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08/11/2005 Pascual Serrano Acabo de voltar da cidade de Mar del Plata, sede da IV Cimeira das Américas durante os dias 4 e 5 de Novembro. Quem ali esteve foi testemunha do clamor de repúdio contra a visita do presidente norte‑americano George Bush. Nem sequer a estratégia de convocar a cimeira a 400 quilómetros da capital e o encerramento do aeroporto, pôde impedir uma presença em massa de argentinos na cidade para protestar contra o presidente dos Estados Unidos e os seus planos de colonização económica através do Acordo de Livre Comércio das Américas (ALCA). Mais de cinquenta mil pessoas viajaram em autocarros durante toda a noite, encontraram-se às sete da manhã sob o frio e a chuva, caminharam durante vários quilómetros numa marcha de protesto e assistiram a um multitudinário acto no Estádio Mundialista sem deixar de ondear bandeiras do Che, de Cuba, da Venezuela e com slogans de “Stop Bush” durante quatro horas sem se deixarem dobrar pela água e pelas baixas temperaturas. A radicalidade da intervenção do que se confirmou como novo grande líder da América Latina, o presidente venezuelano Hugo Chávez, assombra os europeus, habituados a discursos planos, levianos, politicamente correctos. O grande projecto económico dos Estados Unidos para criar uma zona de livre troca no continente, que suporia a fagocitação das humildes economias por um império que subvenciona a sua agricultura, controla a tecnologia, pretende dominar a agricultura mediante transgénicos e veta os incómodos como Cuba, despedaçou-se contra um mar de protestos. Bush saiu da Argentina sem acordo, antes da hora prevista e humilhado até por presidentes não considerados radicais, como o próprio Nestor Kirchner da Argentina. O discurso de Chávez continuará a ser focado nos nossos países pelo seu lado informal e excêntrico para as nossas engomadas mentes europeias, por isso há que recordar a sua proposta alternativa ao modelo de integração económica de Bush, a qual se denomina Alternativa Bolivariana das Américas (ALBA). Uma proposta que permitiu que a Venezuela erradicasse o analfabetismo – segundo foi reconhecido pela UNESCO – e levasse médicos ao último rincão do país, que os países do Caribe tenham petróleo venezuelano 40 % mais barato a pagar em vinte e cinco anos com 1% de juros, a compra de bónus argentinos para levantar a fustigada economia deste país ou a inovadora proposta de Aliança contra a Fome para que em dez anos, de 2005 a 2015, se possa eliminar a fome do continente com uma primeira contribuição de dez mil milhões de dólares. Em poucas palavras, não promover um livre comércio entre empresas que só implicaria o campo livre para as multinacionais norte-americanas, mas estabelecer acordos de cooperação e ajuda mútua entre governos. Na Europa, continuamos a esperar que os media se atrevam a contá-lo em lugar de se referirem ao presidente venezuelano como populista e demagogo. Por isso, enquanto Chávez vai recebendo banhos de multidões onde quer que vá, Bush precisa de dois mil agentes norte-americanos para protegê-lo e só encontra indignação e repúdio, em Mar del Plata nos dias quatro e cinco, no Brasil no dia seis, no Panamá no dia sete, e assim onde quer que vá. Não é que os povos se deixem alucinar inocentemente pelas palavras do venezuelano, é que estão a ver umas realidades que na Europa nos querem ocultar. |