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Junho de 2005 Maurice Lemoine A primeira Cimeira entre a América do Sul e a Liga Árabe, que
terminou a 11 de Maio no Brasil, sublinhou o desejo de independência do
subcontinente americano, bem como a sua recusa do unilateralismo
tradicionalmente imposto pelos Estados Unidos. Estes estão em recuo em toda a
região, confrontados com o descontentamento dos movimentos populares, com
governos de esquerda ou com a queda de presidentes que se tinham tornado seus
aliados. Isso não significa, no entanto, que a América Latina caminhe a um só
passo. Tempos houve em que, segundo se conta, qualquer jornalista que
chegasse a La Paz (Bolívia) se instalava no hotel situado do outro lado da
praça Murillo, defronte do Palácio do Governo, e pedia um quarto «com vista
sob o golpe de Estado». Um novo relato criado neste início do século XXI
contará sem dúvida que qualquer presidente que assuma funções exigirá agora, por
cautela, um escritório com «acesso directo ao helicóptero». Depois do
argentino Fernando de la Rua, em 2001, e do boliviano Gonzalo Sánchez de
Lozada, em 2003, foi graças a este tipo de aeronave salvadora que, a 20 de
Abril, o chefe de Estado equatoriano, Lucio Gutiérrez, se pôs em fuga da sede
da presidência, o Palácio Carondelet. Triste fim para um ex-homem providencial... Enquanto coronel, Gutiérrez
tinha sido um dos promotores do efémero golpe de Estado que em Janeiro de
2000, apoiando uma revolta popular com forte componente indígena, fez cair o
presidente Jamil Mahuad. Comparado de um modo um pouco precipitado a um “Chávez
equatoriano”, o oficial passou seis meses na prisão, foi afastado do exército
e... ganhou a eleição presidencial de Novembro de 2002, em aliança com o
movimento Pachakutik, braço político da Confederação das Nações Indígenas do
Equador (CONAIE), a poderosa organização das populações autóctones
empobrecidas [1]. Alguns meses bastaram para que o antigo coronel, traindo todo o seu
mundo, a começar pelos ministros oriundos do movimento Pachakutik, se
associasse às teses do Fundo Monetário Internacional (FMI) e se definisse a
si mesmo como «o melhor aliado de Bush» na região. Passando de medidas impopulares a baixas manobras políticas, Gutiérrez
acabou, a 8 de Dezembro de 2004, por ir demasiado longe. Nesse dia, uma
maioria parlamentar “às ordens” reestruturou o Supremo Tribunal e substituiu
27 dos seus 31 juízes. A 31 de Março de 2005, os magistrados recentemente
nomeados anularam os julgamentos em curso contra os antigos presidentes
Gustavo Noboa – acusado de corrupção e destituído em Fevereiro de 1997 – e
Abdalá Bucaram – obrigado a abandonar funções no decurso de uma investigação
sobre desvios de fundos públicos. O regresso ao país dos dois antigos chefes
de Estado, respectivamente exilados no Panamá e na República Dominicana,
provocou uma insurreição. Abandonado pelo exército, onde reina um forte mal-estar, Gutiérrez é
também abandonado pelo Congresso. É destituído por 60 dos 100 parlamentares,
que tentam evitar naufragar com ele. De um ponto de vista jurídico, a razão
invocada – «abandono da função» (por «não respeitar a Constituição») – foi
por muitos vista como contestável. No entanto, e apesar de Gutiérrez ter até
ao último instante manifestado um forte apoio ao seu aliado, Washington
limitou-se a “aliviar a pressão”. Preservar as “instituições” e a “legitimidade
do sistema político” torna-se a prioridade para todos. Numa América Latina durante demasiado tempo submetida ao
fundamentalismo liberal – 225 milhões de pobres, ou seja 43,9 por cento da
população –, os governos estão sentados num barril de pólvora. Apesar dos “cães
de guarda” decididos a preservar o statu quo – «Aceita a tua situação.
