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04/12/2006 – Entrevista a Michael Löwy [1] – Anderson Barbosa Jornal
dos Trabalhadores Rurais Sem Terra As organizações de esquerda precisam processar a fusão do pensamento
marxista com as características particulares do povo da América Latina para
promover a construção do socialismo do século 21. Para isso, é preciso
incorporar as experiências dos diversos movimentos sociais, em especial o
indígena e o camponês, protagonistas nas lutas sociais na região. A análise é do professor Michael Löwy, cientista social brasileiro
radicado na França, onde lecciona na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais
da Universidade de Paris. «O motor da mudança passa por baixo, por movimentos
sociais e correntes políticas capazes de exprimir essa radicalidade», explica
o professor. Segundo Löwy, a esquerda precisa encontrar o ponto de convergência
entre as mobilizações camponesas, indígenas e o movimento urbano explosivo
para atacar o capitalismo. «Socialistas e marxistas precisam pegar a bandeira
do socialismo do século 21 e levar para o debate da esquerda e dos movimentos
sociais». Leia a seguir a entrevista com o professor Michael Löwy. – Qual a trajectória do pensamento de esquerda na América Latina no
século 20? O primeiro período revolucionário foi nos anos 20 e 30, quando
aparecem pensadores como José Carlos Mariátegui [2] e Julio Antonio Mella [3].
Também aconteceram levantes na Nicarágua, em El Salvador e no Brasil. A
partir dos anos 30, passa a predominar o stalinismo burocrático e o
reformismo, que já não sendo mais revolucionários, conduziram a esquerda
latino-americana a um impasse. Até que acontece a Revolução Cubana em 1959,
inaugurando uma nova época revolucionária. Daí surgem uma série de movimentos
de luta, guerrilhas e mobilizações sob a influência do exemplo de Cuba e do
pensamento de Che Guevara. Esse período termina com a derrota dos
sandinistas, na Nicarágua, em 1990. O impacto da revolução cubana, por outro
lado, ainda persiste de maneira menos evidente na cultura política que surge
das lutas sociais. – Em vários países foram eleitos presidentes com origem na esquerda.
Como o professor vê esse novo quadro? Muitas vezes, quando discutimos a América Latina, vamos para o lado
dos governos de esquerda. É um aspecto importante, mas não podemos limitar‑nos
a isso. Nos últimos 10 anos, aconteceram uma série de vitórias políticas da
esquerda (no sentido bem geral da palavra) na região. Examinando mais de
perto o fenómeno, vemos duas vertentes. Uma de ruptura com o neoliberalismo,
como a revolução bolivariana, na Venezuela; o processo na Bolívia e em Cuba.
Forma-se um eixo anti‑imperialista, que busca romper com o
neoliberalismo. A outra vertente é formada por governos que não romperam com
o modelo económico, mas que procuram dar uma variante mais social, o que
chamo de social-liberalismo. Neste quadro estão o presidente Lula, no Brasil,
Tabaré Vázquez, no Uruguai, Michele Bachelet, no Chile, e Néstor Kirchner, na
Argentina. Não são governos da direita neoliberal, mas não enfrentam esse
modelo. Dentro do campo do social-liberalismo, há uma vertente mais aberta ao
livre comércio, aceitando as ideias dos tratados comerciais dos Estados
Unidos, como o governo chileno e, em parte, o uruguaio. O outro sector aposta
na integração latino-americana, como Brasil e Argentina. Os governos à
esquerda ganharam porque há um descontentamento social enorme na região. Os
20 anos de políticas neoliberais do Banco Mundial e do FMI (Fundo Monetário
Internacional) tiveram consequências sociais catastróficas para a maioria da
população. Foram agravadas as desigualdades sociais e as consequências
ecológicas foram dramáticas. – Nesse contexto, como você avalia a actuação desses governos? Os governos geralmente correspondem pouco à ânsia de mudanças
radicais, com excepção da Venezuela e Bolívia. A esperança de mudanças não
pode esperar o cumprimento das suas promessas. Não podemos apostar na
existência de disputas internas que mudem a correlação de forças dos governos.
