Informação Alternativa

América Latina

29/12/2005

 

Os movimentos sociais e seus desafios em 2006

 

Emir Sader *

Agência Carta Maior

 

A capacidade de continuar a mobilizar o povo nas suas lutas dependerá da proposta de alternativas – teóricas e práticas – superadoras do neoliberalismo. Se não podem substituir os partidos, os movimentos sociais têm de actuar estreitamente ligados a eles, para construir o pós-neoliberalismo.

 

A HORA DA RESISTÊNCIA

 

Os movimentos sociais latino-americanos foram os principais protagonistas das lutas de resistência ao neoliberalismo. No México, no Brasil, na Bolívia, no Equador, entre outros países, coube a esses movimentos – diante da renúncia a resistir ou a dificuldades de mobilização por parte dos partidos – o papel principal nas lutas anti­‑neoliberais.

 

Na primeira fase de aplicação do neoliberalismo, a correlação era muito desfavorável às forças populares. A estabilização financeira obtida imediatamente pela aplicação drástica de planos de ajuste fiscal – que no Brasil teve o nome de Plano Real – deu legitimidade aos governos neoliberais – como os de Carlos Menem, FHC [Fernando Henrique Cardoso], Fujimori, Salinas de Gortari, entre outros –, isolando relativamente os movimentos sociais e a oposição política.

 

Os protestos reuniam a sectores relativamente limitados – trabalhadores do sector público, movimentos camponeses e indígenas, movimento estudantil –, ainda isolados pelos efeitos propagandísticos dos planos de ajuste. Isto deu­‑se especialmente ao longo da primeira metade da década de 90. Na segunda metade, as crises começavam a demonstrar mais claramente os efeitos negativos desses planos – a crise mexicana ocorreu em 1994, a brasileira em 1999 – e o descontentamento passou a possibilitar maiores manifestações de protesto.

 

A crise argentina de 2001 e as derrotas eleitorais dos principais implantadores dos planos de ajuste fiscal – Menem, o PRI, Fujimori, FHC – marcaram uma viragem no consenso existente até então, que encontrou nos Fóruns Sociais Mundiais a sua expressão mais clara da necessidade de um outro projecto de sociedade. Começou a impor­‑se o ponto de vista dos movimentos sociais, de que a grande maioria não recebe benefícios da globalização liberal, de que se impõe a necessidade da substituição de metas económico­‑financeiras por metas sociais.

 

Começaram a ser eleitos governos apoiados na oposição aos planos de ajuste – Lula em 2002, Kirchner em 2003, Lúcio Gutierrez em 2003, Tabaré Vázquez em 2004. Parecia que as lutas de resistência dos movimentos sociais permitiriam a superação do modelo neoliberal.

 

Passados alguns anos, nenhum desses governos rompeu com esse modelo, mantendo a prioridade de metas económico­‑financeiras. Um deles – Lucio Gutierrez – foi até derrubado pelos mesmos movimentos sociais que o haviam elegido. Qual a particularidade do ano de 2005 nessa longa caminhada dos movimentos sociais, das forças políticas e do movimento popular na luta contra o neoliberalismo?

 

A HORA DAS ALTERNATIVAS

 

Depois de terem protagonizado a resistência aos governos neoliberais, os movimentos sociais tiveram de enfrentar desafios políticos, isto é, possibilidades de colocar em prática alternativas ou fazer parte de frentes políticas anti­‑neoliberais. Esses desafios já vêm de há algum tempo. Primeiro foi a eleição de Lula à presidência, no Brasil. Depois, a eleição de Lúcio Gutierrez, no Equador, de Nestor Kirchner, na Argentina, e de Tabaré Vázquez, no Uruguai.

 

A luta dos movimentos sociais é uma luta pela defesa dos direitos da massa da população, atacadas pelas políticas neoliberais. Não se deveria exigir desses movimentos substituír­em‑se às forças políticas. Mas na prática os movimentos sociais personificam alternativas, lutaram por elas e não podem encerrar­‑se nas lutas sociais, terminam sendo responsáveis, directos ou indirectos, pela luta política.

 

No caso de países como Brasil, Equador, Uruguai e, em certa medida, Argentina, os movimentos sociais tiveram que se defrontar com governos que, apoiados por eles ou por uma parte deles, assumiram posições anti­‑neoliberais. Mas o balanço desses governos, desse ponto de vista, é decepcionante. No caso do Equador, já no começo do governo de Lucio Gutierrez houve a ruptura de uma parte dos movimentos camponeses e indígenas – também com consequências negativas para esses movimentos, que se dividiram, com uma parte deles permanecendo no governo.

 

Nos outros casos, os movimentos sociais mantêm posições críticas aos governos eleitos pela esquerda. Na Argentina, o movimento piqueteiro também se dividiu, uma parte mantendo apoio ao governo Kirchner, outra colocando­‑se na oposição. No Brasil e no Uruguai, os movimentos sociais guardam distâncias e desenvolvem críticas – mais ou menos profundas, conforme o movimento – sem, no entanto, romper com o governo. Permanecem com a consciência de que os avanços possíveis se darão no marco destes governos e que as alternativas serão de retorno da direita tradicional, no marco actual da relação de forças.

 

A comprovação de que os projectos políticos é que são decisivos e que os movimentos sociais têm que tomar posições em relação a eles está dada pelas experiências – negativas e positivas – dos governos da região. Do destino destes depende o dos movimentos sociais e a situação geral do povo de cada país.

