Informação Alternativa

América Latina

Maio 2001

 

“Operação Condor", o pesadelo da América Latina

 

Pierre Abramovici *

Le Monde diplomatique

 

«Nós, os chilenos, como todos os povos do Ocidente, combatemos as ditaduras dos “ismos” e os agentes estrangeiros que ameaçam o nosso país. Devemos combatê-los com todas as forças, sendo a arma principal a cooperação entre as polícias de toda a América» [1].

 

O «senhor Castillo, do serviço secreto chileno», está com os olhos fixos no espectador. O filme intitula­‑se O crime não compensa. Estamos em plena Segunda Guerra Mundial e Hollywood fabrica então pequenos filmes patrióticos intitulados “Por uma defesa comum”. Inspirados pelo FBI, pretendem ser um ataque contra os espiões nazis na América Latina e uma ilustração da cooperação dos serviços de polícia e de informação à escala continental.

 

Poderíamos datar neste episódio as origens do que viria a ser a Operação Condor: um vasto plano de repressão continental, posto em prática pelas ditaduras latino-americanas nos anos 1970-1980. Somente a cor do “ismo” mudou, passando do castanho ao vermelho.

 

Foi a descoberta, por acaso, em fins de Dezembro de 1992, de duas toneladas de arquivos da ditadura Stroessner numa delegacia de Lambaré, subúrbio de Assunção (Paraguai), que permitiu reconstituir as actividades criminosas desta rede internacional. O desclassificação de documentos da CIA referentes ao Chile, no dia 13 de Novembro 2000, confirmou e detalhou o conteúdo desses “arquivos do terror”.

 

Desde a Conferência Pan-Americana de Chapultepec, no México, em Fevereiro de 1945, os Estados Unidos põem de sobreaviso os militares sul-americanos contra o comunismo. Nessa perspectiva, acordos bilaterais de assistência militar serão efectivamente assinados em 1951: fornecimento de armas e financiamento norte­‑americano, presença de assessores militares e treinamento de oficiais latino-americanos nos Estados Unidos e na Escola das Américas, na zona norte-americana do canal do Panamá.

 

A revolução castrista, em 1959, precipitou evidentemente o movimento para uma «defesa continental contra o comunismo». Em 1960, o general Theodore F. Bogart, comandante da US Southern Command (Comando Sul do exército dos Estados Unidos), com base na Zona do Canal, no Panamá, convidou os seus colegas latino­‑americanos para uma reunião “amigável” para discutir problemas comuns. Dessa forma nasceram as Conferências dos Exércitos Americanos (CEA). Realizadas todos os anos em Forte Amador (Panamá) e depois, em 1964, em West Point, as reuniões tornam­‑se mais espaçadas a partir de 1965 e passam a ser organizadas a cada dois anos. Aí, nesse local de reunião um pouco obsessivo, típico da guerra fria e raramente dando lugar a ecos públicos, situa­‑se o coração do que se tornará um dia a Operação Condor.

 

Além do MCI (Movimento Comunista Internacional, acrónimo cómodo para designar todos os opositores), os militares latino-americanos compartilhavam de uma obsessão maior: a interconexão dos serviços. Desde a sua segunda reunião, a CEA exprime o desejo de estabelecer um comité permanente na zona do canal do Panamá «a fim de trocar informações» [2]. Esta vontade vai­‑se resultar na instauração de uma rede de comunicação à escala continental e a encontros bilaterais ultra-secretos (Argentina-Paraguai, Brasil-Argentina, Argentina­‑Uruguai, Paraguai-Bolívia, etc.) para informações.

 

Emitidas por um determinado país para um ou vários outros, as fichas de informação circulavam através da rede “Agremil” – de agregados militares (adidos militares). Originadas geralmente nos serviços secretos militares (G-2), elas podiam também provir de polícias políticas ou mesmo de serviços menos oficiais como a Organização de Coordenação de Operações Antisubversivas (OCOA), um esquadrão da morte originário da polícia política uruguaia, cujos membros participavam nos interrogatórios, nas torturas e nas execuções, principalmente na Argentina [3].

