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08/12/2005 Uma arma dos ricos contra
os pobres João Pedro Stédile * Governos
de todo o mundo voltarão a reunir-se convocados pela Organização Mundial do
Comércio (OMC), em Hong-Kong, para tentar firmar e consolidar acordos
comerciais. Mas, afinal, o que significa a OMC? Esta
organização transformou-se apenas na busca de um guarda-chuva institucional e
jurídico para defender os interesses de quem domina o comércio mundial. Na
OMC, quem dá as cartas é um grupo de países ricos, o G‑7, que está
aliado aos demais países da comunidade económica europeia. A reunião de Honk
Kong não vai discutir a diminuição da pobreza, da fome, do desemprego ou da
desigualdade social. A pauta da OMC é outra: como aumentar o volume de
mercado a ser dominado pelas empresas transnacionais, formas de quebrar as
barreiras dos países pobres, como manter o controle da produção e comércio de
produtos alimentícios, ou seja, como garantir as altas taxas de lucros das
empresas transnacionais. Perdem sempre os pobres, os trabalhadores e os
camponeses dos países periféricos. Não
se trata de discurso panfletário, infelizmente é a pura realidade. Por ora,
há duas forças que se vão confrontar em Hong Kong: de um lado, os países
ricos que conseguiram cooptar os governos do Brasil e da Índia para as suas
propostas; e de outro lado, todos os países periféricos, ou demais países
pobres do Hemisfério Sul, maioria em votos e população. IMPASSE
NO CAMPO Os
países ricos propõem que se diminua qualquer barreira dos países pobres para
proteger os mercados locais de produtos agrícolas, que, em geral, são
abastecidos pela economia camponesa local. A contrapartida dos países ricos é
reduzir paulatinamente os subsídios dados aos seus produtores agrícolas. Esse
acordo gera uma ilusão nas burguesias agrárias de países exportadores de
matérias-primas, como o Brasil, de que poderiam ampliar as suas vendas para a
Europa e os Estados Unidos. Na verdade, mesmo que os governos desses países
reduzam os subsídios, não significa que o mercado de alimentos ou de
matérias-primas agrícolas esteja em expansão na Europa. Se
esse acordo se consolidasse, certamente levaria à falência milhões de
camponeses que hoje produzem em condições adversas, mas que abastecem os
mercados locais, gerando emprego e distribuição de renda. E se os governos
liberassem a entrada de produtos agrícolas importados sem nenhum controle, é
certo que as grandes empresas transnacionais poderiam manipular preços, o que
deixaria as economias pobres totalmente dependentes das importações, perdendo
a soberania alimentar – o direito de produzir os seus alimentos. Um
caso dramático, por exemplo, é o enfrentado pelos agricultores da Coreia do
Sul e do Japão que recebem protecção dos governos locais para produzir arroz.
Se a vontade dos países ricos prevalecer na OMC, milhões de produtores da
Ásia irão à falência. TEATRO
DA OPRESSÃO A
Via Campesina Internacional acredita que a OMC é uma grande manipulação. Há
um palco montado e o que se verá em Hong Kong passa ao largo de um debate de
facto. A OMC não tem legitimidade ou poder de decisão sobre o comércio
agrícola internacional e muito menos sobre o abastecimento dos mercados
alimentícios locais. A Via Campesina defende a soberania alimentar e a
valorização das economias camponesas para que os trabalhadores rurais possam
continuar a produzir alimentos para a sua população, sem que sofram dumping
de produtos subsidiados nos países ricos. Defendemos
a descentralização do comércio (e da produção), a democratização da
propriedade da terra, a reforma agrária e, por meio dela, a fixação dos
camponeses nas suas comunidades. Exigimos
o imediato cancelamento dos perversos acordos da rodada de Doha. Esperamos
que a maioria dos governos dos países pobres se posicione contra todas as
hipocrisias, impedindo os avanços pretendidos em Hong Kong e fazendo com que
a reunião seja um fracasso. Se alguns países tiverem coragem, isso
provavelmente acontecerá. De
parte da Via Campesina, milhares de militantes campesinos de todo o mundo
irão levantar a voz em Hong Kong. Não ficaremos de braços cruzados assistindo
aos governos tomarem decisões contra nós. Os nossos povos têm direito de
produzir os seus próprios alimentos, sem ficar dependendo de acordos de
importação. Isto está fundamentado em muitas doutrinas económicas,
filosóficas e religiosas da História. É direito universal de todos os povos. ______ *
João Pedro Stedile é coordenador do MST e da Via Campesina Brasil. |