A mudança passa mesmo pela capacidade dos sectores populares se organizarem e
lutarem para mudar o quadro. Isso vale para todos os países, inclusive para
os mais avançados. A Venezuela, por exemplo, passa por um processo muito
interessante, mas é excessivamente dependente de uma pessoa, no caso, Hugo
Chávez, e de iniciativas que acontecem de cima para baixo. – O que a esquerda
latino-americana precisa fazer para efectuar as transformações sociais na
região? A mudança depende da auto-organização popular, social e política. É
importante ter expressões políticas, partidos e correntes partidárias
radicais de esquerda. Os partidos devem ser a expressão dos movimentos
populares, e não manipuladores eleitorais. O motor da mudança passa por
baixo, por organizações sociais e correntes políticas capazes de exprimir
essa radicalidade. Nos últimos 20 anos, o movimento camponês e indígena tem
sido o mais activo, combativo e radical. É o mais importante na América
Latina. Isso vale para Brasil, México, Equador, Bolívia (em parte, porque há
uma convergência de urbano e rural). Com excepção da Argentina, onde o motor
das lutas é a população urbana pobre; da Venezuela, que tem a população pobre
da periferia urbana saindo às ruas para apoiar Chávez; e agora há Oaxaca, no
México. – É comum algumas organizações de esquerda usarem as lutas sociais
para justificar as suas linhas de pensamento e doutrina. Como podemos
analisar o quadro político e social sem resumir experiências particulares a
modelos europeus pré-concebidos? Boa parte da esquerda latino-americana ainda pensa com base em
modelos como o leninista, maoísta ou trotskista. Temos muito a aprender com o
pensamento marxista europeu e asiático. O marxismo e o socialismo são
universais. O arroz, por exemplo, é o mesmo em todos os países, mas cada povo
tem a sua maneira de prepará‑lo. O arroz socialista deve ser preparado
aqui na América Latina, da nossa maneira e com os nossos temperos afro-indígenas.
O desafio é não cair na ideia de socialismo nacional nem pensar que está tudo
nas obras de Marx, Lenin ou Trotski. Precisamos ter a humildade de aprender
com as experiências de lutas sociais. Não podemos impor o nosso esquema e
enquadrar os movimentos. – Se os camponeses e indígenas, que não estão no centro da produção
do capital, são os protagonistas políticos, como fica o marxismo
latino-americano? O marxismo é formidável, mas precisa ser actualizado e “latino-americanizado”.
É preciso dar conta da importância dos camponeses. Não só de agora, mas desde
o começo do século passado. Os pensadores que trataram de aplicar o método
marxista de forma criativa na região deram‑se conta que o campesinato
tem um papel muito mais importante do que na Europa ou até do que imaginava
Marx. É preciso ler de maneira diferente da forma clássica da esquerda,
baseada no operariado da fábrica urbana. Como o capitalismo funciona a partir
da produção e da indústria, os operários podem parar as máquinas. Isso é
importante, mas não é suficiente para derrubar um sistema. O capitalismo é um
sistema político, social e económico que só se derruba com uma acção
revolucionária. Para isso, é preciso ter a maioria da população, que não é
formada por operários fabris, mas por camponeses e massa pobre urbana. Apesar
da sua importância, a ideia da revolução como tarefa da classe operária e
industrial nunca correspondeu à realidade, muito menos na América Latina.