 

Por ocasião da X reunião da CEA (Caracas, 3 de Setembro de 1973), o general Breno Borges Fortes, chefe do Estado-Maior do exército brasileiro, admite que a estratégia de luta contra o comunismo é da competência exclusiva das forças armadas de cada país mas que, «no que diz respeito ao aspecto colectivo, estimamos que somente são eficazes (...) a troca de experiências ou de informações e a ajuda técnica na medida em que esta for solicitada» [4]. É tomada a decisão de «dar mais força à troca de informações para enfrentar o terrorismo e (...) controlar os elementos subversivos em cada país» [5].

 

Enquanto o sub-continente cai progressivamente nas garras de regimes militares inspirados no exemplo brasileiro, a Argentina passa por uma curiosa transição entre o retorno ao poder de Juan Domingo Perón, em 1973, e o golpe de 1976. A polícia e as forças armadas autorizam o desenvolvimento de esquadrões da morte originários das suas fileiras, como a Aliança Anticomunista Argentina (AAA, ou Triple A). Porém, a Argentina continua a ser o único país do Cone Sul onde podem encontrar asilo milhares de refugiados, principalmente chilenos e uruguaios, vítimas da perseguição política e social.

 

FORÇAS ESPECIAIS ANTI-EXILADOS

 

No início de Março de 1974, representantes das polícias do Chile, do Uruguai e da Bolívia reuniram­‑se com o subchefe da polícia federal argentina, o comissário Alberto Villar (co­‑fundador da Triple A), para estudar a maneira pela qual poderiam colaborar para destruir o “foco subversivo” que constituía, na sua opinião, a presença destes milhares de “subversivos” estrangeiros na Argentina. O representante do Chile, um general dos carabineiros, propõe «credenciar em cada embaixada um agente da Segurança, que poderia pertencer seja às Forças armadas seja à polícia, e cuja função principal seria a de assegurar a coordenação com a polícia ou o representante da Segurança de cada país». O general acrescenta: «Deveríamos dispor igualmente de uma central de informações onde pudéssemos buscar informações respeitantes aos indivíduos marxistas (...), trocar programas e informações sobre as pessoas políticas (...). Seria necessário podermos entrar e sair da Bolívia, passar da Bolívia para o Chile e de lá voltar à Argentina, em suma, deslocarmo­‑nos em qualquer destes países sem necessidade de um pedido formal» [6].

 

O comissário Villar promete que o Departamento de Assuntos Estrangeiros (DAE) da Superintendência de Segurança da polícia federal argentina se ocupará dos estrangeiros que interessam às ditaduras vizinhas. Em Agosto desse ano começam realmente a aparecer, nos depósitos de lixo de Buenos Aires, os primeiros cadáveres de refugiados estrangeiros, principalmente bolivianos. No dia 30 de Setembro, na capital argentina, uma bomba colocada por um comando chileno e um agente (ou ex-agente) da CIA, Michael Townley, mata o general Carlos Prats, antigo comandante em chefe do exército chileno durante o governo da Unidade Popular e ponta de lança da oposição ao general Augusto Pinochet.

 

Comandos policiais ou militares atravessam as fronteiras. No decurso dos meses de Março e Abril de 1975, por exemplo, mais de vinte e cinco uruguaios são presos em Buenos Aires por polícias argentinos e uruguaios. Nos locais da polícia argentina, estes conduzem conjuntamente os interrogatórios. Jorge Isaac Fuentes Alarcón, militante argentino, foi preso na fronteira paraguaia pela polícia deste país. Como estabelecerá a Comissão Retting – Comissão Nacional de Verdade e Reconciliação Chilena – no seu relatório enviado ao presidente Patrício Aylwin no dia 8 de Fevereiro de 1991 [7], o interrogatório do preso foi feito pela polícia paraguaia, pelos serviços secretos argentinos e... por funcionários da embaixada dos Estados Unidos em Buenos Aires, estes últimos transmitindo à polícia chilena as informações recolhidas. Alarcón será de seguida entregue aos agentes da Direcção de Informações Nacionais (DINA) chilena presentes no Paraguai, e transferido para o Chile.