 

No caso do Brasil, por exemplo, a manutenção de políticas herdadas do governo FHC foi determinante para os destinos do governo Lula e para a situação do povo brasileiro. Não apenas pela continuidade nos processo de concentração de renda, de transferência de renda para o capital especulativo, de desemprego e precariedade do trabalho, de expropriação de direitos – começando pelo direito à carteira de trabalho. Mas também pela decepção que causa no movimento popular, pela derrota que significa para a esquerda, pela falta da prioridade do social – prometida anteriormente.

 

O mesmo se pode dizer, de maneira ainda mais aguda, para os movimentos sociais e o povo equatoriano. O apoio dado à candidatura de Lucio Gutierrez e a participação directa no seu governo não apenas não melhoraram as condições de vida da população, como levaram à divisão dos movimentos sociais, piorando bastante as suas condições de luta.

 

Dilemas similares passaram a viver os movimentos sociais uruguaios, diante das orientações que se sobressaíram no governo de Tabaré Vázquez. Em melhores condições se encontram os movimentos sociais venezuelanos, pela evolução ideológica e política do governo de Hugo Chávez, que promove efectivamente a prioridade do social, utilizando substanciais recursos do petróleo para programas sociais, que incluíram neste ano o fim do analfabetismo no país.

 

OS DESAFIOS ATUAIS

 

Depois de terem protagonizado os principais combates de resistência ao neoliberalismo, os movimentos sociais passaram a enfrentar dificuldades, tanto pelos efeitos desmobilizadores dessas políticas – incluído o desemprego que produzem –, quanto pelas dificuldades da esquerda no seu conjunto para superar os programas neoliberais. Em países como Brasil, Uruguai e Argentina, existe a consciência de que, apesar da timidez das políticas governamentais, as transformações propostas pelos movimentos sociais serão possíveis nesses governos ou, dando-se a sua substituição por governos da direita tradicional, elas serão postergadas por longo período.

 

Daí uma espécie de apoio crítico que tem caracterizado, em distintos graus, movimentos como o MST e a CUT, que não seguiram o caminho de sectores políticos que optaram pela ruptura com o governo Lula e se isolaram socialmente.

 

Já outros movimentos, como os zapatistas, promoveram uma viragem drástica nas suas políticas, revelando como as suas directrizes anteriores se chocavam com as suas condições reais de efectivação. Diante de uma ofensiva militar das FFAA, alegando pretextos de plantações de coca em Chiapas, o EZLN decidiu não resistir militarmente e desmobilizou as suas Juntas de Bom Governo.

 

2005 não foi diferente. Os movimentos sociais tiveram de se enfrentar com governos cujas políticas reproduzem os modelos existentes, embora tivessem pregado, em muitos casos, a sua superação. Resistem, criticam, tentam mobilizações, revelam insatisfações com os partidos de esquerda, mas chocam­‑se com a falta de alternativas. Esse é o seu limite. Ou conseguem participar de um processo comum – de forças sociais, políticas, intelectuais – que formule um projecto alternativo ao neoliberalismo, empenhando­‑se, com sucesso, na mobilização popular para construir uma força capaz de romper com o modelo e inaugurar o pós­‑neoliberalismo, ou seguirão um processo de resistência, fragmentada, sendo vítimas de um modelo diante do qual apresentam pouca capacidade de reversão.

 

2006 é ano eleitoral em muitos países da região. Um calendário que se iniciou já no final de 2005, com as eleições na Bolívia e no Chile, mas que se estende pelas da Costa Rica, em Fevereiro de 2006, da Colômbia, em Maio, do México, em Julho, do Brasil, em Outubro, e da Venezuela, em Dezembro. O quadro político pode alterar­‑se, especialmente no Brasil – maior incógnita de todas essas eleições. As melhores novidades podem provir da Bolívia. Pouco ou quase nada se pode esperar da Colômbia, por enquanto, nem da Costa Rica. Do México, uma vitória da esquerda, ainda que moderada, pode consolidar um marco latino-americano ainda mais favorável à saída do modelo neoliberal.

 

Os movimentos sociais têm que participar desse processo, politicamente, constituindo força, articulando alianças, promovendo debates e formulação de alternativas, se não quiserem permanecer ainda por longo tempo na defensiva. A disputa decisiva dá­‑se no campo político, mas o fundamental é a hegemonia ideológica neoliberal, que penetra inclusive na esquerda. A esquerda tem sido derrotada, principalmente, no campo do debate das ideias. Não que as ideias da direita sejam melhores, mas estas souberam valer­‑se dos erros da esquerda – refiro­‑se aqui desde aquelas do campo socialista, passando pela social-democracia, pelas guerrilhas, pelas múltiplas versões da ultra-esquerda até chegar à esquerda – e ultra-esquerda – actualmente existente entre nós.

 

A capacidade de continuar a mobilizar o povo nas suas lutas depende, actualmente, sobretudo da capacidade de apontar para alternativas – teóricas e práticas – superadoras do neoliberalismo. Este é o maior desafio dos movimentos sociais na actualidade. Se não podem substituir a acção dos partidos, têm que actuar estreitamente ligados a eles, para construir o pós-neoliberalismo.

 

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* Emir Sader, professor da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), é coordenador do Laboratório de Políticas Públicas da UERJ e autor, entre outros, de A vingança da História.