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29/01/2005 Manifesto de Porto Alegre Desde o primeiro Fórum Social Mundial, realizado em Porto Alegre
(RS), em Janeiro de 2001, o fenómeno dos fóruns sociais estendeu‑se a
todos os continentes, inclusive aos níveis nacional e local. O Fórum
favoreceu a emergência de um espaço público planetário da cidadania e de suas
lutas, assim como a elaboração de propostas de políticas alternativas à
tirania da globalização neoliberal impulsionada pelos mercados financeiros e
as transnacionais, cujo braço armado é o poder imperial dos Estados Unidos. Pela sua diversidade, assim como pela solidariedade entre os actores
e os movimentos sociais que o compõem, o movimento altermundista transformou‑se
numa força que já é levada muito em conta em todo o planeta. Entre as
inumeráveis propostas que têm saído dos fóruns, um grande número delas conta
sem dúvida com um amplo apoio junto dos movimentos sociais. Nós, signatários
do Manifesto de Porto Alegre, que nos exprimimos a título estritamente
pessoal, sem pretender, de modo algum, falar em nome do Fórum, identificamos
doze destas propostas que, em conjunto, dão sentido à construção de outro
mundo possível. Se fossem aplicadas, permitiriam que a cidadania começasse
por fim a reapropriar-se do seu futuro. Submetemos estes pontos fundamentais à apreciação dos actores e
movimentos sociais de todos os países. São eles que, em todos os níveis – mundial,
continental, nacional e local – poderão levar adiante os combates necessários
para que se transformem em realidade. Nós não temos nenhuma ilusão sobre a
real vontade dos governos e das instituições internacionais em aplicar
espontaneamente estas propostas. A) Outro Mundo Possível deve respeitar o direito à vida de todos os
seres humanos, mediante novas regras económicas. Para tanto, é necessário: 1) Anular a dívida pública dos países do Sul, que já foi paga várias
vezes e que constitui, para os Estados credores, os estabelecimentos
financeiros e as instituições financeiras internacionais a melhor maneira de
submeter a maior parte da humanidade à sua tutela e mantê-la na miséria; 2) Aplicar taxas internacionais às transações financeiras
(especialmente a Taxa Tobin às transações especulativas de divisas), aos
investimentos directos no estrangeiro, aos lucros consolidados das
transnacionais, à venda de armas e às actividades que emitem de forma
substantiva gases que produzem o efeito estufa; 3) Desmantelar progressivamente todas as formas de paraísos fiscais,
jurídicos e bancários, que nada mais são do que refúgios do crime organizado,
da corrupção e de todos os tipos de tráficos, fraudes e evasões fiscais,
operações delituosas de grandes empresas e, inclusive, de governos; 4) Cada habitante do planeta deve ter direito a um emprego, à protecção
social e à aposentadoria, respeitando a igualdade entre homens e mulheres,
sendo este um imperativo de políticas públicas nacionais e internacionais; 5) Promover todas as formas de comércio justo, rechaçando as regras
de livre comércio da Organização Mundial do Comércio (OMC) e colocando em
execução mecanismos que permitam, nos processos de produção de bens e
serviços, dirigir-se progressivamente a um nivelamento por alto das normas
sociais (tal como estão consignadas nas convenções da Organização
Internacional do Trabalho – OIT) e ambientais. Excluir totalmente a educação,
a saúde, os serviços sociais e a cultura do terreno de aplicação do Acordo
Geral Sobre o Comércio e os Serviços (AGCS) da OMC. A convenção sobre a
diversidade cultural, que actualmente está a ser negociada na Organização das
Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), deve fazer
prevalecer explicitamente o direito à cultura sobre o direito ao comércio; 6) Garantir o direito à soberania e segurança alimentar de cada
país, mediante a promoção da agricultura campesina. Isso pressupõe a
eliminação total dos subsídios à exportação dos produtos agrícolas, em
primeiro lugar por parte dos Estados Unidos e da União Europeia. Da mesma
maneira, cada país ou conjunto de países deve poder decidir soberanamente
sobre a proibição da produção e importação de organismos geneticamente
modificados (OGM) destinados à alimentação; 7) Proibir todo o tipo de patenteamento do conhecimento e dos seres
vivos (tanto humanos como animais e vegetais), do mesmo modo que toda a
privatização de bens comuns da humanidade, em particular a água; B) Outro Mundo Possível deve encorajar a vida em comum em paz e com
justiça, para toda a humanidade. Para tanto, é necessário: 8) Lutar, em primeiro lugar, por diferentes políticas públicas
contra todas as formas de discriminação (sexismo, xenofobia, anti‑semitismo
e racismo). Reconhecer plenamente os direitos políticos, culturais e
ambientais (incluindo o domínio de recursos naturais) dos povos indígenas; 9) Tomar medidas urgentes para colocar um fim à destruição do meio
ambiente e à ameaça de mudanças climáticas graves devido ao efeito estufa
resultante, em primeiro lugar, da proliferação do transporte individual e do
uso excessivo de energias não‑renováveis. Começar a implementar outro
modelo de desenvolvimento fundado na sobriedade energética e no controle
democrático dos recursos naturais, em particular a água potável, em uma
escala planetária; 10) Exigir o desmantelamento das bases militares estrangeiras e de
suas tropas em todos os países, salvo quando estejam sob mandato expresso da
Organização das Nações Unidas (ONU); C) Outro Mundo Possível deve promover a democracia desde o plano
local até ao global. Para tanto, é necessário: 11) Garantir o direito à informação e o direito de informar dos
cidadãos mediante legislações que: a) ponham fim à concentração de meios em
grupos de comunicação gigantes; b) garantam a autonomia dos jornalistas diante
dos accionistas e c) favoreçam a imprensa sem fins lucrativos, em particular
a dos meios alternativos e comunitários. O respeito destes direitos implica
contra‑poderes cidadãos, em particular na forma de observatórios
nacionais e internacionais de meios de comunicação; 12) Reformar e democratizar em profundidade as organizações
internacionais, entre elas a ONU, fazendo prevalecer nelas os direitos
humanos, económicos, sociais e culturais, em concordância com a Declaração
Universal dos Direitos Humanos. Isso implica a incorporação do Banco Mundial,
do Fundo Monetário Internacional (FMI) e da OMC ao sistema das Nações Unidas.
Caso persistam as violações do direito internacional por parte dos Estados
Unidos, transferir a sede da ONU de Nova Iorque para outro país,
preferencialmente do Sul. Porto Alegre (RS), 29 de Janeiro de 2005. Adolfo Pérez Esquivel, Aminata Traoré, Armand Matellar, Atilio Boron, Bernard Cassen, Boaventura de Sousa Santos, Eduardo Galeano, Emir Sader, François Houtart, Frei Betto, Ignacio Ramonet, Immanuel Wallerstein, José Saramago, Ricardo Petrella, Roberto Sávio, Samir Amin, Samuel Luis Garcia, Tariq Ali e Walden Bello |