo parecia ir razoavelmente bem. Giménez: «A Zanón estava a ganhar 44 milhões de dólares anuais e em 94 chegou a 67 milhões. Mas começaram a fazer cortes de insumos, reposições, tiraram‑nos até as médias de trabalho, tudo com a cumplicidade do sindicato». O Sindicato de Operários e Empregados Ceramistas de Neuquén (SOECN), e a comissão interna da Zanón, estavam controlados pelos irmãos Montes, que mantinham uma relação romântica com a entidade patronal. Ramírez: «Zanón era muito falso. Vinha um par de vezes ao ano, percorria a fábrica, dava palmadinhas nas costas a algum. A esse deitavam‑no fora: descobrimos que era a sua forma de marcar os que não lhe agradavam». Estratagema típico: «Se queriam despedir cinco colegas, anunciavam vinte demissões. Então o sindicato fazia que intervinha, lutava e negociava, e terminava dizendo: bom, conseguimos que reincorporem quinze. E assim despediam os cinco que queriam enfrentar a entidade patronal». Em 1998 a lista marrom (sindicalismo de esquerda e combativo) conseguiu afastar a burocracia da comissão interna. As condições na fábrica continuavam a piorar e os afastados começaram a cumprir um papel policial em relação aos seus colegas. Como organizar-se nesse ambiente? Carlos Acuña: «Ocorreu‑nos organizar um campeonato de futebol fora da fábrica. Há 14 sectores, cada um com a sua equipa, que elegia um delegado para ir aos sorteios. Aí aproveitávamos para conversar». O mecanismo clandestino funcionou como modo de organização e comunicação interno (e os campeonatos eram renhidos). Por exemplo, a empresa falava de crise, mas nos sorteios do campeonato acumulavam‑se dados e faziam‑se contas: «Que crise, se saem 20 camiões por dia, têm 25 por cento do mercado interno e exportam a não sei quantos países? Que crise, se lhes dão vantagens impositivas na província, empréstimos e todas as vantagens imagináveis porque a Zanón, ademais, estava à sombra de Sobisch?» Jorge Sobisch é o governador neuquino que se define a si mesmo como um lobbysta das empresas. A vida pelo paTrão No ano 2000 a situação interna foi‑se agravando, atrasou-se o pagamento de salários, e em Junho morreu na fábrica Daniel Ferrás, 20 anos, de uma paragem cardio‑respiratória. Moya: «Aí vimos que a sala de primeiros socorros era uma fachada, até a botija de oxigénio estava vazia». Ramírez: «Não nos davam nem roupa, não nos pagavam, a gente começou a ver que tudo estava podre, ainda por cima aconteceu isto do Daniel». Desatou-se um conflito que durou nove dias e acalmou‑se quando Zanón começou a regularizar pagamentos. Em Dezembro de 2000 os trabalhadores da fábrica puderam dar uma sapatada diferente, que na Argentina há arestas de façanha: ganharam o sindicato à burocracia sindical, e Raúl Godoy ficou como secretário geral do grémio. O conflito em 2001 foi‑se agravando. Ramírez enumera a sequência: «Suspenderam pessoas, começaram as greves e apodreceu tudo». Giménez relata o que considera o grande erro de Zanón, desenhando em poucas palavras um tratado sobre psicologia patronal e operária: «Aqui há pessoas que trabalham há 20 ou 25 anos. Pessoas que nunca faltaram: viviam para a Zanón. Ele teria provocado uma grande divisão se tivesse dito: aos sindicalistas não lhes pago porque são vadios, pelo que seja, mas àquela outra gente sim pago‑lhes porque sempre cumpriu. Mas meteu todos no mesmo saco. E as pessoas com mais antiguidade disseram: este desgraçado me tivesse pago a mim. Dei-lhe a minha vida, mas não tem sentimentos, nem compaixão. Não faz diferenças». O conflito transformou‑se em greve, os trabalhadores instalaram tendas fora da Zanón, começaram a fazer piquetes, marchas, actos. Como contrapartida, Zanón recebia empréstimos da província para ir pagando os salários (mas ficava com os empréstimos e não pagava). Ou saía a notícia sobre a participação do senhor Zanón em jantares de beneficência em Buenos Aires junto a Domingo Cavallo, Amalita Fortabat, Franco Macri e gerentes das empresas privatizadas, pagando 10.000 dólares a refeição para paliar o problema da pobreza. No 1º de Outubro de 2001, ante o que já constituía um abandono por parte da entidade patronal, ocuparam definitivamente a fábrica. Giménez: «Aí desencadeou‑se tudo e o pessoal hierárquico teve que ir embora. Fizemo‑los sair. Dissemos aos chefes que não podíamos permitir que as coisas continuassem a funcionar desse modo. Não pressionamos ninguém. E muitos decidimos ficar. Ficou também um guarda da empresa, mas também não lhes pagaram nunca e acabaram indo embora». Moya: «Fazíamos ranchos