Mesmo em período de crise económica, o dinheiro não traz felicidade» [2] –,
parece ter chegado ao fim o tempo em que as populações pareciam resignar-se
(«A justiça social? Está cada dia mais próxima... tal como a linha do
horizonte!»). Pela primeira vez desde a década de 60, vários governos de esquerda –
Argentina, Brasil, Uruguai e Venezuela – procuram inflectir o curso destas “Repúblicas
sem cidadãos”, caracterizadas pelo desprezo social e a exclusão. E isto ainda
que o presidente venezuelano Hugo Chávez seja, com Fidel Castro, o único
presidente que defende um modelo de desenvolvimento que se distancia
significativamente do Consenso de Washington. Face a esta contestação, que os
desafia em diferentes pontos do hemisfério, os Estados Unidos procuram reagir
reforçando o eixo dos seus aliados incondicionais, composto pelo México e a
América Central, os países andinos no quadro dos quais o Equador de Gutiérrez
ocupava, com a Colômbia, um lugar decisivo (tal como a Bolívia de Sánchez de
Lozada). Desde a década de 90, a ofensiva conduzida por Washington assumiu a
forma de acordos de comércio livre, começando pelo Acordo de Comércio Livre
da América do Norte (NAFTA/ALENA [3]), que registou uma suspensão com a Área
de Livre Comércio das Américas (ALCA). Este último projecto, que em Janeiro
de 2005 deveria ter espalhado o vírus do ultraliberalismo em todo o
continente, enterrou-se quando confrontado com a resistência dos movimentos
sociais da Campanha Continental Contra a ALCA, com a recusa do Mercado Comum
do Sul (Mercosul [4]) e com a resistência da Venezuela. A fim de contornar a dificuldade, o Império assina à pressa tratados
bilaterais com a América Central e a República Dominicana (Central American
Free Trade Agreement, CAFTA), o Equador, a Colômbia e o Peru [5]. Como a ALCA
morre, estes tratados de comércio livre abarcam tanto os aspectos estritamente
económicos como a gestão estatal, a legislação do trabalho, a propriedade
intelectual, o ambiente, os recursos naturais e energéticos, a saúde e a educação.
São levadas a cabo pseudo‑negociações que apenas permitem que os
países latinos introduzam pequenas alterações, sem que Washington faça
quaisquer concessões quanto ao essencial, beneficiando apenas os seus
interesses. Perante esta neocolonização mal disfarçada, as populações protestam.
«Estou em crer que eles vão acabar por privatizar o Estado», ouve-se aqui e
ali. «Se as coisas continuarem assim, um dia acordamos e o país pertencerá à
Coca-Cola!» Há uma grande contestação na América Central. No Peru e no
Equador, uma campanha de recolha de assinaturas procura obrigar os governos a
convocarem uma consulta popular sobre os tratados. Na Bolívia, a pressão das
organizações sociais impediu o poder de avançar na negociação do tratado de
livre comércio, que rebaptizaram com o nome «total loucura capitalista». No entanto, o recente derrube dos chefes de Estado boliviano e
equatoriano apenas deu origem, pelo menos por agora, a perspectivas incertas
e ambíguas. Tal como na Argentina, em Dezembro de 2000, foi com o grito «Que
se vayan todos!» (Que se vão todos embora!) que os equatorianos tomaram as
ruas. Tratou-se de uma insurreição multiclassista, autoconvocada à margem dos
partidos e dos dirigentes políticos – como em La Paz e em Buenos Aires –, em
que as rádios livres desempenharam um papel essencial. De parte foram
deixados a própria CONAIE e o movimento Pachakutik, cujos dirigentes foram
criticados pelas (curtas) responsabilidades governamentais ao lado de
Gutiérrez. Tal como a Bolívia substituíra Sánchez de Lozada pelo vice-presidente
Carlos Mesa (que não pertence a qualquer partido), o Equador substituiu Gutiérrez
pelo mais próximo adjunto deste – Alfredo Palacio, um médico sem filiação
política. Ou seja, nenhum dos dois tem um grande apoio. É um facto que, em circunstâncias semelhantes, o exercício do poder
em Buenos Aires por Nestor Kirchner, peronista que fez uma viragem para o
centro‑esquerda, constituiu uma boa surpresa. Resistindo ao FMI, o seu
