|
Informação Alternativa |
|
América
Latina |
|
15/11/2005 Pascual Serrano Para que serve hoje a canção?
Com essa pergunta se iniciou no passado dia 4 de Novembro uma original
experiência de diálogo-colóquio na cidade argentina de Mar del Plata entre
cinco cantautores latino‑americanos acompanhados do escritor cubano
Guillermo Rodríguez Rivera e moderados pelo poeta Víctor Casaus. Os
cantautores eram os cubanos Silvio Rodríguez, Vicente Feliú e Amaury Pérez, o
chileno Francisco Villa e o argentino Raly Barrionuevo. Todos eles falaram
sobre a função da canção e o compromisso social. Começou Guillermo Rodríguez
afirmando que a canção «serve para muitas coisas, para quase tudo, para amar,
para divertir-se..., mas talvez se trate de responder para que serve política
e socialmente». Rodríguez assinalou que «a canção social aparece quando a sociedade
a reclama, por exemplo nos Estados Unidos nos anos sessenta ou no período das
guerrilhas. Hoje, a canção está a unir-se ao que está a acontecer na América
Latina». Santiago Feliu acrescentou que a canção serve «primeiro para não
perder a memória, foi um canto dos povos, da sua autenticidade». «É impura – acrescentou
–, nutre-se de tudo, há na actualidade uma hemorragia de jovens que está a fazer
boas canções». Amaury Pérez recordou o
trovador cubano Noel Nicola, falecido recentemente em Havana, e o papel que
teve a música para elevar a moral das tropas cubanas nas campanhas solidárias
internacionalistas noutros países. «Hoje também está a servir na luta para a
libertação dos nossos cinco heróis presos nos Estados Unidos para que as
canções de amor se convertam em canções de justiça», afirmou. Recordava assim
os cinco cubanos presos nos Estados Unidos acusados de espionagem quando seu
objectivo era investigar os planos violentos de grupos terroristas de Miami.
Um emotivo aplauso surgiu de entre o meio milhar de pessoas assistentes ao acto,
entre elas os familiares destes cinco cubanos. O lugar foi o palco do ALBA,
no marco da III Cimeira dos Povos em Mar del Plata. Entre o meio milhar de
pessoas do público encontravam‑se o Prémio Nobel da Paz, Adolfo Pérez
Esquivel, a representante das Mães da Praça de Maio, Novita Cortiñas, o
ministro da Cultura cubano, Abel Prieto, e o presidente do Parlamento cubano,
Ricardo Alarcón. O chileno Francisco Villa assinalou que no seu país «a
canção é fundamental nos processos sociais». «A canção – acrescentou – tem
dois elementos, a estética, mais conhecida, e outra mais difícil, a ética. Se
juntamos ética e estética temos um bonito monstro que acompanha as lutas dos
povos. Deste modo, nós os que compartilhamos a vaidade inevitável no artista
com o compromisso social, estamos perdoados». O chileno recordou, entre os
aplausos do público, o seu compatriota Víctor Jara, «máxima expressão do que
pode ser a canção como máximo compromisso», e terminou com uma canção do
chileno imoral, El Manifiesto. O argentino Raly Barrionuevo,
que trabalha a música tradicional do seu país, afirmou que a canção lhe serve
para «compartilhar com os camponeses e sentir-se útil e perto da realidade». Silvio Rodríguez, o que mais
expectativa tinha despertado entre o público, afirmou que lhe «acontecia como
a todos os seus colegas» de arte. «Sob o que eles disseram – acrescentou –
subjaz algo interessante de que se fala pouco: a canção como escola». «Porque
– continuou –, quando começamos a cantar não imaginamos que vamos enfrentar
algum dia grandes públicos e que vamos ser aclamados por fazer o que nos
agrada. Quando o cantautor faz o que quer e se põe em contacto com os demais,
transforma-se em algo que não é o que fez, mas o que fazem os demais
juntamente com ele». As canções vão‑no
transformando, inclusive vão‑no metendo em sarilhos. Abrimos um
jornal, escrevemos algo indignados e depois acabamos à frente de uma
manifestação. A canção é uma grande escola à qual todos nos devemos». Todos os membros da mesa
responderam a numerosas perguntas das centenas de pessoas que participavam na
Cimeira dos Povos, algumas relacionadas com a música, mas muitas delas com
outros âmbitos da vida. Questionado sobre a sua visão do momento actual na
Argentina, Silvio Rodríguez qualificou o momento de «esperançoso, as
possibilidades deste governo acrescentaram a esperança». «Como em tudo – acrescentou
–existem dissensões, em Cuba também as há. Estamos num momento de luta em que
a consciência está na rua e as pessoas estão a fazer coisas com esta
consciência». Pancho Vila acrescentou que «Cuba, Chile e Argentina são a
antessala do sonho bolivariano por completar-se». Não faltou a já recorrente
pergunta sobre o futuro da revolução cubana sem Fidel Castro. A isso respondeu
Guillermo Rodríguez Rivera: «Se Cuba não tivesse estado preparada para
continuar com a sua revolução, não teria
estado Fidel, porque ele fez a obra necessária para que o país esteja
preparado para continuar. Porque o que Fidel fez em Cuba é também uma herança
recebida de Martí. E os jovens deveriam continuar a recolher essas heranças
até chegar à Pátria Grande». A intervenção de uma indígena
aymara presente entre o público, despertou a emoção dos assistentes, ao
expressar a sua «esperança de que os cantautores ali presentes continuem a compor
uma canção, uma poesia para que o neoliberalismo não leve a água, não nos
roubem a terra e não nos matem os animais». Perguntou‑se‑lhes
a sua opinião sobre o copyleft, o modelo de criação em que, frente ao copyright,
o autor permite a reprodução gratuita do seu trabalho sempre que não seja com
ânimo de lucro. Os cubanos recordaram que no seu país «não temos a espada de
Damocles do mercantilismo. O comercial, em Cuba, não procede de nenhuma
pressão do sistema cubano, embora seja verdade que está a haver uma involução.
