Informação Alternativa

Mundo

17/03/2005

 

O direito e o poder

 

Sergio Ferrari

Planeta Porto Alegre

 

Se existe um desafio essencial do ser humano na actual etapa histórica, é salvar a “casa comum”, ou seja, a Terra. Isso significa, implicitamente, libertar o homem de um sistema que «paradoxalmente, e isto é novo, criou todos os mecanismos para a sua autodestruição». Assim o define com a simplicidade de pedagogo e a clareza de um militante, o teólogo brasileiro Leonardo Boff, nesta entrevista exclusiva, onde o presente e o futuro do altermundismo não ficam de fora.

 

Cada vez mais o planeta se vê confrontado com uma polarização crescente, quase sem retorno...

 

Dá a impressão que as forças dominantes nos levam a um caos sistémico. O grave é que o sistema desenvolveu o princípio da autodestruição. Isso não existia na humanidade.

 

O que dizer sobre as guerras... ou é algo mais amplo?

 

Há os que, sob a hegemonia da potência militarista dominante, querem desenvolver uma guerra infinita e para isto montaram uma máquina da morte. Mas são covardes, porque o fazem contra os fracos como o Iraque ou o Afeganistão. Não podem fazer contra a China ou a Rússia porque isso sim seria o fim próximo da humanidade. A continuar o terror económico, que é a exploração mundial dos recursos da terra – dos países periféricos que são a maioria – vamos irremediavelmente para uma grande crise do sistema. Este não consegue hoje a sua hegemonia por meio da persuasão e dos argumentos. E, por isso, tem que usar a violência, militar, política, religiosa, ideológica, dos meios de comunicação, do cinema, da cultura, impondo a sua visão. Confrontamo­‑nos com uma espécie de “hamburguerização” da cultura mundial, promovida pelos Estados Unidos e pelo Ocidente. Espero que não sigamos o destino dos dinossauros, ou seja, que a espécie humana seja eliminada.

 

As forças de baixo

 

Apesar desse panorama preocupante, há esforços diferentes, de amplos sectores da humanidade que buscam alternativas...

 

Claro, por sorte! As forças que vêem de baixo, que encontram ressonância, por exemplo, no Fórum Social Mundial de Porto Alegre. É a sociedade civil mundial com os seus movimentos e organizações, sectores importantes de partidos, igrejas, ONGs, que pensam em outro mundo. Que afirmam que não estamos condenados a essa monocultura de dominação imposta pelo sistema vigente.

 

Como interpretar tudo isto?

 

Como um processo. É muito provável que nasça outro tipo de consciência, primeiro, e que se fortaleça com práticas e redes de articulação dos que sonham e apostem em utopias até propor alternativas. E este é o sentido desta grande onda em movimento. Nós não temos a hegemonia. Mas o sistema dominante também não a tem. Há uma crise de hegemonia. Isso faz com que este momento histórico seja de crise, mas não de tragédia. Depende de nós convertê-lo num salto qualitativo. Se não conseguirmos, então aí sim será uma tragédia muito perigosa. Retomo algo do pensamento de Hegel na sua filosofia da história. O ser humano que não aprende nada da história, aprende tudo do sofrimento. Todos estamos a sofrer muito e oxalá que não seja em vão. Que seja a dor do parto de uma nova forma de vida social planetária.

 

A ideia de “outro mundo é possível” identifica há cinco anos o Fórum Social Mundial. Num espaço altermundista por excelência, quais são as dinâmicas ou iniciativas a serem melhoradas?

 

Na minha visão, o tempo de sonhar e de difundir está a percorrer o seu caminho. Nestes anos temos acumulado visões, fortalecido redes. E agora penso que temos que começar a dar passos concretos. Seria importante chegarmos a dois ou três pontos de convergência mundial, e passarmos a pressionar, actuar e viver uma alternativa. Senão corremos o risco de que os fóruns se tornem espaços muito interessantes, muito alegres, mas patinaremos. O risco de nos contentarmos com isto é muito bonito, mas insuficiente. Pode acontecer­‑nos como no Vaticano, quando o Papa vê a praça de São Pedro totalmente cheia e pensa que todos são católicos. Quando na realidade uma grande parte são turistas que chegam com programas de agências de viagem para ver o Papa, não por fé, e sim por turismo. Não se deve cair em ilusões.

 

Consensos mínimos, lutas contundentes

 

Em que e como “ser mais concretos”?

 

Penso em dois pontos onde se pode chegar a consensos. O primeiro, a água. É um dos aspectos chaves da humanidade. Só 3% de toda a água é potável e dessa porcentagem só 0,7% é acessível ao consumo humano. E desse mínimo, uns 80% vão para a agroindústria e sobram escassos 20% destinados à conservação da vida, das plantas, dos animais. Caminhamos para uma grande crise da água que vai ser pior do que a dos alimentos. Porque sem água uma pessoa desidrata­‑se em cinco dias e morre. É preciso promover um pacto social mundial pela água, tem que ser promovido porque não existe, e lutar de forma muita articulada contra a privatização. Há uma corrida frenética das transnacionais pela privatização, porque sabem que quem controla a água controla a vida e quem controla a vida tem o poder. Temos que impedir que a água entre no mercado com um produto mais. Devemos enfrentar o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional, que pedem a privatização desse elemento vital como condição para libertar créditos aos países mais fracos. Temos que imitar os indígenas bolivianos que puseram a correr as transnacionais francesas.

 

E o segundo ponto?