governo anunciou uma moratória sobre a dívida privada, medida que chegou ao
fim em Março de 2005 depois de os credores terem aceitado renunciar a 65,6
por cento do montante da dívida. A 10 de Março, Kirchner apelou ao boicote
das empresas petrolíferas Shell e Esso, que haviam aumentado 3 por cento os
preços dos combustíveis. O apelo foi imediatamente apoiado por centenas de
manifestantes, que ocuparam as estações de serviço, mas a situação social,
extremamente preocupante, não teve qualquer evolução. No Equador, o novo presidente, Palacio, assume as rédeas de um país
em situação de extrema fragilidade. Por convicção ou para apaziguar a pressão
popular, o ministro da Economia, Rafael Correa, considerou que «os acordos
comerciais devem ser respeitados, mas os países não devem negociar em
condição de escravatura» [6]. O ministro do Interior, Manuel Gándara, fez por seu lado saber que as
negociações sobre o tratado de comércio livre se encontram interrompidas; que
todos os contratos mineiros e petrolíferos serão reexaminados; que o Equador
se distanciará relativamente ao Plano Colômbia; e que será estudada a
anulação do acordo, assinado em 1992, de concessão de uma base militar aos
Estados Unidos em Manta – operam nesta instalação estratégica do Southern
Command (Comando Sul do Exército dos Estados Unidos) quinhentos soldados,
tendo como alvo as guerrilhas colombianas [7]. Neste ponto, no entanto,
depois de um almoço com a embaixadora americana Kristie Kenney, o presidente
Palacio teve já que recuar. Estar-se-á perante um cenário semelhante ao da
Bolívia? Neste país, uma primeira “guerra da água” levada a cabo contra o
efeito das privatizações, seguida de uma “guerra do gás” que eclodiu pelas
mesmas razões (causando 80 mortos e 500 feridos), levou à fuga do ultraliberal
Sánchez de Lozada [8]. A 18 de Julho de 2004, o seu sucessor Carlos Mesa,
apoiado pelo Movimento para o Socialismo (MAS) de Evo Morales, o principal
partido da oposição, organizou um “referendo do gás” no qual a população se
pronunciou em massa a favor da recuperação do sector dos hidrocarbonetos. O
movimento social unificou-se em torno de quatro reivindicações: convocação de
uma Assembleia Constituinte, à semelhança daquele que foi o acto fundador da
revolução bolivariana na Venezuela; rejeição da ALCA e/ou do tratado de
comércio livre; expulsão da transnacional Aguas de Illimani (Suez Lyonnaise
des Eaux); e votação de uma lei sobre os hidrocarbonetos que estabeleça,
entre outras medidas, um imposto de 50 por cento (aprovado pelo referendo)
sobre a exportação pelos consórcios transnacionais. Apanhado, todavia, entre o martelo da convulsão social e a bigorna do
FMI, do Banco Mundial e das multinacionais, Mesa defende agora que esta lei,
já aprovada pelo Congresso, é de “impossível” aplicação, por não ser aceite
pela comunidade internacional. Violentamente contestado, Mesa já não consegue
governar. A oposição, ainda que tenha alcançado uma espécie de poder de veto
graças à desobediência civil generalizada, não sai necessariamente reforçada
do processo. Desprovidos de ideologia e de bases populares, os chamados
partidos tradicionais estão actualmente limitados a um papel secundário nos
acontecimentos. Mesmo dirigentes radicais como Felipe Quispe (Movimento
Indígena Pachacuti, MIP) e Evo Morales (MAS), pessoalmente criticado por ter
pactuado, num primeiro tempo, com Mesa, estão sob a ameaça de serem
submetidos à “justiça comunitária” caso traiam o Pacto para a Dignidade e a
Soberania do Povo Boliviano. A breve trecho poderá surgir uma situação semelhante no Peru, onde à
catástrofe Alberto Fujimori sucedeu o desastre Alejandro Toledo. Com efeito,
sucedem-se os bloqueios de estradas, as ocupações de edifícios públicos e os
confrontos com as forças da ordem e do exército. A 1 de Janeiro de 2005, um
grupo de antigos militares ultranacionalistas (os “etnocaceristas”)
desencadeou inclusivamente uma acção armada. A corrupção, presente em todos
os níveis do Estado, e o desastre social dão lugar a um debate permanente:
