Informação Alternativa

América Latina

19/10/2006

 

Somos irmãos

 

Evo Morales

 

[Em artigo publicado na Folha de S. Paulo, o presidente da Bolívia, Evo Morales, esclarece qual é a relação que o seu país possui com o Brasil, e critica a mídia brasileira pelas falsidades publicadas durante a campanha eleitoral.]

 

Ouvi dizer que os meios de comunicação brasileiros disseram que a Bolívia teria “humilhado” o Brasil. Pode o povo irmão boliviano humilhar o povo irmão brasileiro? É aceitável que, em pleno século XXI, estejamos pensando em termos de “humilhação”, de “submetimento” ou de “subordinação” quando os destinos de todos os povos sul-americanos estão indissoluvelmente ligados para derrotar a fome, o esquecimento e o colonialismo externo?

 

Devo dizer­‑lhes com toda a sinceridade que, quando penso no Brasil, penso em um irmão maior, em um povo alegre e dinâmico que, como o boliviano, quer “viver bem”, quer acabar com a pobreza e quer ser dono do seu futuro.

 

Quando, no dia 1º de maio, decretámos a nacionalização dos nossos hidrocarbonetos, fizemo­‑lo para recuperar um recurso natural que foi inconstitucionalmente privatizado pelos governos neoliberais. Para a Bolívia, não existe futuro sem a recuperação do controle sobre todos os nossos recursos naturais e as empresas estatais privatizadas. Não queremos fazê-lo de maneira negativa, atropelando ou ofendendo. Por isso, propusemos a renegociação de novos contratos com todas as empresas estrangeiras, para que os ganhos sejam distribuídos de maneira mais justa e equitativa.

 

Não queremos abusar de ninguém, não queremos aproveitar­‑nos de ninguém... O que nós queremos é só um trato justo, para que não sobrem migalhas para o nosso país e para que possamos começar a construir um amanhã diferente.

 

Se cheguei à Presidência do meu país, foi graças à luta de muitos anos do meu povo pela nacionalização dos nossos recursos naturais. Por isso, a primeira coisa que fiz no governo foi satisfazer esse anseio, atender a esse clamor. Sei que alguns poderosos se sentiram surpreendidos, contrariados e incomodados. Sinto muito, mas já era de começar a chover para todos.

 

A nacionalização dos hidrocarbonetos na Bolívia não tem por que provocar incertezas no Brasil. Mesmo nos momentos mais difíceis da nossa história, nós mantivemos as nossas exportações de gás para o Brasil, e vamos continuar a fazer o mesmo. As modificações que estamos a negociar não têm por que afectar o consumidor brasileiro, já que são extremamente pequenas, levando em conta que a receita da Petrobras em 2005 foi 24 vezes maior que todas as exportações mundiais da Bolívia no mesmo ano.

 

Nos meus oito meses de governo, aprendi que os grandes ricos e os novos conquistadores não dão a cara para enfrentar o povo. Não! O que fazem é provocar disputas entre pobres, para nos enfraquecer, para nos desunir, para nos distanciar uns dos outros. Por isso, entristece­‑me muito quando procuram distanciar e provocar um confronto entre os povos irmãos da Bolívia e do Brasil.

 

Eles, os que sempre estiveram em cima, sabem que na nossa união está a força, que, juntos, somos invencíveis. Por isso a insídia, por isso a mentira, por isso a calúnia. Por isso essa retórica que procura converter­‑nos em seres egoístas que pensamos apenas em nós mesmos, no nosso bem-estar individual, esquecendo­‑nos de que compartilhamos um mesmo continente, um mesmo planeta.

 

A sorte do Brasil é a sorte da Bolívia, da Argentina, do Uruguai, do Paraguai e de todos os países da região. No nosso tempo, já não podemos pensar unicamente em termos de país. Juntos, precisamos apoiar­‑nos, precisamos colaborar, precisamos compreender­‑nos uns aos outros.

 

Entre povos irmãos, precisamos compartilhar, e não competir, precisamos complementar­‑nos e fortalecer a nossa unidade sul-americana. Essa é a nossa agenda para a próxima reunião da Comunidade Sul-Americana de Nações que terá lugar em Cochabamba, Bolívia.