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19/01/2006 A traição brasileira na retomada da OMC – Entrevista a Walden Bello * – João Alexandre Peschanski De líder dos países subdesenvolvidos e pobres a representante do status
quo. Essa foi a trajectória da actuação da diplomacia brasileira que se
consolidou na 6ª Reunião Ministerial da Organização Mundial do Comércio
(OMC), em Hong Kong, entre 13 e 18 de Dezembro de 2005. «O ministro Celso
Amorim [Relações Exteriores] operacionalizou, juntamente com o ministro do
Comércio e da Indústria da Índia, Kamal Nath, a sobrevida da OMC», analisa o
sociólogo filipino Walden Bello, da ONG Focus on the Global South. Na
avaliação do pesquisador, os governos do Brasil e da Índia usaram a sua
reputação para convencer nações subdesenvolvidas a aceitarem um acordo na
organização. Bello avalia que os movimentos sociais e as ONGs brasileiras devem
reforçar a luta contra a OMC para «impedir que o Brasil se alinhe com os interesses
das grandes potências». O pesquisador participou dos protestos realizados
durante o encontro da OMC em Hong Kong e presenciou a acção arbitrária da
polícia chinesa que deteve centenas de activistas – 14 deles ainda estão presos
em Hong Kong [1]. Qual foi o desfecho do encontro da OMC, em Hong
Kong? Houve concessões substanciais dos países subdesenvolvidos, nas
negociações. Tanto no que diz respeito aos serviços quanto ao Acesso aos
Mercados para os Produtos Não-Agrícolas [da sigla em inglês, NAMA] e à
agricultura. Os países desenvolvidos saíram beneficiados das negociações. Que concessões foram feitas? O objectivo das grandes potências foi criar mecanismos para manter a
OMC viva. Estruturou‑se o terreno institucional para negociações
futuras. Um terceiro colapso, após os das reuniões em Seattle, em 1999, e
Cancún, em 2003, seria o fim da OMC. Em Hong Kong, os resultados não foram
modestos, as análises brasileiras têm dito, por exemplo. O principal acordo,
que prejudica os países subdesenvolvidos, é a OMC continuar viva e disposta a
seguir a agenda da Rodada de Doha. Por que os países subdesenvolvidos fizeram concessões que vão contra
os seus interesses? Os países desenvolvidos não se mostraram dispostos a fazer
concessões, especialmente em relação à agricultura. Os Estados Unidos e a
União Europeia não pretendem acabar com os seus subsídios agrícolas – e isso
poderia ter emperrado o encontro de Hong Kong. A tarefa de ressuscitar a OMC
ficou para os países subdesenvolvidos. E isso só era possível se esses países
expusessem a sua vontade de negociar acordos comerciais. Os Estados Unidos e
a União Europeia pressionaram para que os países subdesenvolvidos adoptassem
essa linha de acção. Concessões foram feitas, principalmente para a expansão
da privatização de serviços e a estipulação de regras mais definidas para o
NAMA. Os grupos dos países subdesenvolvidos, como o G-20, não agiram para
barrar as negociações? Pelo contrário. As duas principais lideranças do G-20, Brasil e
Índia, pressionaram os países subdesenvolvidos para aceitar os termos das
negociações. Usaram a sua influência para convencer os outros países. O
ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, teve um papel decisivo para
garantir o desfecho do encontro. O nome dele está na maioria das listas de
presença das principais reuniões e dos documentos fundamentais divulgados em
Hong Kong. Ele operacionalizou, juntamente com o ministro do Comércio e da
Indústria da Índia, Kamal Nath, a sobrevida da OMC. O Brasil e a Índia
chegaram a Hong Kong preparados para fazer um acordo, e conseguiram
pressionar os países subdesenvolvidos para o seu lado. É ainda preciso
analisar o que os dois países ganharam com essa estratégia. Não houve ganhos
substanciais, a não ser o reconhecimento – por parte das grandes potências –
de que ambos se tornaram decisivos no jogo de poder dentro da OMC. Os líderes políticos brasileiros e indianos ganharam pontos. E o que
ganhou a população desses países? Ganhou pouco. Pode-se até questionar se, de facto, ganhou algo. No caso
do Brasil, o agronegócio beneficiou, mas não se pode dizer que isso seja bom
para a população brasileira. No entanto, em relação ao NAMA e às negociações
sobre os serviços, o impacto para o Brasil é muito ruim. Fazendo um balanço,
o Brasil sai pior do que entrou na OMC. Ganhou força na estrutura de poder,
participando de um grupo que pretende determinar a agenda de negociações da
OMC: o Novo Quadrado. Integram o grupo, além do Brasil, Índia, Estados Unidos
e União Europeia. Como Amorim e Nath conseguiram convencer os países subdesenvolvidos
a aceitar negociações que os prejudicaram? Convenceram os países menos desenvolvidos a aceitar uma série de
acordos comerciais. Chamaram‑na pacote de desenvolvimento, dizendo que
estimularia o crescimento económico. No entanto, é um mecanismo para aumentar
o endividamento dos países pobres, ou seja, aumentar a sua dependência em
relação aos países ricos. Brasil e Índia fizeram uso do seu prestígio para