deve manter‑se Toledo no poder até 2006 ou deve “sair” antes? Mas,
também aqui, não se vislumbra qualquer alternativa política, tão grande é a
rejeição dos partidos políticos e dos líderes destes. OBJECTIVOS COMUNS PARA LÁ DAS DIVERGÊNCIAS Mesmo na Nicarágua, agitada em Abril e Maio por violentas manifestações
contra o aumento dos preços dos combustíveis – tendo mais de oitenta autarcas
(em 152 municípios) exigido que o presidente Enrique Bolanos resolvesse os
problemas energéticos ou então se demitisse –, não é certo que a Frente
Sandinista de Libertação Nacional (FSLN) esteja em condições de governar, se
a situação se colocar. Com efeito, devido a uma falta de democracia interna,
a FSLN atravessa uma grave crise que afastou muitos dos seus antigos
militantes ou partidários. Estamos perante situações mais fortemente marcadas pela incerteza ou
pelos perigos de caos do que pelo aparecimento de verdadeiras alternativas. Mas
nem por isso deixa de ser verdade que, perdendo um por um os seus “peões”,
Washington se encontra agora na defensiva. Do ponto de vista do general Bantz
Craddock, comandante‑chefe do Southern Command, «na Bolívia, no
Equador e no Peru a desconfiança e a falta de fé nas instituições estimulam a
emergência de demagogos antiamericanos, antiglobalização e que se opõem ao
comércio livre» [10]. Pior ainda, o eixo formado pelo Brasil, a Argentina, o
Uruguai e a Venezuela (neste caso, com Cuba em segundo plano) faz soçobrar
qualquer iniciativa do Departamento de Estado tendente a reassumir o
controlo... Quando, perante a Assembleia Geral da Organização dos Estados
Americanos (OEA) de Julho de 2004, em Fort Lauderdale (Florida), os Estados
Unidos avançaram a ideia de uma modificação da Carta Democrática
Interamericana de modo a permitir isolar os países «que se distanciem
gradualmente da democracia», ou até intervir neles – objectivo designado: a
Venezuela –, apenas suscitaram um sorriso cortês. Durante a reunião dos
ministros da Defesa em Quito, de 16 a 18 de Novembro de 2004, a Venezuela, o
Brasil e a Bolívia rejeitaram, com base na não ingerência, a pretensão do
secretário de Estado e da Defesa americano, Donald Rumsfeld, apoiado pelos
dirigentes colombiano e centro-americano, de pôr em prática uma nova
concepção da “segurança preventiva” e de constituir uma força multinacional
latino-americana – sob comando do Pentágono, evidentemente. Ora, mesmo na Colômbia de Alvaro Uribe Vélez, o seu mais fiel
vassalo, a política americana está penosamente a marcar passo. Apesar dos 3,3
mil milhões de dólares de ajuda militar a Bogotá ao longo dos seis últimos
anos, do fornecimento de mais de 65 helicópteros Blackhawk e Huey, e da
formação de três novos batalhões de elite, o exército colombiano atola‑se
no conflito interno. O Plano Patriota, a mais ambiciosa ofensiva jamais levada a cabo
contra as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), traduziu-se numa
operação que envolveu 17.000 soldados no Sul do país, mas não foi capaz de
vencer as guerrilhas móveis, que jogam com a rapidez e a surpresa, e que, na
montanha ou na selva, derrotam pesados batalhões. Enquanto a secretária de
Estado americana Condoleezza Rice, em visita a Bogotá a 27 de Abril de 2005,
anunciou para Setembro deste ano o fim oficial do Plano Colômbia (mas não o
da ajuda americana), as tropas governamentais sofriam golpes muito pesados no
Sudoeste do país e rebentava uma violenta crise no interior do exército. A
destituição de quatro generais de alta patente [11] tornou evidentes as
profundas fracturas no seio de uma instituição traumatizada pelas mudanças de
doutrina impostas a partir do Pentágono e pelas derrotas sofridas no terreno. Existe uma outra pedra, e grande, no sapato de Washington: «A
Venezuela exerce uma influência desestabilizadora na América Latina»,
advertiu Rice em Fevereiro. As fortes pressões diplomáticas para que os
vizinhos tentem “lulalizar” [12] o presidente venezuelano têm contudo
fracassado, tanto mais que não é da natureza daquele homem deixar-se manipular.
