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28/10/2005 De um a cinco de Novembro, a cidade turística de Mar del Plata viverá
acontecimentos e mobilizações que irão marcar a sua história. A 400
quilómetros de Buenos Aires, estarão acontecendo simultaneamente a Cúpula das
Américas, a Cúpula dos Povos e a Marcha contra Bush. Os números são
arrepiantes: dezenas de milhares de funcionários argentinos para garantir a
segurança, dois mil agentes norte-americanos a serviço da integridade do
presidente dos EUA – que as autoridades insistem em negar – e dezenas de
milhares de manifestantes que se concentrarão para expressar o seu apoio ao
presidente venezuelano Hugo Chávez e o seu repúdio ao norte-americano George
W. Bush. O chefe do dispositivo encarregado pela segurança da Cúpula das
Américas, Carlos Pardal, afirmou que a sua equipa trabalha com a hipótese de
que haverá distúrbios durante a reunião, da qual participarão 34 chefes de
Estado. Ele, que é um alto cargo da Polícia Federal argentina, disse que os
encarregados da segurança «não deixam de lado nenhuma hipótese» sobre choques
com manifestantes contra o presidente dos Estados Unidos. «Consideramos que
pode haver algumas pessoas que mostrem o seu inconformismo de uma maneira não
desejada», comentou em declarações à emissora local Rádio Mitre. As medidas de segurança incluem a proibição dos voos comerciais e o
fechamento da área onde as reuniões acontecerão. Segundo o chefe, a delegação
dos EUA terá protecção de 420 agentes de segurança americanos «e não 2 mil».
Pardal garante que os presidentes só estarão acompanhados por três agentes de
segurança próprios nos lugares das reuniões. Mas ao circular pela cidade,
serão 20 veículos para protegê-lo. INÍCIO DA PRESSÃO As Cúpulas das Américas foram antecedidas por um encontro de 19
presidentes do continente, em Julho de 1956, no Panamá sob o auspício da
Organização dos Estados Americanos (OEA). Em Abril de 1967, novamente 19
presidentes mais um representante do Haiti se reuniram em Punta Del Este, no
Uruguai. Desde aquela época, o objectivo sempre foi o mesmo: conseguir a
adesão dos países latino-americanos à política dos Estados Unidos e a sua
inclusão na órbita económica e política e, portanto, dos seus interesses. Apenas 27 anos depois nasceu, em Miami, a denominação da Primeira
Cúpula das Américas em Dezembro de 1994. Ali, os ministros de Comércio dos
países americanos, com a exclusão de Cuba, acordaram em estabelecer uma zona
de livre comércio «desde o Alasca até Ushuaia» que incluiria 34 países.
Chamar-se-ia ALCA – Área de Livre Comércio das Américas – o grande sonho dos
EUA para que a sua forte economia pudesse apoderar-se dos mercados do
continente. Três instituições fiéis aos EUA se encarregariam de ir pilotando
o projecto: a OEA, o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e a
Comissão Económica para América Latina e o Caribe (Cepal). A segunda cúpula aconteceu em Santiago do Chile, e o projecto da ALCA
continuou a avançar. Em Abril de 2001, a Terceira Cúpula das Américas
aprovou, no Québec (Canadá), a Carta Democrática Interamericana, um
instrumento ideal para que a OEA apostasse no formato de democracia
representativa vazia de garantias nos direitos sociais e económicos para os
latino-americanos. TERROR E MEDO A aparição do fenómeno terrorista em Nova York e Washington e o
aumento do conflito social na América Latina por parte de grandes sectores da
população empobrecidos e indignados com as políticas neoliberais exigiu a
convocação de uma nova cúpula extraordinária em Monterrey (México) com o
objectivo de frear a alarmante crise de liderança dos Estados Unidos. O
objectivo de fazer frente aos movimentos organizados que enfrentavam,
indignados com a pobreza crescente da América Latina, fez os EUA anunciarem a
implementação de «medidas para fortalecer a governabilidade das democracias»
das regiões Centro e Sul do continente e «combinar acções conjuntas na luta
antiterrorista». Foi então aprovada a declaração de Nuevo Leon, onde se nomeava o «uso
efectivo de recursos internos e internacionais» por parte dos países mais
ricos e se destacava o «vínculo da interdependência entre as economias
nacionais e o sistema económico mundial» com o objetivo de blindar o
neoliberalismo imperante em cada um dos países do continente. O documento
final afirmava «os avanços conquistados até à data para o estabelecimento de
uma ALCA» e apoiava «o acordo dos ministros sobre a estrutura e calendário
adoptado para a conclusão das negociações para a ALCA nos prazos previstos».
