|
Informação Alternativa |
|
América
Latina |
|
09/10/2004 Aleida Guevara The New York Times;
retirado de Brasil
de Fato Quando li Diários de
Motocicleta pela primeira vez, a obra consistia em apenas um maço de
folhas dactilografadas. Mesmo assim, eu identifiquei‑me imediatamente
com esse homem que narrava as suas aventuras de forma tão espontânea. À
medida que fui lendo, comecei a perceber que o escritor era o meu pai. Houve momentos em que me
sentei na garupa da sua motocicleta e me agarrei às suas costas, passeando
com ele pelas montanhas e em torno de lagos. Admito que houve certos trechos
que me fizeram interromper a leitura, especialmente quando ele descreve de forma
tão crua coisas que eu nunca falaria sobre mim mesma. Porém, quando ele o
faz, revela novamente como era capaz de ser honesto e não convencional. Para
falar a verdade, quanto mais lia, mais amava o garoto que o meu pai tinha
sido. Passei a conhecer melhor o
jovem Ernesto Che Guevara: o rapaz de 23 anos que deixou a Argentina com sede
de aventuras e com sonhos de realizar grandes feitos, e que, à medida que
descobria a realidade do nosso continente, continuava a amadurecer como ser
humano e a se desenvolver como ser social. É possível enxergar vagarosamente
como os seus sonhos e ambições mudaram. O jovem que nos faz sorrir no
início com os seus absurdos e loucuras torna‑se cada vez mais sensível
à medida que fala sobre o complexo mundo nativo da América Latina, sobre a
pobreza do seu povo e a exploração à qual este é submetido. Apesar de tudo,
ele jamais perde o senso de humor, que se torna cada vez mais refinado e subtil. O meu pai, «ése, el que fue»,
como se identificava, mostra‑nos uma América Latina que poucos de nós
conhecemos, descrevendo as suas paisagens com palavras que coloram cada
imagem e atingem os nossos sentidos, de forma que podemos enxergar aquilo que
os seus olhos vêem. Ele fica cada vez mais
consciente de que aquilo de que os pobres mais precisam não é do seu
conhecimento científico como médico. O que é mais importante para eles é a
sua força e a sua persistência na luta para promover mudanças sociais que
lhes permitam recuperar uma dignidade que lhes foi tirada e pisoteada por
séculos. Com a sua sede de saber e a
sua grande capacidade de amar, ele mostra‑nos como a realidade, se
interpretada apropriadamente, pode permear um ser humano a ponto de mudar a
sua forma de pensar. Eu tinha apenas seis anos de idade quando o meu pai
morreu, há exactos 37 anos, de forma que dele trago poucas memórias. Passei a
conhecê-lo à medida que crescia. A minha mãe, Aleida March, amava‑o
profundamente, e compartilhava os seus ideais, que ela passou aos filhos.
Aquilo de que mais me lembro é da grande capacidade que o meu pai tinha de
amar. Muitas vezes me descrevo como
sendo um acidente genético; tive a honra e o privilégio de ser filha de um
homem e de uma mulher que são pessoas muito especiais. E sou também um
produto da revolução cubana. Sou pediatra, especializada
em alergias, em Havana. Quando era jovem, a imagem do meu pai influenciou‑me,
mas mais tarde escolhi a medicina como forma de estar mais próxima do meu
povo. Também trabalhei como médica na Nicarágua, em Angola e no Equador. Como família, ficamos felizes
quando a imagem do meu pai inspira as pessoas a aprender mais sobre ele e o
seu pensamento, mas muitas vezes a comercialização dessa imagem soa‑nos
como uma falta de respeito àquilo que ele foi e pelo que lutou. Desde a década de 80, nós – a
família de Che e outros – temos trabalhado nos seus manuscritos não
publicados. Esses documentos foram mantidos como parte do seu arquivo
pessoal, e em grande parte eram e continuam a ser guardados com ciúme pela
minha mãe. Para publicar qualquer coisa
escrita pelo Che que ele próprio não pretendesse publicar – como foi o caso
com as notas que se transformaram em Diários de Motocicleta –, é
necessário um sério trabalho de edição. Não podemos omitir textos,
mas ao mesmo tempo não dá para garantir completamente que ele teria dado a
sua permissão para que o texto fosse publicado exactamente da forma como foi
escrito. É por isso que nos comprometemos a editar aquilo que ele escreveu
sem mudar o significado almejado – uma tarefa muito difícil. Uma editora cubana publicou Diários
de Motocicleta pela primeira vez em 1993. Entre os vários livros que o meu
pai escreveu, esse é um dos meus favoritos, porque aproxima o jovem Ernesto
de outros jovens do mundo actual – o que é a coisa mais importante –,
revelando como as pessoas podem ser modificadas se forem sensíveis ao que
está à sua volta. Embora na ilha só exista uma
cópia do filme Diários de Motocicleta, de Walter Salles, os cubanos
que o assistiram falaram muito bem do trabalho. Ele é divertido, suave e
profundo. Embora não estejamos mais nos
anos 50 ou 60, infelizmente as condições na América Latina que provocaram uma
profunda mudança no jovem Che Guevara ainda estão presentes em muitas partes
do nosso continente e do mundo, com um impacto cada vez mais brutal. Será que o filme e o livro se tornaram tão populares porque a sua força e ternura são um modelo para as pessoas das quais precisamos nestes tempos? Acredito que este seja o caso, e sinto‑me orgulhosa de viver entre pessoas que não só o amam, mas que colocam em prática o seu desejo de criar um mundo que seja bem mais justo. |