Quando o secretário de Estado norte-americano inicia, a 26 de Abril, uma
ronda por quatro países do continente (Chile, Brasil, Colômbia e El Salvador),
não consegue obter de Brasília a mais pequena declaração crítica em relação à
revolução bolivariana e vê-se do mesmo modo delicadamente evitado em
Santiago. Não é que a política de ruptura de Chávez faça os vizinhos pularem de
entusiasmo. Não tem forçosamente a mesma perspectiva sobre o modelo de
integração do Mercosul – que define como «submetido aos ditames do capital e
à lógica mercantil» – que o Brasil, convertido ao “realismo” e saudado pelo
FMI. Chávez defende incansavelmente a implantação da Alternativa Bolivariana
para as Américas (ALBA [13]) e uma integração com uma forte componente
social, tendo mesmo chegado a declarar o seguinte, a 4 de Março: «Devemos
inventar o novo socialismo para o século XXI. O capitalismo não é um modelo
de desenvolvimento sustentável». Volta, no entanto, a verificar-se uma partilha de objectivos quando o
que está em causa é o reforço da Comunidade Sul-Americana das Nações (CSN [14]),
criada a 8 de Dezembro de 2004, bem como uma ordem internacional que rejeite
o unilateralismo para se fundar na igualdade dos Estados. Os acordos económicos
(energéticos, industriais) fazem o resto. A título de exemplo, a Venezuela
importa anualmente dos Estados Unidos, para a sua indústria petrolífera, 5
mil milhões de dólares em bens e serviços. Chávez pretende que, doravante, 25
por cento destas aquisições sejam feitas na Argentina e no Brasil. Por outro
lado, pensem eles como pensarem, estes chefes de Estado têm que cuidar dos
respectivos sectores populares. É público e notório que os piqueteros argentinos
ou os camponeses sem terra brasileiros se sentem mais representados por
Chávez do que pelos seus próprios presidentes. Entretanto, para Washington, o pior ainda estava para vir. Desde
Outubro de 2004, a Organização dos Estados Americanos (OEA) encontrava-se acéfala
devido à demissão do seu efémero secretário-geral (por 17 dias!), Miguel
Angel Rodríguez. O ex-presidente da Costa Rica foi apanhado num caso de
corrupção e julgado no seu país, acusado de ter recebido luvas no valor de
2,4 milhões de dólares da empresa francesa Alcatel. São nessa altura três os
candidatos que aspiram a substituí-lo: o mexicano Luis Ernesto Derbez,
conservador, ministro dos Negócios Estrangeiros e antigo consultor do Banco
Mundial; o ministro chileno do Interior, José Miguel Insulza, ex‑conselheiro
de Salvador Allende, que exerce funções ministeriais desde que foi nomeado
para os Negócios Estrangeiros em 1994; e, por fim, o candidato da Casa
Branca, o ex-presidente salvadorenho Francisco Flores. Este último, enquanto
estava no poder, enviou um contingente militar simbólico para o Iraque, que
lá permanece. Ao longo de sessenta anos, nunca esta organização de 34 países da
América e das Caraíbas (com excepção de Cuba) assistiu à vitória de um
candidato que não fosse apoiado pela Casa Branca. Mas antes mesmo da primeira
volta, a 11 de Abril, e apesar de enormes pressões, Flores parecia tão
isolado que, para evitar uma humilhação Washington, pediu-lhe que se
retirasse. Os Estados Unidos não têm, à priori, mais divergências com o Chile –
que não rompeu com a economia de mercado pura e dura e assinou um tratado de
comércio livre em 2004 – do que com o México, membro do NAFTA. Washington
pode pressionar o seu mais próximo vizinho do Sul optando por reprimir ou por
regularizar os 4 milhões (ou mais) de mexicanos sem papéis cujas remessas de
dinheiro para o país, no valor de 38 mil milhões de dólares em 2003,
ultrapassaram os rendimentos do turismo e representaram metade do valor das
exportações. “CANDIDATO DE CONSENSO” Por outro lado, Hugo Chávez apoia entusiasticamente... o chileno
Insulza. Tem as suas razões: à solidariedade sul‑americana junta-se o
facto de o presidente mexicano Vicente Fox manter laços de amizade com George
W. Bush; de ter sido lançada uma operação de desestabilização pelo governo
mexicano contra o autarca de esquerda da Cidade do México, Andrés Manuel
López Obrador, candidato do Partido da Revolução Democrática (PRD) às
eleições presidenciais de 2006 [15]; e de o México ter votado contra Cuba na
Comissão dos Direitos do Homem das Nações Unidas [16]. Por instrução do
Departamento de Estado, os países que apoiaram Flores passaram a fazer
campanha pelo mexicano Derbez. Apesar das cinco voltas de escrutínio realizadas, os dois candidatos