 

Pois, entretanto, o Chile aperfeiçoou o sistema. Depois do golpe de 11 de Setembro de 1973 – no qual o presidente norte-americano Richard Nixon e o seu secretário de Estado, Henry Kissinger, têm uma responsabilidade directa –, o general Pinochet confiou plenos poderes ao coronel Manuel Contreras para «extirpar o cancro comunista» do país. Rapidamente, a DINA transformou­‑se num Estado dentro do Estado.

 

A forte presença no estrangeiro de opositores irredutíveis constitui um dos principais problemas da ditadura chilena. Ela consegue o assassinato do general Prats, mas os anticastristas cubanos recrutados para a circunstância falham, em Fevereiro de 1975, a execução de Carlos Altamirano e de Volodia Tetelboim, respectivamente líderes dos partidos Socialista e Comunista chilenos no exílio. No início de Agosto, o coronel Contreras efectua uma viagem destinada a convencer os serviços de segurança de toda a América Latina a criarem uma força especial anti-exilados. Deu­‑se também ao trabalho de ir à sede da CIA em Washington, no dia 25 de Agosto, onde se encontrou com Vernon Walters, sub-director encarregado da América Latina.

 

Dois dias mais tarde ele visita, em Caracas, Rafael Riva Vasquez, director adjunto dos serviços secretos venezuelanos, a DISIP: «Ele explicou (...) que desejaria ter agentes nas embaixadas chilenas no estrangeiro, que já tinha a confiança de funcionários das embaixadas prontos para servirem de agentes, se necessário. Disse que fez várias viagens coroadas de êxito para conseguir o apoio de diferentes serviços secretos latino­‑americanos. Tudo isso na base de acordos verbais» [9]. Segundo Rivas, o governo venezuelano deu ordem à DISIP de rechaçar as propostas do coronel Contreras. Foi a única recusa. Todos os outros países (Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai, Bolívia) aceitaram.

 

Paralelamente, é dada a ordem para concretizar uma rede na Europa. Esta articula­‑se em torno de terroristas italianos de extrema-direita. Não podendo eliminar Carlos Altamirano – que vivia na República Federal Alemã, sob escolta armada –, os seus executantes optam por Bernardo Leighton, antigo vice-presidente do Chile e um dos fundadores do Partido Democrata-Cristão. No dia 6 de Outubro de 1975, Leigthon e a sua esposa são atacados em Roma por um comando fascista. Salvam-se, mas a Sra. Leighton fica paralisada para o resto da vida. Apesar deste fracasso, o general Pinochet encontra-se com o chefe dos comandos italianos, um certo Stefano Delle Chiaie, que aceita ficar à disposição dos chilenos.

 

Por ocasião da sua reunião de 19 a 26 de Outubro de 1975 em Montevidéu, a CEA aprova a organização de uma «primeira reunião de trabalho sobre informação nacional» preparada pelo coronel Contreras, que se realiza em Santiago do Chile, de 25 de Novembro a 1 de Dezembro de 1975. Ela tem «um carácter estritamente secreto». A principal proposta do coronel Contreras visa à criação de um arquivo continental, «algo, nas suas linhas gerais, parecido ao que a Interpol tem em Paris, mas especializado em subversão». Nascia a Operação Condor, versão chilena.

 

Segundo a CIA – que garante nunca ter realmente ouvido falar disso até 1976 [9] –, três países membros da Condor, o Chile, a Argentina e o Uruguai, «teriam ampliado as suas actividades de cooperação antisubversiva a fim de incluir o assassinato de terroristas de alto escalão no exílio na Europa». Embora se considerasse, há muitos anos, que a troca de informações se deveria processar de maneira sobretudo bilateral, «uma terceira e muito secreta fase da operação Condor teria dito respeito à formação de equipas especiais, vindas dos países membros, implicadas em operações que incluiriam assassinatos de terroristas ou simpatizantes de organizações terroristas. Por exemplo, se um terrorista ou um simpatizante de uma organização terrorista de um país membro fosse identificado, uma equipa especial seria enviada para localizar e vigiar o alvo. Quanto a localização e a vigilância fossem efectuadas, uma segunda equipa seria enviada para operar contra o alvo. A equipa especial estaria equipada com documentos falsos originários dos países membros. Poderia ser composta de indivíduos vindos de uma ou várias nações membros».