populares, eventos, tudo para subsistir. Mas a fábrica era um cemitério, totalmente parada». Os trabalhadores receberam apoio da comunidade. Das escolas, dos clubes, dos vizinhos, ou um caso extremo: os presos da unidade carcerária mandavam‑lhes as suas rações de comida. Fizeram piquetes, mas arrependeram‑se ao dar conta que a ideia original de protesto se transformava em isolamento. «Os que estavam do outro lado eram trabalhadores, iguais a nós» recordam. É característico de qualquer conversa na Zanón, que os operários manifestam a sua solidariedade formal com os piqueteiros, mas empenham‑se em marcar as suas diferenças. Carlos Quiñimir: «O povo dá‑se conta que não somos piqueteiros, mas pais de família». O preconceito, talvez involuntário, não late só na classe média. De quem é a fábrica? O instrumento de luta dos trabalhadores passou a ser o megafone. O volante. A palavra. Saíram a explicar a cada pessoa o que se passava com eles. Subiam aos transportes colectivos e durante a viagem contavam a sua história. Com o megafone instalavam‑se nos bairros para se dar a conhecer e transmitir a sua situação e as suas acções. Na estrada, não cortavam o trânsito mas entregavam folhetos aos automobilistas que passavam. «Muitos paravam e tiravam da mala alimentos que traziam para nós», diz Giménez. «A solidariedade foi tremenda» recorda Ramírez, «mandavam‑nos tanta comida que não tínhamos onde guardá-la. Montávamos sacos e vendíamos para o fundo de greve. Houve muito apoio da comunidade e dos pequenos comerciantes». Porquê tanto apoio? Giménez: «Sempre dissemos que a fábrica não é nossa. Estamos a usá‑la, mas é da comunidade. Perguntavam-nos o que estávamos a fazer, e dizíamos que não éramos piqueteiros intransigentes, com paus e tudo isso. Púnhamos gomas, no máximo, e se alguém tinha uma dificuldade ou um acidente ajudávamo‑lo. Decidimo-lo em assembleia. Os colegas disseram: não queremos cortar mais. O que havia que fazer era explicar e explicar, porque senão ninguém entendia o que estávamos a fazer, acreditariam que estávamos a divagar». Em Dezembro de 2001 uma das marchas da Zanón frente à governação foi reprimida memoravelmente pela polícia cujos chefes gritavam «aos camisas marrons!» para que não houvesse confusão sobre a quem havia que caçar. Ali os operários queimaram os telegramas de despedimento que lhes tinham enviado. Em Março de 2002 puseram em marcha as máquinas, e a ideia de estatizar a fábrica sob controle operário. Carlos Acuña, encarregado de imprensa. «Sabemos que a fábrica é totalmente rentável, continuamos a admitir pessoas, pagamos todos os serviços, e pensamos que se há um excedente económico não tem que ir para nós, nem para os políticos nem para os empresários, mas para a comunidade». Ainda que a ideia da cooperativa não os seduza (porque querem a estatização) formou‑se a FaSinPat como uma saída transitória para tomar a cargo a Zanón. Converteram-se em tema de estudo. Ramírez: «Fizeram filmes connosco os da Cáritas, e Naomi Klein. Vêm delegações de Itália, França, Bulgária, Alemanha, Estados Unidos, Espanha, de todos os lados». Convivência e linha de produção A assembleia estabeleceu algumas normas de convivência: chegar 15 minutos antes e sair 15 minutos depois do horário estabelecido, por exemplo, para que os trabalhadores se ponham em contacto sobre as novidades do dia. Moya conta que houve um despedimento na fábrica «de um colega que estava a roubar». Ao invés, «a um colega com problemas de vício pagou‑se‑lhe um tratamento, e conserva‑se‑lhe o posto de trabalho». O tempo de almoço no refeitório da Zanón decide‑o cada um. Moya: «Todos conhecem a sua responsabilidade. Algumas normas podem ser até parecidas às que tinha a empresa, mas isto não é um campo militar». Durante o almoço pode ver‑se o próprio Godoy servindo massa a outros operários, ou aos jornalistas assombrados. E o ritmo de produção? Descreve Quiñimir, compartilhando um mate sem que as máquinas do seu sector (que levam as cerâmicas para os fornos de cocção) se detenham: «Quando tinha patrão não podia conversar como o estamos fazendo neste momento. Não podia parar nem um par de minutos. Agora trabalho calmo, com a consciência, e sem um chefe que esteja a gritar que há que chegar ao objectivo‑objectivo-objectivo. Faziam-se ciclos muito rápidos nos fornos. Chegou-se a trabalhar em 28 minutos quando o aconselhável é 35 ou mais, como o fazemos agora». Qual é a diferença? «Era muito fácil queimar as mãos e pela velocidade das máquinas não podias pará‑las para fazer arranjos, era preciso