continuavam em situação de igualdade, tendo cada um 17 votos (são necessários
18 para se ser eleito). Votaram pelo chileno o Brasil, a Argentina, o
Uruguai, o Paraguai, o Equador, a Venezuela, a República Dominicana e dez
países das Caraíbas. Em vésperas do 2 de Maio, data prevista para uma nova
consulta, a tendência parecia mudar a favor de Insulza. O desenlace teve
lugar a 29 de Abril, durante uma reunião de Rice com vários ministros dos
Negócios Estrangeiros (El Salvador, Paraguai, Colômbia, Chile e Canadá),
Derbez e Insulza. No final do encontro, e para surpresa geral, o mexicano
Derbez anunciou a retirada da sua candidatura. «Condoleezza Rice compreendeu que continuar a apoiar Derbez era
correr para a derrota», observa Peter Hakim, director da organização Diálogo
Inter-Americano, sediada em Washington. «Se ele tivesse ganho com um ou dois
votos de vantagem, o continente teria aparecido dividido por culpa dos
Estados Unidos e, se tivesse perdido, o que era mais provável, teria sido uma
grande derrota... para os Estados Unidos» [17]. Nestas condições, Washington
procura não perder a face e aceita deixar o cantinho livre a Insulza, “candidato
de consenso” finalmente eleito a 2 de Maio com 31 votos (duas abstenções e um
voto branco). Apesar desta manobra de último minuto, Washington surge claramente
como o grande vencido da votação. Será, ainda assim, um erro considerar a
vitória do ex-ministro do Interior chileno como a chegada de um progressista
à frente da organização continental. Segundo um diplomata que seguiu de perto
as últimas negociações, «vários elementos indicam que, antes de lhe deixar o
caminho aberto, os Estados Unidos conseguiram obter alguns compromissos da
parte de Insulza, tal como do governo chileno, particularmente no que diz
respeito à política da OUA em relação à Venezuela e a Cuba». Ainda assim, neste “pátio traseiro” politicamente mais fragmentado do
que nunca, nada parece indicar que o novo secretário-geral tenha as mãos
completamente livres se por acaso for tomado de uma vontade de impor o rumo
desejado pelos Estados Unidos. ________ [1] Ler Laurent Tranier, Os indígenas
equatorianos face ao desafio evangélico, Le Monde diplomatique, Abril de
2005. [2] Cromos, Bogotá, 20 de Dezembro de 1999. [3] O NAFTA reúne, desde 1994, o México, os Estados Unidos e o
Canadá. [4] À Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai, iniciadores do Mercosul
em 1994, juntaram-se vários países associados: Bolívia e Chile (1996), Peru
(2003), Colômbia, Equador e Venezuela (2004). [5] O Parlamento chileno, precursor, aprovou em Outubro de 2003 um
tratado de comércio livre que entrou em vigor em Janeiro de 2004. El Salvador,
as Honduras e a Guatemala ratificaram o CAFTA, ainda não aprovado pelo
Congresso dos Estados Unidos. [6] Sally Burch, “Ecuador, cambio de rumbo?”, Alai, Quito, 22
de Abril de 2005. [7] Hernando Calvo Ospina, Nas fronteiras
do Plano Colômbia, Le Monde diplomatique, Fevereiro de 2005. [8] Ignacio Ramonet, Bolivie, Le
Monde diplomatique, Novembro de 2003 [ed. brasileira: Bolívia]. [9] A Argentina enfrenta 34 processos entrepostos no Centro
Internacional para a Resolução de Diferendos Relativos aos Investimentos
(CIADI) do Banco Mundial (Raúl Zibechi, La Jornada, Cidade do México,
1 de Abril de 2005). [10] Declaração perante o Congresso dos Estados Unidos, a 9 de Março
de 2005. [11] General Roberto Pizarro, segundo comandante e chefe do
estado-maior interarmas; Fabio García, chefe das operações; Hernán Cadavid,
chefe do desenvolvimento; e Jairo Pineda, inspector-geral do exército. [12] Alusão à política moderada do presidente brasileiro Luiz Inácio “Lula”
da Silva. [13] A primeira reunião entre Cuba e a Venezuela com vista à
aplicação da Alternativa Bolivariana para as Américas (ALBA), realizada a 28
de Abril em Havana, aprofundou a colaboração económica entre os dois países. [14] A CSN reúne os países do Mercosul, a Comunidade Andina das
Nações (Bolívia, Colômbia, Peru, Equador e Venezuela) e ainda o Suriname e a
Guiana. [15] Anne Vigna, Golpe baixo falhado na
Cidade do México, Le Monde diplomatique, Junho de 2005. [16] Dos países latino-americanos membros da CDH, os seguintes
votaram a favor da resolução apresentada pelos Estados Unidos contra Cuba:
México, Costa Rica, Guatemala e Honduras. Abstiveram-se a Argentina, o
Brasil, a República Dominicana, o Equador, o Paraguai e o Peru. [17] BBC Mundo, Londres, 2 de Maio de 2005. |