Também o intervencionismo teve espaço garantido no documento: «reafirmamos a
nossa decisão de coordenar acções imediatas quando a democracia correr perigo
em qualquer um dos nossos países». Vale lembrar que neste fórum os certificados de democracia são
emitidos pelos Estados Unidos. Que inclusive afirmam ter compromisso com os
partidos políticos mas, somente enquanto estes «evitarem influências
indevidas». O governo da Venezuela já expressou as suas reservas baseando-se
em que «este processo deve considerar as especificidades culturais, sociais e
políticas de cada país; a soberania e a constitucionalidade; o nível e o
tamanho das suas economias para garantir um trato justo». O motim da
dignidade começou a ser posto em marcha. E assim chegamos a Novembro deste ano, com os Estados Unidos numa das
suas piores popularidades na América Latina, com governos hasteando a
bandeira da “pátria grande” de Simón Bolívar e José de San Martín, e elegendo
como país anfitrião para o evento a Argentina, provavelmente o lugar onde o
neoliberalismo deixou mais em evidência a sua capacidade de gerar pobreza e
desigualdade. A tudo isso, soma-se um presidente norte-americano cujas
políticas estão a levar a guerra a todos os rincões do mundo com o pretexto
da luta contra o terrorismo. CÚPULA DOS POVOS O povo argentino reagiu do único modo que lhe era esperado. Dezenas
de organizações sociais, sindicatos e intelectuais estão a convocar para Mar
Del Plata a 3ª Cúpula dos Povos como resposta à Cúpula das Américas. No
último dia 2 de Agosto, sob a liderança do Prémio Nobel da Paz Adolfo Pérez
Esquivel, numa conferência de imprensa internacional, os organizadores negaram-se
a chamar o evento de “contracúpula” e destacaram a sua independência de
qualquer governo, além de propor a sua própria agenda de discussão e negaram
qualquer possibilidade de violência nas acções e mobilizações que preparam. O objetivo é «aprofundar o debate e a discussão sobre a construção de
alternativas e o fortalecimento das resistências frente à ALCA e os demais
tratados de livre comércio, o pagamento da dívida externa, a militarização, a
pobreza e mobilizar todo o continente contra a presença de Bush e suas
políticas a nível mundial». 150 ACTIVIDADES A Cúpula dos Povos da América é convocada pela Aliança Social
Continental (ASC), uma coalizão de organizações sindicais, religiosas,
camponesas, de direitos humanos, de mulheres e outros movimentos sociais, com
presença em todos os países do hemisfério, incluindo dos EUA, Canadá e Cuba.
Desde 1997, a organização tem protagonizado a luta para impedir a ratificação
do projecto da ALCA e a imposição dos Tratados de Livre Comércio (TLC). O formato da 3ª Cúpula dos Povos é similar à do Fórum Social Mundial,
com actividades centrais organizadas pela Aliança Social Continental e pela
Autoconvocação Argentina Não à ALCA, e actividades auto-gestionadas
(oficinas, mobilizações e actividades culturais). Estão inscritas mais de 500
organizações e movimentos nacionais e internacionais que realizarão cerca de
150 atividades. Na programação estão incluídos os debates: “Situação da Juventude na
América Latina” (dia 2); “A juventude e as diferentes experiências de construção
de forças alternativas e de desenvolvimento do poder popular” (dia 3) e “A
juventude e a construção do socialismo do século 21” (dia 3). Mas será no
último dia (4) que acontecerá o acto contra Bush, com a presença do
presidente venezuelano Hugo Chávez, no Estádio Mundialista. BUSH: PERSONA NON
GRATA Mas não será a Cúpula dos Povos a única agenda que os argentinos e os
homens e mulheres do mundo terão para rechaçar as políticas neoliberais dos
Estados Unidos. A presença do presidente norte-americano e o que representa –
sua militarização da região, política de segurança e de apropriação dos
recursos naturais do mundo, pela via da guerra se necessário –, provocou
indignação generalizada na Argentina que culminará na Marcha contra Bush que
será realizada na sexta-feira, dia 4, data da sua chegada à Cúpula das
Américas. Convocados pela indignação massiva à presença das bases militares
norte-americanas na região, o desumano bloqueio a Cuba, as tentativas de
desestabilização na Venezuela, o apoio à intervenção militar através do Plano
Colômbia ou as tentativas de apropriação da maior reserva de água do planeta,
o Aquífero Guarani da Tríplice Fronteira, dezenas de milhares de pessoas irão
repudiar o presidente do Império. Mar Del Plata será o lugar do mundo em que se confrontarão os povos
que reivindicam a paz, a soberania e a justiça social com o presidente
norte-americano que leva ao mundo mais guerra, imperialismo e injustiça. Mais informações: www.cumbredelospueblos.org. |