 

Uma enorme aliança contra a guerra. Atenção, contra a guerra, não pela paz. À sua maneira Bush e Pinochet também querem um tipo de paz. Temos que nos pronunciar contra a violência da guerra como instrumento de “solução” de conflitos e de “ordem”. Impor o diálogo diplomático em todos os níveis; promovê-lo na família, nas comunidades e entre Estados. Evitar a violência que é um dos piores produtos do patriarcado. E, então, promover o diálogo incansável, o intercâmbio, tudo o que favoreça a cooperação e a solidariedade, contra a competição que é a lógica do sistema. Esses são dois pontos onde todos poderíamos estar a favor. E então é preciso militar. Fazer grandes manifestações. Pressionar os Estados, as empresas, os quartéis. Denunciar todo o tipo de militarismo. Opor-se aos militares onde aparecerem. Criar uma nova consciência prática de uma humanidade que ensaia já, concretamente, passos em direcção a um paradigma novo de civilização.

 

Teologia da Libertação e pensamento altermundista

 

Na última semana de janeiro, dois dias antes de começar a quinta edição do FSM, aconteceu em Porto Alegre um Fórum Mundial de teólogos da libertação. O que ele trouxe de novo?

 

Este encontro mostrou a firmeza e ritmo da Teologia da Libertação. É preciso sublinhar isso, porque nem todos sabem, que ela continua a existir, está muito viva e é mundial. Não são muitas as teologias, hoje, com presença em todos os continentes, tanto no Sul como no Norte. Comprovamos, em Porto Alegre, que ela tem conhecido um desenvolvimento interno, pois tudo o que está vivo activa um diálogo permanente com a realidade. Ela não trabalha com certezas, senão, com jurisprudências pastorais, como se diz no dialecto teológico.

 

Ao mencionar esse desenvolvimento interno e essas mudanças, refere­‑se às diferentes etapas ou momentos da história da Teologia da Libertação?

 

Em mais de 30 anos passamos por três etapas. A primeira geração, a de Gustavo Gutierrez, Juan Luis Segundo, Ronaldo Muñoz e minha esteve muito focalizada no pobre económico. Incorporamos uma leitura crítica da realidade com elementos do marxismo, por exemplo, que nos ajudaram a compreender a estrutura e funcionamento das classes. Isso se deu, no fundo, para compreender que o pobre não é um pobre, mas um empobrecido. A sua pobreza é resultado de mecanismos económicos.

 

A segunda geração está a descobrir os diferentes rostos da pobreza: o indígena, com o grande peso cultural sobre as suas costas; o negro com o pano de fundo de séculos de escravidão; as mulheres que sofrem uma cultura patriarcal há mais 20 mil anos atrás.

 

A partir dos anos 90, com o crescente alarme ecológico planetário, muitos desenvolveram uma eco­‑teologia da libertação. Eu, particularmente, empenhei­‑me muito nisso e publiquei o livro programático Ecologia: grito da terra, grito dos pobres, traduzido em vários idiomas. Nele, apresenta-se uma teologia que ajuda a superar a agressão e opressão contra o ecossistema. Não se trata de uma nova dimensão, mas especialmente, um novo olhar sobre a totalidade, da terra até à humanidade. Ver como a teologia pode colaborar junto com outras forças para que a humanidade seja mais livre. Porque temos somente essa casa. Não se pode mandar os pobres viverem na Lua ou em Marte. Temos que resolver os problemas que são nossos.

 

Então, de certa forma, o fórum de teólogos, permitiu encontrar essas diferentes expressões?

 

Sim. Existem grupos que lutam contra a pobreza, outros são mais culturais e também em diversos seguimentos. Isso mostra a vitalidade da Teologia da Libertação. Outro ponto a ressaltar, a terceira geração é muito menos teórica que as anteriores, mas talvez está mais inserida na pastoral. Diria que fazem a teologia da pequena libertação, quotidiana, das comunidades.

 

Vendo os valores da teologia da libertação, não seria o momento de imaginar uma nova “Teologia do Altermundialismo”?

 

Desde o princípio a nossa aposta foi a de que uma nova sociedade é possível. E que se trata de libertarmos esta sociedade capitalista, neoliberal, que vem explorando, nas suas diversas variantes, há muitos séculos. Buscando uma sociedade mais integrada e mais humana, como alguns já formularam no socialismo. Nós, no Brasil, inserimo­‑nos mais num contexto de democracia participativa, mais radical, não somente representativa. Esses parâmetros sempre estiveram presentes.

 

Nós resolvemos em janeiro, em Porto Alegre, que os nossos encontros seguirão o Fórum Social Mundial. Queremos pensar juntos com os demais sobre o futuro da humanidade e também aportar elementos sobre as nossas tradições espirituais, éticas, que podem completar a visão mais global. Não temos nenhuma arrogância nem pretensão de hegemonia.

 

Isso quer dizer uma teologia modesta, de serviço, de acompanhamento?

 

Sim. Pode-se dizer que nós, os cristãos em geral, temos o discurso de libertação muito articulado, mas a prática da libertação é de outros. Só que nós queremos fazer juntos. Temos que ser humildes, cooperativos e não nos distanciarmos de um movimento global, que finalmente e essencialmente sirva ao povo. O povo é humilde, não é arrogante e nem possui uma visão imperialista do mundo. Queremos que se criem condições mínimas para que cada um possa comer duas vezes ao dia, ter a sua casa, mandar os seus filhos para a escola, poder atender as suas necessidades de saúde. A pequena utopia da dignidade mínima dos seres humanos, que devemos manter sempre próxima de nós.