Precisamos ter uma visão ampla do sujeito do processo revolucionário. O
capitalismo sempre pode dar a volta por cima enquanto controlar o aparelho de
Estado e a hegemonia. É preciso quebrar a hegemonia ideológica e o controle
político do capital. – No meio dos movimentos camponeses e indígenas e das revoltas
urbanas explosivas, qual o desafio para a esquerda para resistir ao
neoliberalismo? O desafio é encontrar o ponto de convergência das mobilizações
camponesas e indígenas com o movimento urbano explosivo que está a aparecer,
em torno de um combate comum: o rompimento da hegemonia neoliberal e
imperialista. E também para buscar alternativas. Se nós queremos ser
radicais, precisamos atacar pela raiz o mal do neoliberalismo, da dominação,
da dependência e da pobreza. Em última análise, a raiz é o capitalismo. Essa
compreensão pouco a pouco vai se desenvolvendo em terras latinas. Se o
problema é buscar uma alternativa ao capitalismo, coloca‑se novamente
a questão do socialismo. Socialistas e marxistas precisam pegar a bandeira do
socialismo do século 21 e levar para o debate da esquerda e dos movimentos
sociais. Temos que colocar a perspectiva do socialismo, sabendo que não virá
amanhã, mas como uma forma de alimentar as nossas lutas atuais, que são
bastante concretas e imediatas. – Como o professor vê a ideia do socialismo do século 21 no contexto
latino-americano? O desafio colocado por Chávez de pensar o socialismo do século 21 é
muito rico. Precisamos lembrar das ideias de Mariátegui do socialismo
indo-americano, que eu chamaria de afro-indo-americano. O socialismo não será
cópia de outras experiências, mas uma criação heróica dos povos. Precisamos
fazer um balanço crítico tanto da social‑democracia como dos países do
leste europeu. O socialismo do século 21 só tem futuro se incorporar as
experiências dos movimentos sociais, indígenas, camponeses, negros, mulheres
e ambientalistas. Por aí passa a utopia revolucionária latino-americana. – A América Latina seria o terreno mais fértil para a construção de
um novo socialismo? Não conheço suficientemente a experiência dos movimentos sociais na
África e na Ásia, mas a América Latina parece a ponta avançada desse
processo. Só que não se pode esquecer o resto do mundo: é preciso ser uma
locomotiva para puxar outros vagões. É importante construir pontes entre
lutas sociais e movimentos de esquerda aqui, na Europa, na África e na Ásia.
O imperialismo e o capitalismo são um sistema mundial. O Fórum Social Mundial
e a Via Campesina são um passo importante, mas a esquerda mais radical e
antiliberal precisa construir outros espaços. Há poucas experiências de discussão,
relacionamento e entrosamento da esquerda a nível internacional. – Como o professor vê a conjugação dos movimentos sociais com a luta
ambiental para a construção da hegemonia política? A questão ecológica e ambiental é o grande desafio para o marxismo no
século 21. É um dos problemas centrais no qual se revela o carácter ameaçador
do capitalismo para a existência da humanidade. É um dos grandes argumentos
do anti-capitalismo. A questão do meio ambiente está a passar cada vez mais
das margens para o centro do debate político. Podemos mostrar que isso não
depende de boa ou má vontade dos capitalistas, mas a destruição do equilíbrio
ecológico do planeta é da própria lógica expansionista de acumulação do
capital. Os marxistas, socialistas e movimentos sociais têm que tomar a
questão como uma bandeira fundamental. É muito positivo o MST assumir cada
vez mais a questão ecológica. A luta contra os transgénicos e contra os
eucaliptos permite uma convergência do movimento camponês, ambientalista e da
opinião pública. Isso reforça as mobilizações. Ou o socialismo vai ser verde
e ambientalista ou não vai conseguir avançar. A destruição do ambiente pelo
capitalismo não é apenas um problema das gerações futuras, mas de quem vive
hoje. É preciso colocar isso no centro da reflexão do pensamento socialista. ______ [1] Michael Löwy é um sociólogo brasileiro radicado há quatro décadas
na França. Lecciona na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais, da
Universidade de Paris. Nascido em 1938, é especialista em Karl Marx, Rosa
Luxemburgo e Georg Lukács. É autor de diversos livros e organizador da colectânea
O
marxismo na América Latina: Uma antologia de 1909 aos dias atuais. [2] José Carlos Mariátegui (1894–1930), activista peruano, é um dos
maiores expoentes do socialismo latino‑americano, baseado no mundo
indígena. É autor de Os sete ensaios de interpretação da realidade peruana. [3] Julio Antonio Mella (1903-1929) foi um destacado revolucionário cubano. Líder estudantil na Universidade de Havana, foi presidente do Primeiro Congresso Nacional de Estudantes e fundou a Universidade Popular José Martí. Fundou o primeiro partido marxista de Cuba. |