 

UMA PRIVATIZAÇÃO DAS OPERAÇÕES

 

Para a CIA, o centro operacional desta “fase três” situa­‑se em Buenos Aires onde uma equipa especial teria sido constituída. Enquanto isso, as reuniões bilaterais da CEA continuam entre os diferentes países do Cone Sul e as suas consequências são também brutais [10].

 

Inúmeras reuniões Condor realizam­‑se em 1976, muitas vezes com os mesmos participantes dos encontros bilaterais. Ainda segundo a CIA, «embora a cooperação entre os seus respectivos serviços secretos e de segurança existisse há algum tempo (...), o esforço de cooperação só foi formalizado no fim de Maio de 1976, quando uma reunião Condor teve lugar em Santiago do Chile. O tema de base da reunião foi uma cooperação a longo prazo entre os serviços secretos dos países participantes, mas bem além da troca de informações. Os membros do Condor outorgaram­‑se nomes de código numéricos: “Condor um”, “Condor dois”, etc.».

 

Um ano terrível para os opositores, que se refugiam onde conseguem. Sob pretexto de atacar “terroristas”, partidários da luta armada, ataca-se qualquer pessoa. Assassinatos, desaparecimentos, os executores latino­‑americanos deixam de ter fronteiras. Foi nessa época que, durante uma conversa cordial tida no dia 8 de Junho em Santiago, Henry Kissinger declarou ao general Pinochet: «Nos Estados Unidos, como você sabe, estamos de todo o coração consigo (...). Desejo-lhe sucesso» [11].

 

Uma tal repressão torna, no entanto, cada vez mais difícil manter o segredo. A CIA faz­‑se então eco de rumores incómodos: «Os oficiais do exército que foram postos a par do assunto começaram a falar abertamente. A sua piada favorita é que “um dos seus colegas está fora do país porque voa como o Condor”».

 

Paradoxalmente, é a política de assassinatos selectivos inventada pelo coronel Contreras que, pelo menos formalmente, irá pôr fim à Operação Condor. O oficial chileno comete, com efeito, o erro de mandar assassinar o antigo ministro dos Negócios Estrangeiros do Chile, Orlando Letelier, em Washington, no dia 21 de Setembro de 1976. Os norte-americanos investigam para descobrir os mandantes desta operação. O responsável pelo FBI em Buenos Aires envia um relatório descrevendo Condor e a sua “fase três”, do qual alguns trechos são divulgados pela imprensa norte-americana. Uma comissão de inquérito parlamentar cedo trabalha na questão. No Chile, a DINA é dissolvida e imediatamente substituída, sem o coronel Contreras.

 

Tendo feito do respeito pelos direitos humanos um dos eixos da sua política, o novo presidente norte­‑americano, o liberal James Carter, não aceita esse tipo de actividades. Ou, pelo menos, não admite que os Estados Unidos possam estar metidos nisso. De um modo geral, considera-se que o governo norte-americano pressionou então os países latino-americanos para que fizessem cessar a Condor.

 

Do dia 13 ao dia 15 de Dezembro de 1976, representantes de todos os países membros da organização encontram­‑se em Buenos Aires para discutir planos futuros, neste contexto novo. Muito claramente, os argentinos (que, após o golpe de 23 de Março, superam em ferocidade todas as outras ditaduras) retomam o controle e criam, com os paraguaios, um canal mais discreto e mais seguro.

 

Em Março de 1977, em Assunção, desenrola-se a terceira reunião da Confederação Anticomunista da América Latina (CAL). Está presente a fina flor das ditaduras, do general Gustavo Leigh, membro da junta chilena, ao general­‑presidente argentino, Jorge Videla, passando por tudo o que a América Latina conta em termos de torturadores e membros de esquadrões da morte. A CAL é um sucedâneo de um movimento internacional ligado aos diferentes serviços secretos, a Liga Mundial Anticomunista (WACL).

 

Durante a reunião, muitos problemas são levantados. Por um lado, a posição norte-americana visando reinstalar a democracia na América Latina; por outro lado, a evolução da guerrilha na América Central; e finalmente, a posição assumida por certos sectores da igreja católica, considerados como inteiramente pertencentes ao movimento comunista internacional.

