Informação Alternativa

América Latina

06/10/2004

 

A militarização da América Latina pelos EUA

 

Jim Lobe

OneWorld

Passados menos de 15 anos do fim da guerra fria, um novo relatório trazido a público esta semana revela uma crescente militarização no relacionamento entre o governo dos Estados Unidos e os países da América Latina.

Segundo o documento, a região tem visto desde 2001 um crescimento sensível no auxílio oferecido pelo governo dos EUA. O relatório aponta ainda para o facto de que, no pico da guerra fria, a assistência militar era equivalente a apenas um terço (ou menos) da ajuda económica destinada à América Latina pelos Estados Unidos.

Intitulado Blurring the Lines: Trends in U.S. Military Programs in Latin America [Riscar as Fronteiras: As Tendências dos Programas Militares Norte­‑americanos na América Latina”], o documento lembra que, apenas em 2003, a ajuda militar chegou aos US$ 860 milhões – pouco abaixo dos US$ 921 milhões gastos no mesmo ano com assistência económica e humanitária. Mantido esse ritmo, é bem possível que, em breve, o auxílio económico seja ultrapassado pela ajuda militar.

Além disso, novas e vagas doutrinas propagadas pelo órgão do Departamento de Defesa dos EUA responsável pela monitorização da América Latina, o U.S. Southern Command (Southcom), como a “soberania efectiva”, que considera que a segurança dos EUA pode ser ameaçada pelo fracasso dos governos da América Latina em controlar as vastas “áreas sem governo” dentro de suas fronteiras, estão a fornecer novos pretextos para que as forças armadas regionais passem por cima do poder das autoridades civis.

Produzido pelo Gabinete de Washington para a América Latina (WOLA, na sigla em inglês), o Grupo de Trabalho para a América Latina (LAWG, na sigla em inglês) e o Centro de Política Internacional (CIP, na sigla em inglês), o documento lembra que, com recursos financeiros e infra-estrutura consideravelmente maiores que os do Departamento de Estado e de outras agências do governo dos EUA, o Southcom exerce papel cada vez mais activo quanto à postura dos EUA frente à América Latina.

O Blurring the lines (em inglês, algo como “riscar as fronteiras”) presente no título do relatório faz referência aos papéis supostamente distintos reservados às instituições civis e militares no governo. O centro do estudo é dedicado à hipótese segundo a qual Washington estaria encorajando as forças armadas latino-americanas a aventurarem-se em jurisdições que, em tese, seriam de ordem civil.

«Esta não é uma questão académica», afirma a directora executiva do WOLA, Joy Olson. «Isso diz respeito à essência da democracia, especialmente para os países nos quais não é completa ainda a transição de ditaduras militares brutais para regimes democráticos».

«Os programas militares norte-americanos têm, em grande medida, encorajado os militares latino-americanos a assumir papéis que podem ser perfeitamente destinados a civis, como o combate ao crime, a construção de estradas e a protecção do meio ambiente».

Na sua “Declaração de Postura” anual, no 2004, o General Comandante do Southcom, James Hill, apresenta uma lista de ameaças emergentes na América Latina. Entre os novos perigos que espreitam a região, Hill aponta para elementos como o “populismo radical” e os gangues de rua – coisas que, na verdade, estariam fora do alcance normal do exército. O general sugere ainda que caberia aos militares – e não à polícia ou outras instituições de carácter civil – cuidar desses factores.

«Isso traz o risco de um aparelhamento político das forças armadas», afirma o director do CIP, Adam Isacson. «É bastante comum, na América Latina, que, quando responsável pela definição de inimigos internos, o exército inclua na lista oponentes políticos do regime no poder – algumas vezes, isso é estendido até mesmo àqueles que estão dentro do sistema».

O relatório caracteriza a ideia feita por Hill do que seria “populismo radical” como “particularmente perturbadora”. É só lembrar do papel tido pelos exércitos latino­‑americanos na repressão de grupos populares de esquerda em nome da “segurança nacional” – doutrina promovida pelos EUA paralelamente ao auxílio dado aos exércitos da região na década de 60.

Outro problema identificado pelo relatório é o uso que o Southcom faz da chamada “guerra ao terrorismo” para uma lidar com uma grande variedade de problemas. «Terroristas na área de responsabilidade da Southern Command bombardeiam, matam, sequestram, traficam drogas, armas e pessoas, lavam dinheiro», disse Hill em sua declaração.

«Embora esse tipo de descrição possa ser uma boa descrição da Colômbia e de suas regiões de fronteira, não é aplicável ao resto da América Latina», contesta o relatório, que, a isto, soma a falha na distinção entre guerrilhas e grupos paramilitares colombianos e grupos terroristas internacionais, como a Al Qaeda, que ameaçam directamente os EUA.

Segundo o relatório, muito pouco do aumento no treino militar e na ajuda à região feita desde 2001 tem sido direccionado à ameaça representada por grupos como a Al Qaeda - ainda que esta justificação seja a mais efectiva para que o Pentágono consiga a aprovação de aumentos no seu orçamentários.

«Apenas uma pequena parte da ajuda vai para programas anti-terror de segurança de portos, aeroportos e fronteiras», garante Lisa Haugaard, diretora da LAWG. «O que estamos a ver são os mesmos velhos programas de guerra às drogas e às guerrilhas, reembalados como parte da guerra ao terror».

Dos 22.855 latino-americanos treinados pelo exército dos EUA em 2003 – 50% mais do que em 2002 – 5.506 tiveram aulas de infantaria tradicionais, como operações em terrenos difíceis, táctica de unidades pequenas e tiro.

Outros 1.650 polícias bolivianos tiveram cursos para lidar com acções civis, enquanto 1.234 soldados de vários países tiveram aulas de operações de contra-insurgência em regiões selvagens, segundo o documento.

Muita da ajuda anti-terrorista – apenas uma fracção do total – foi usada em programas anti-sequestros na Colômbia e em segurança de fronteira no México. A Colômbia é de longe o país da região que mais treino e ajuda militar recebeu. Perto de 13 mil soldados colombianos foram treinados pelos EUA em 2003 – o que corresponde a quase 4 mil a mais do que no Iraque, e a 8 mil a mais do que no Afeganistão.

Além disso, o governo dos EUA tem pressionado o Congresso para aumentar o limite de 400 soldados operando na Colômbia a fim de intensificar os treinos e outras operações no país.

O Pentágono tem feito também maior uso de programas próprios para o patrocínio de treinos, substituindo iniciativas como a de Educação e Treino Militar Internacional (IMET, na sigla em inglês), controlada pelo Departamento de Estado.

Outras preocupações manifestadas no documento são: o forte aumento no número de soldados na Bolívia - mais de 2 mil - em 2003, ano caracterizado por revoltas políticas e abusos cometidos pela polícia e pelo exército boliviano; os esforços de Washington para que a América Latina e o Caribe assinem acordos bilateriais dando imunidade às forças norte-americanas na Corte Penal Internacional para actos cometidos nos países da região; e o apoio de Washington para a criação de uma força naval multinacional.

O documento diz que «o mais flagrante exemplo de que o treino militar dos EUA não distingue a linha que separa os papéis civis e militares foi o treino de tácticas de infantaria dado a cerca de 2 mil membros da Polícia Nacional da Colômbia e a 100 da Polícia panamenha. O treino, que é claramente de natureza militar, foi conduzido por forças especiais dos EUA, e não pela polícia militar, afirma o estudo.