Informação Alternativa

América Latina

20/05/2006

 

Extradição de militares uruguaios para o Chile revela dados da Operação Condor

– Confirma-se que a maioria dos implicados também serviu a CIA –

 

Stella Calloni *

La Jornada

 

A decisão da justiça uruguaia de aceder à extradição de três importantes militares, solicitada pelos seus homólogos chilenos no caso do sequestro e assassinato do bioquímico Eugenio Berríos Sagredo, ex agente da polícia política (DINA) do ex ditador Augusto Pinochet, permite entrever uma das tramas mais sinistras da Operação Condor, coordenadora criminosa das ditaduras do Cone Sul nos anos 70.

 

Os julgamentos em torno desta operação comprovam também que a maioria dos implicados trabalharam para a Agência Central de Inteligência (CIA) estadunidense. As partes censuradas de documentos desclassificados pelos Estados Unidos revelam a intenção de ocultar nomes e nexos, mas até agora não existe um só responsável nesta história que não tivesse vínculos com dita agência ou com instituições como a Liga Anticomunista Mundial ou o exílio cubano anticastrista em Miami.

 

Berríos, que fabricou gás sarin e outros venenos que foram usados na “guerra suja”, foi colaborador de Michael Townley, homem da CIA e da DINA, que hoje os Estados Unidos amparam como «testemunha protegida».

 

«Na sentença do ministro Adolfo Bañados afirma-se que Virgilio Paz, terrorista cubano, condenado nos Estados Unidos pela sua cumplicidade no assassinato de Orlando Letelier (ex ministro do governo de Salvador Allende), ocorrido em Setembro de 1976, esteve nessa residência em companhia de Berríos e Townley», assinala o jornalista Manuel Salazar Salvo na revista chilena Punto Final.

 

No processo no Chile pelo assassinato de Letelier, Berríos, também conhecido como Hermes, é mencionado «reiteradamente como ajudante de Townley no quartel do Agrupamento Quetropillán – deus Vulcão na língua mapuche –, apêndice da brigada Mulchen da DINA, que era dirigida pelo hoje sentenciado general Manuel Contreras». Ambos viviam na mesma casa de Townley em Lo Curro, onde tinham um laboratório.

 

Também está documentada a forte relação da DINA com Orlando Bosch, o qual, juntamente com Luis Posadas Carriles, foi acusado de fazer explodir um avião de Cubana de Aviación em Barbados em Outubro de 1976 que deixou 73 mortos.

 

Além disso, existem os depoimentos da ex esposa de Townley, Marina Callejas, e da secretária Alejandra Damiani, que relatou como fabricavam «um veneno que provocava convulsões e morte». Na casa de Townley em Santiago foi torturado e assassinado o diplomata espanhol Carmelo Soria em Julho de 1976.

 

Também há provas dos negócios de Berríos e da DINA com os paramilitares neofascistas italianos de Avanguardia Nazionale contratados por Townley, como consta no relatório de Taylor Branch e do procurador Eugene Propper sobre o julgamento realizado nos Estados Unidos pelo atentado contra Letelier feito em Labyrinth, Nova York, em 1982. Esses grupos depuseram em tribunais italianos na qualidade de «testemunhas protegidas».

 

Berríos trabalhou no complexo químico­‑industrial do exército, o que lhe permitiu viajar pelo mundo até que abandonou o seu trabalho em 1981 para continuar outras tarefas que envolviam a DINA em empresas mafiosas de diferentes tipos.

 

Em 1991, Alfredo Baños citou Berríos no julgamento pelo assassinato de Letelier e a inteligência militar chilena, preocupada com a sua loquacidade e apego ao álcool e às drogas, tirou-o do país armando uma rede de protecção que o levou de Punta Arenas a Buenos Aires, em Novembro do mesmo ano, utilizando o documento [de identificação] do desaparecido Tulio Orellano Bravo.

 

Depois foi decidido tirá-lo de Buenos Aires e os militares chilenos pediram ajuda aos seus homólogos uruguaios, especialmente ao chefe de operações do Serviço de Inteligência da Defesa, tenente­‑coronel Tomás Casella, e em 1992 Berríos viajou para o Uruguai, onde permaneceu sob vigilância e protecção. Por alguma razão especial, em Outubro de 1992 foi convertido em prisioneiro “especial” numa casa da família do capitão de inteligência uruguaia Eduardo Radaelli, em Parque del Plata.

 

Dali escapou em Novembro de 1992 e pediu auxílio numa sede da polícia, onde denunciou que Pinochet o ia matar. O escândalo foi enorme, mas muito mais quando o tenente­‑coronel Casella e outros militares o levaram.

 

Já não se voltou a ver Berríos até que em Abril de 1995 o seu corpo, enterrado na areia, foi encontrado na estância balnear de El Pinar, Uruguai, com vários tiros à queima­‑roupa e sinais de tortura.

 

Segundo o juiz chileno Alejando Madrid, estão implicados no assassinato de Berríos o general retirado Hernán Ramírez Rorangwe, o tenente­‑coronel Pablo Rodríguez Márquez, os oficiais Raúl Lillo Gutiérrez, Carlos Herrera Jiménez e Arturo Rodrigo Silva Valdés (encarregado da segurança de Pinochet), que foi «inculpado pelo capitão Luis Arturo Sanhueza Ross, também levado para o Uruguai para eludir a justiça, e outro ex escolta de Pinochet».

 

Agora no Chile são investigados os uruguaios Tomás Casella, Eduardo Radaelli e Wellington Sarli. Em Abril passado correu em Montevideo que tinham desaparecido as actas parlamentares sobre a investigação do caso Berríos em 1992, que continham as declarações dos então ministros do Interior e da Defesa Nacional, Andrés Ramírez e Mariano Brito, respectivamente.

 

Ao ser levantado o segredo sobre as actas, resultou que tinham desaparecido da caixa forte em que foram guardadas e se desconhece onde estão.

 

Meios de Montevideo sustentam que em 1996, ante uma solicitação da justiça chilena, foi descoberto o seu desaparecimento. Uma secretária que tinha guardado cópia da mesma foi sancionada e a cópia roubada.

 

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* Escritora e jornalista argentina, autora de Operación Cóndor: Pacto Criminal; Editorial Ciencias Sociales, La Habana, 2006.