 

Um plano proposto pelos bolivianos, visando a “erradicação” dos religiosos adeptos da teologia da libertação e formalizado sob o nome de “Plano Banzer”, do nome do ditador boliviano, será efectivamente posto em prática no decorrer dos anos seguintes. Resultará na execução de centenas de padres, religiosos, oblatos, freiras, leigos membros de comunidades religiosas, bispos, etc., para culminar com o assassinato do arcebispo Oscar Romero, em San Salvador (El Salvador).

 

Assumindo a repressão continental, os argentinos desembaraçam­‑se de qualquer controle. De um certo ponto de vista, confiar a coordenação da repressão a esquadrões da morte, mesmo que estes envolvam militares ou polícias, significa “privatizar” as operações. Por outro lado, as reuniões bilaterais de informação continuam e os encontros da CEA – sob a autoridade dos Estados Unidos – continuam. A reunião de 1977 tem lugar em Manágua, na Nicarágua, e a de 1979, em Bogotá, na Colômbia. Os argentinos enviam várias missões à América Central para ajudar as forças armadas e as polícias políticas. Para se emanciparem das escolas de guerra norte­‑americanas, começam, a partir da primavera de 1979, a organizar estágios de luta contra a subversão em Buenos Aires. A queda da ditadura somozista, em Julho de 1979 vai, evidentemente, encorajar os latino­‑americanos a adoptarem padrões comuns.

 

Por ocasião da quarta reunião da CAL, presidida pelo general argentino Suarez Mason em Setembro de 1980, em Buenos Aires, as discussões visam estabelecer uma “solução argentina” para toda a América Latina. Desde Abril de 1980, o secretariado norte-americano de Defesa sabe que o Chile, a Argentina, o Uruguai, o Paraguai e o Brasil recolocam em discussão a ideia de uma «organização antiterrorista internacional». Uma nova retoma da Condor! Entretanto, os massacres perpetrados de maneira coordenada, sob a égide da CAL, por esquadrões da morte e organismos de segurança, prosseguem na América Central. E as fichas “Agremil” continuam a circular em todos os estados­‑maiores, com os seus corolários: prisões multinacionais, trocas de prisioneiros, equipas internacionais de torturadores, etc.

 

Em 1981, a reunião da CEA tem lugar em Washington: o presidente republicano Ronald Reagan acabava de ser eleito. Nova reviravolta. A existência da Nicarágua sandinista relança a cooperação [12]: é decidido assinar novos acordos bilaterais sobre a informação respeitante a “terroristas” e, sobretudo, criar um secretariado permanente da CEA, que será efectivamente instalado no dia 24 de Maio de 1984 em Santiago do Chile.

 

Este Chile dos militares irá permanecer o último baluarte contra os comunistas na América do Sul (com o Paraguai), quando a Argentina, em 1985, volta a ser uma democracia. Entretanto, o governo Reagan confiou tanto à CIA como ao sector privado e à CAL o seu programa de guerra clandestina na América Central [13]. Quanto ao conteúdo ideológico da CEA, continua a ser a guerra contra o comunismo internacional. A única mudança é o facto de encontrarmos doravante sob esse vocábulo, para além dos habituais opositores de esquerda e dos padres, as organizações de defesa dos direitos humanos. Com o passar do tempo, acrescentam-se à lista os partidários de processos contra os torturadores, os juízes ou os jornalistas, e depois os opositores à corrupção na qual os militares estão amplamente implicados.

 

Formalmente, a Condor desapareceu nas selvas da América Central quando os Estados Unidos retomaram o controle da luta contra a Nicarágua sandinista. Mais simplesmente, o fim da guerra fria e o peso dos seus excessos deram-lhe um golpe fatal. Mesmo que a operação propriamente dita envolva apenas algumas dezenas ou centenas de vítimas-alvos, o balanço geral da repressão durante esse período, somente no Cone Sul, é de cerca de 50.000 assassinados, 35.000 desaparecidos e 400.000 prisioneiros.

