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23/02/2006 Miguel Urbano Rodrigues Atolado em crises internas e externas, o sistema de poder dos EUA
envolveu-se na República Dominicana numa nova agressão contra um povo da
América Latina. O desembarque de tropas de ocupação na República Dominicana,
realizado com a cumplicidade do governo títere daquele país, coincidiu
praticamente com o fracasso da manobra golpista que visava impedir a posse de
René Préval após a sua vitória nas eleições presidenciais no Haiti. Este gesto de desespero ao qual o povo dominicano respondeu com
gigantescas manifestações de protesto, mobilizando‑se contra os
invasores, provocou repúdio mundial, sobretudo na América Latina. Washington temia os resultados das eleições. Mas não esperava que a
vitória de Préval, um político progressista, amigo de Cuba, fosse tão esmagadora
que o segundo candidato obteve somente 11 % dos votos emitidos. O receio de
uma derrota humilhante motivou as manobras que, sob diferentes pretextos,
levaram a sucessivos adiamentos das eleições e à criação de uma atmosfera de
intimidação. A pressão popular foi, entretanto, tão forte, que no dia 7 de
Fevereiro os haitianos foram às urnas. Pela afluência sem precedentes dos
inscritos, logo ficou claro que Préval seria eleito por maioria absoluta, o
que inviabilizaria uma segunda volta. O dispositivo provocatório, preparado com antecedência, foi então
accionado. Bernard, o presidente do Conselho Eleitoral, cumpriu as instruções
de Washington e, após grosseira manipulação dos resultados, marcada por
fraudes, anunciou, transcorridos sete dias, que seria indispensável uma
segunda volta porque Préval teria obtido apenas 49% dos votos. O escândalo foi tamanho que até a Conferência Episcopal da Igreja
Católica, de tendência conservadora, denunciou a manipulação. REVOLTA POPULAR Tomando consciência de que a Administração Bush pretendia impedir Préval
de assumir a Presidência, o povo haitiano saiu então maciçamente às ruas,
exigindo respeito pela vitória do seu candidato. A resposta, ditada uma vez
mais de Washington, foi a repressão das manifestações. As tropas de ocupação
da ONU, que têm desempenhado no Haiti um papel indecoroso, carregaram sobre a
multidão. O balanço oficial dos confrontos refere um morto e vários feridos. Entretanto era tornado público que uma organização vinculada à CIA, a
National Endowment for Democracy‑NED, havia desenvolvido nos meses
anteriores intensa actividade conspirativa no país, financiando os
adversários de Préval. Na capital americana, foi convocada uma reunião de emergência, em que
participaram Bush, Condoleeza Rice e o secretário‑geral da ONU. O
porta-voz do Departamento de Estado, resumindo o que se passara, declarou que
«sempre que uma eleição é muito disputada, é importante que as partes se reunam
e cooperem no interesse do país». Isso apesar dos 40 pontos que separavam Préval
do segundo candidato mais votado… Mas a dimensão da revolta popular era tamanha que o governo Bush,
temendo uma situação de caos incontrolável, sentiu a necessidade de alterar o
plano golpista que concebera. Quando o Conselho Eleitoral, recuando, proclamou, após nova contagem,
a vitória de Préval na primeira volta com 51,15% , surgiu como alternativa
ameaçadora e forma de pressão sobre o conjunto da Região Caribenha o
desembarque em Barahona, na costa Sul da República Dominicana. São imprevisíveis por ora as consequências desta nova agressão
imperialista. As intervenções dos EUA na República Dominicana no século XX, a
de 1915 e a de 1965, ficaram assinaladas por uma repressão selvagem à qual o
povo de Camaño resistiu com heroísmo. A indignação suscitada na América Latina antecipa a certeza de uma
vaga de solidariedade com os povos haitiano e dominicano. «Gringos fora do Caribe!», é o brado que soa do rio Bravo à Patagónia. |