Até há pouco os músicos trabalhavam por um salário fixo mensal». Pancho Villa
recordou o episódio da alegria que lhe despertou encontrar um vendedor de rua
vendendo as cópias piratas da sua música. «Ofereci‑me até para
autografar os discos pirateados, como sempre nessas circunstâncias
comprometidas havia um jornalista perto que fotografou‑o e aquilo
provocou a indignação da sociedade de autores», comentou despertando os risos
dos assistentes. «A cultura, a arte e a canção são um direito e não um
privilégio», aclarou o chileno. Villa afirmou que «sob a defesa do copyright
esconde‑se a defesa das multinacionais, eu só ganho 7 % da venda
de cada disco, o resto é para a multinacional. O meu disco no Chile quase não
o posso comprar eu tão caro que custa. Quem mata a música é aquele que compra
o oficial. Piratear é um acto absolutamente revolucionário». Estas afirmações
foram pontualizadas por Silvio Rodríguez: «Há quem pirateie para dar de comer
aos seus filhos, mas há piratas que o fazem para comprar um automóvel novo ou
ir ao casino à noite», com o que estabeleceu diferenças entre a pirataria dos
necessitados e a dos poderosos. Alguém do público recordou
aos cantautores que «muitos colegas presos ou perseguidos vêem‑se
animados pelas suas canções» e perguntou‑lhes a sua sensação antes
esses factos. Vicente Feliú respondeu que os músicos o vivem «com orgulho mas
também com temor pelo alcance da nossa obra, porque uma pessoa não sabe se é
capaz de crescer tanto como essas canções cresceram no interior dessas
pessoas». Também lhes foi pedido algum
conselho para os jovens que começam a lutar. Ironicamente, Silvio Rodríguez
respondeu que «quem dá conselhos é quem não é capaz de dar maus exemplos». «Parece‑me
que luta e rebeldia estão muito próximas à juventude – acrescentou –. É a
etapa em que se começam as lutas, com os anos alguns ficam, não os crítico, é
humano, mas outros continuam toda a sua vida com a bandeira, esses, como
diria Bertolt Brecht, são os imprescindíveis». Uma das perguntas fez
referência ao papel das organizações não governamentais na luta contra a
pobreza. Sobre isso, Silvio Rodríguez assinalou que «o facto de que sejam as
ONG as que estão a lutar contra a pobreza, não nos faz perguntar o que estão a
fazer os governos». Durante a descontraída e
participativa palestra houve palavras de recordação para os ausentes: Violeta
Parra, Alí Primera, Noel Nicola... Ao encontrar-se no dia
anterior à que seria uma das maiores mobilizações latino‑americanas
contra o presidente dos Estados Unidos George W. Bush, Silvio Rodríguez recordou
o seu compromisso com essas mobilizações, «não como artista, mas como ser
cívico, como terráqueo, oponho-me a esses ladrões e assassinos à custa da
opróbrio de outros seres humanos, da sua educação, da sua alimentação. A
todos esses responsáveis quero‑lhes dizer que estarei repudiando Bush
como terráqueo, não como artista». Silvio Rodríguez referiu‑se ao presidente
norte-americano como «um louco que invade, mata, rouba o petróleo e quer
dar-nos lições de justiça e até quer que choremos os seus mortos». Alguém do público destacou
ironicamente que algo havia que agradecer a Bush e era «conseguir unir-nos em
revolução». Raly Barrionuevo também
denunciou «os empréstimos das grandes financeiras» que tinham levado o seu
país à bancarrota económica e «a presença de multinacionais que compraram a Argentina
a preço de saldo». Pancho Villa assinalou que o problema «não é só a pobreza,
é a riqueza acumulada em mãos de uns poucos». Silvio Rodríguez, franqueado
por duas grandes imagens de Martí e Bolivar, também falou de Cuba: «Sou de um
país que leva meio século bloqueado da forma mais brutal e pelo maior império
com o objectivo de desacreditar a sua revolução e caluniá-la». Quanto ao momento que a América Latina atravessa, afirmou que «estamos na busca do sonho de Martí e Bolívar. Este é um dos momentos históricos que, espero, ajude a tornar possível esse sonho americano». |