 

Embora não existam mais execuções ou torturas institucionalizadas à escala continental, nada permite afirmar que essas práticas tenham desaparecido. Prova disso são os abusos cometidos pelos paramilitares colombianos, ligados a certos sectores do exército deste país. No dia 8 de Março de 2000, um relatório da Comissão sobre a Segurança Continental da Organização dos Estados Americanos (OEA) fez o balanço de dez anos de cooperação entre os diferentes Estados latino e centro-americanos. O inimigo passa a chamar­‑se doravante “traficante de droga”, ao invés de “comunista”, mas globalmente o discurso, ainda que salpicado de referências aos direitos humanos, permanece idêntico.

 

Uma multidão de acordos foram assinados entre inúmeros países da América Latina e da América Central, e entre estes e os Estados Unidos. Todos visam a uma maior cooperação bilateral ou multilateral, essencialmente no domínio do terrorismo, da lavagem de dinheiro e do tráfico de estupefacientes. O lugar dos exércitos vê­‑se reafirmado na organização do controle social.

 

Do mesmo modo, a partir de meados da década de 1990 e sob a égide dos Estados Unidos, os países da América Latina multiplicam as trocas bilaterais. Somente na área das informações, há dezenas delas, sem contar a Conferência anual dos Serviços Secretos dos exércitos dos países membros da OEA. A CEA continuou as suas reuniões, na Argentina em 1995, e no Equador em 1997. Uma Conferência militar multilateral sobre os serviços de informações, a primeira após a do coronel Contreras em 1975, foi organizada pelo exército boliviano de 8 a 10 de Março de 1999, com a presença dos exércitos da Argentina, do Brasil, da Colômbia, do Equador, dos Estados Unidos (Comando Sul), do Paraguai, do Uruguai e da Venezuela.

 

A “segurança das Américas”, prioridade cara aos Estados Unidos, não dá necessariamente o primeiro lugar à democracia. O que permitiu a Operação Condor só pede para ser reactivado.

 

________

* Jornalista, autor de Un rocher bien occupé, Editions du Seuil, Paris, 2001.

 

[1] A Crime Does Not Pay. For the Common Defense, filme, Metro Goldwyn Meyer, 1943.

[2] Secretaria Permanente CEA, Boletin Informativo, n.º 1, Santiago, Chile, 1985.

[3] Nunca Mas/Conadep. Editorial Universitaria de Buenos Aires, 1984.

[4] Diffusion de l’information sur l’Amérique latine (DIAL), n.º 125. Paris, 25 de Outubro de 1973.

[5] Secretaria Permanente CEA, Boletin Informativo, n.º 1, op. cit.

[6] Versão estenográfica publicada por El Autentico, Buenos Aires, 10 de Dezembro de 1975.

[7] “Informe de la Comisión de Verdad y Reconciliación”, texto oficial completo, 278 páginas, publicado por La Nación, Santiago, 5 de Março de 1991.

[8] Depoimento de 29 de Junho de 1979, perante a justiça norte-americana, por ocasião do processo aberto contra os assassinos de Orlando Letelier, em Washington.

[9] Verdadeira ou falsa, esta afirmação não pode ocultar que o coronel Contreras foi um agente informador da CIA, de 1974 a 1977, e remunerado pela Agência até 1975 («por engano», afirma a CIA), como revelou um documento desclassificado enviado ao Congresso norte-americano a seu pedido, no dia 19 de Setembro de 2000. El Nuevo Herald, Miami, 20 de Setembro de 2000.

[10] Para realizar a sua “guerra suja”, os argentinos são os únicos na América Latina que não fizeram apelo aos norte-americanos. Em 1976, uma missão militar francesa esteve em Buenos Aires para treinar as forças armadas argentinas na luta anti-subversão.

[11] Documento desclassificado, citado em El País, 28 de Fevereiro de 1999.

[12] No 1º de Dezembro de 1981, uma verba de 19 milhões de dólares foi desblouqueada pelo governo norte­‑americano para permitir o treinamento de um primeiro contingente de 500 contras (contra­‑revolucionários nicaraguanos) por oficiais argentinos.

[13] Pierre Abramovici, «Des millions de dollars pour les “combattants de la liberté”», Le Monde diplomatique, Abril 1986.