destravá‑las em andamento e isso provocava muitos acidentes. O típico, que te cortes dois ou três dedos». Isto poderia implicar que as coisas não marchem ao ritmo que costuma propiciar o capitalismo cocainómano das últimas décadas, mas não obstante os trabalhadores foram aumentando a sua produção, os ganhos, e com isso o número de trabalhadores: de 240 ao retomar a fábrica, a 400 em 2004. A esquerda, a assembleia, e o alternativo Qual é a incidência do político‑partidário no que diz respeito à assembleia? Diz Quiñimir: «A assembleia é o principal. Os partidos têm um papel importante, mas subordinado à assembleia. Não há um partido que diga “isto faz‑se e isto não”. Houve alguns encontrões porque resistimos a que nos manejem o conflito, mas a carga acomodou‑se em andamento. Apoiaram-nos partidos de esquerda em momentos difíceis, mas não nos confundimos nem deixamos que por isso haja uma influência directa». E Godoy? «Raúl é um colega de trabalho e o facto de que seja militante de um partido é outra coisa. O conflito fez‑nos aprender a todos. Há que respeitar o trabalhador, e o militante. Os dois precisamos do outro. Quando algo se trava, é a assembleia que decide, que é a autoridade máxima». Alberto Esparza – no esquecimento pré-histórico está a sua afiliação ao justicialismo – contribui com outro diagnóstico: «Os colegas que estão na coisa política, têm que voltar à produção. E os que estão na produção têm que estar prontos para tomar as rédeas. Senão comete‑se o erro, sem ânimo de ofender, de perguntar onde está Raúl Godoy: esse é um reflexo da direita que sempre procura um caudilho. Aqui há pelo menos cem pessoas que poderiam ser delegados em qualquer fábrica». Mas há uma imagem de que a condução na Zanón é do PTS. Alberto: «Pode‑se dizer que a condução é de esquerda, que há oposição a este sistema capitalista. Mas para mim o pior que poderia ocorrer é que se transforme isto numa questão sectária ou partidária». Carlos Acuña acrescenta: «Raúl é de um partido, pode trazer a sua proposta, e eu –que não sou de um partido – trago a minha que discuti com os meus em minha casa. Vota‑se e decide‑se. Isso simplifica‑nos as coisas, e faz que não tenhamos o pé de um partido político na cabeça». Carlos reconhece que «aprendemos muitíssimo da esquerda ou do PTS, como eles aprenderam muito de nós». Por exemplo? «Que cá não há que vir com coisas esquisitas, porque não correm». Que coisas esquisitas? «Querer impor uma política. Querer manejar o conflito. Cá o conflito maneja‑o a base». Alberto Esparza soma outra faceta política: «Uma pessoa não pode desligar-se da sociedade e ter uma mensagem justiceira reivindicativa que não chegue a ninguém». Parecem as palavras de um militante: «Não milito, mas quero deixar algo semeado. Não sei: cá vêm miúdos, estudantes, e perguntam‑nos como fizemos. A primeira coisa que fizemos foi não respeitar as leis. E a mim agrada‑me explicá-lo com as minhas próprias palavras. Ser partidário é muito fácil porque te atas a uma linha definida que te ditam e pronto. Muito mais rico é o que fazemos cá, onde discutimos, estabelecemos consensos, e sabemos que interesses queremos defender». Alejandro López acredita que nada do que vem será fácil: «O governo tem uma política clara de entrega dos recursos naturais, e repressão dos trabalhadores. Então temos que pensar como fazer para que cada conflito seja da sociedade. Digamos: o problema da educação não é das escolas. Também é meu, que tenho uma miúda de nove anos. O tema da saúde não é do hospital: é de todos. E o desemprego o mesmo». Alberto acredita que iniciativas como a Coordenadora do Alto Valle (que reúne vários movimentos e grémios) podem potenciar a criação do que chama uma ferramenta: «Não queremos ser oposição toda a vida. Temos que dar um passo. Não sei bem qual é, mas temos que montar o nosso espaço para discutir, para ter o nosso programa e fazer um combate de fundo. Quem move a economia somos nós os trabalhadores. Então é uma picardia que não sejamos nós os trabalhadores que decidimos o que queremos com o nosso futuro». Alejandro acredita que nem tudo pode ser defender-se, contestar, reagir: «Há que passar à ofensiva. Não sei bem como, mas é algo que justamente queremos ir conversando com os companheiros». Alberto: «É que se não, convencem-nos de que o único âmbito onde se podem tomar decisões é o familiar. E não nas questões sociais. Isso é horrível. Nós fizemos outra coisa: fizemo-nos cargo dos meios de produção, e os pusemos em marcha. Isso, para mim, é o mais alternativo que há». |