pressionar os países subdesenvolvidos a aceitarem os termos das negociações e
silenciarem os descontentes, como Indonésia, África do Sul e Venezuela. Soa como se os governos brasileiro e indiano tivessem traído os
países pobres, que contavam com eles. Isso é muito claro. Brasil e Índia neutralizaram grupos
de insatisfeitos com os rumos das negociações, como o chamado NAMA 11 que exigia, em contrapartida de uma
expansão da liberalização da indústria e da pesca, concessões em agricultura
por parte dos países desenvolvidos. Em relação aos serviços, a África do Sul
e a Indonésia, que estavam relutantes em negociar, foram pressionados para
aceitar acordos. O Brasil e a Índia traíram os interesses do G-20. Também
isolaram Cuba e Venezuela de tal modo que a posição desses países – contrária às concessões desequilibradas – não surtissem impactos. Quais os próximos passos das negociações realizadas em Hong Kong? Em 2006, querem consolidar o aparato institucional para permitir o
avanço das negociações da Rodada de Doha. Vai haver pressão para que os
países em desenvolvimento façam mais concessões. Vai haver realinhamentos na
estrutura de poder da OMC, e até da política internacional, com o que houve
em Hong Kong. Agora que o Brasil e a Índia decidiram participar do status
quo, outros países vão tomar a liderança dos grupos de países
subdesenvolvidos. Qual o papel do Novo Quadrado, nessa conjuntura? Vão determinar a agenda de negociações e pressionar
para que seja aceita. Vão expor os limites da política comercial
internacional. A nova estrutura de poder dentro da OMC e da política global muda a
estratégia dos movimentos sociais? Mostra aos movimentos sociais, especialmente na Índia e no Brasil,
que têm de aperfeiçoar os seus métodos de oposição à OMC. Têm que avaliar a
linha de acção dos seus políticos na organização. Os movimentos sociais
brasileiros têm dado grande atenção à luta contra a Área de Livre Comércio
das Américas (ALCA), mas não têm dado grande importância às negociações na
OMC. O resultado, em parte, é a linha adoptada por Amorim em Hong Kong. O
governo brasileiro teria agido de modo diferente, mais defensivo, se estivesse
a ser pressionado por movimentos sociais e ONGs. Mais do que nunca a
sociedade brasileira precisa se preparar para resistir às negociações na OMC,
pois é a única capaz de impedir que o Brasil se alinhe com os interesses das
grandes potências. _____ * Professor de sociologia e administração pública na Universidade
das Filipinas, Walden Bello é director da ONG Focus on the Global South, que
pesquisa os impactos da globalização nos países subdesenvolvidos. É autor de
diversos livros, como Desglobalização (Editora Vozes, 2003). [1] Detidos
em Hong Kong começam greve de fome: Doze
dos 14 detidos dia 17 de Dezembro do ano passado, em manifestações contra a
Organização Mundial do Comércio (OMC), em Hong Kong (China), iniciaram, dia
5, uma greve de fome. Os presos políticos querem chamar a atenção da opinião
pública para a injustiça do acto autoritário do governo chinês e reforçar as
razões que os levaram a protestar contra as políticas neoliberais adoptadas
pela OMC, à revelia dos interesses dos trabalhadores, principais afectados
pelas decisões da organização. Um
comunicado dos presos – entre os quais estão provenientes da China Continental,
da Coreia do Sul, de Taiwan e do Japão – pede que as pessoas participem de acções
de respaldo à greve, que não tem data para terminar. Uma dessas acções é o
envio maciço de cartas pedindo a imediata libertação dos activistas
(endereçar para Mr. Donald Tsang, Chief Executive Special Administrative Region
of Hong Kong, pelo fax 852‑2509-0577, ou pelo correio electrónico ceo@ceo.gov.hk, com cópia para o Comité
Internacional pela Libertação dos Presos, nos endereços electrônicos antiwto2005@naver.com e hkpa.documentation@gmail.com. Durante
as mobilizações de Dezembro, na reunião do OMC ocorrida em Hong Kong, foram
presas, inicialmente, 1.300 pessoas de vários países, que questionavam as
negociações comerciais prejudiciais aos camponeses, aos trabalhadores urbanos
e aos recursos naturais de todo o mundo. Foram manifestações similares às
realizadas em conferências ministeriais anteriores, ocorridas em Seattle (Estados
Unidos), Doha (Catar) e Cancún (México). A
polícia chinesa, porém, reprimiu os manifestantes com o uso excessivo de
força, empregando gases e bastões de choque eléctrico, entre outros
instrumentos. Houve numerosas violações aos direitos humanos dos detidos,
documentadas por organizações de direitos humanos internacionais. As organizações sociais que organizam uma campanha mundial pela libertação dos presos – a Via Campesina, a Confederação Coreana de Sindicatos, a Liga Camponesa de Sindicatos, entre outras – consideram que eles são, na realidade, «os primeiros presos políticos globalizados» pois não estão encarcerados por se oporem a um governo nacional, mas «por se terem manifestado contra a instituição antidemocrática da OMC». |