Informação Alternativa

Mundo

16/12/2004

 

Os caminhos da sobrevivência da humanidade

 

Theotônio dos Santos *

ALAI; retirado de Planeta Porto Alegre

No dia 10 de Dezembro de 2004, em Caracas, intelectuais e artistas de todo o mundo reuniram­‑se em defesa da humanidade. Discutiram temas da segurança internacional sob o impacto da pretensão de domínio unilateral do mundo, e sua relação com as estruturas económicas que presidem às relações entre as classes e grupos sociais, as nações e os Estados. Fizeram-no porque a humanidade precisa, antes que seja instaurado o abismo da confrontação global, encontrar o caminho do diálogo e da cooperação.

O Encontro de Intelectuais e Artistas em defesa da Humanidade reuniu jornalistas, poetas, activistas dos movimentos sociais, artistas, políticos, cientistas sociais, profissionais, e literatos de mais de cinquenta países, especialmente latino­‑americanos. O Prémio Nobel argentino, Pérez Esquivel, foi o encarregado de ler o documento final resultante deste encontro cheio de debates de ideias e de estratégias de acção que possam gerar uma cultura de paz alternativa ao império da violência que se instaurou nas relações internacionais. Violência que é, sobretudo, resultado da recusa, pelos EUA, de submeter­‑se às leis internacionais e aos organismos encarregados de encaminhar um relacionamento pacífico entre os povos, especialmente a ONU.

DIÁLOGO E CONVIVÊNCIA

O que mais aterroriza nesta conjuntura é a percepção do abismo que se aprofunda entre os ideais e métodos impostos pela nação mais poderosa da Terra ao “resto do mundo”. Por mais que o resto do mundo veja nas acções de violência impostas contra populações inteiras, obrigadas pelas armas mais poderosas, pela tortura, e pelas mais brutais humilhações a converter­‑se em “democracias”, a maioria dos eleitores da potência hegemónica apoia estes métodos, dando plena liberdade de acção àqueles que ameaçam a humanidade. É importante, porém, constatar a existência, dentro dos Estados Unidos, de uma forte oposição a estes métodos, como demonstrado pela expressiva participação de intelectuais e artistas do país no encontro.

O sentimento de impotência que nasce desta situação ameaça a humanidade a regredir a formas de relações sociais e humanas próximas da barbárie. Se anos e anos de desenvolvimento civilizatório forem jogados pela janela, quem guardará os princípios e métodos de diálogo e convivência humana que tanto se buscou aperfeiçoar, apesar dos obstáculos colocados pelas ambições das potências mundiais?

Perante esta situação, é necessário repensar o conjunto dos elementos que formam o sistema mundial e as formas de acção que permitem agir sobre ele. É bastante claro o papel crescente da sociedade civil e, sobretudo, dos sectores de vanguarda dos movimentos sociais contemporâneos na geração de novos instrumentos de acção que detenham tais processos macro-sociais.

UMA REDE DE REDES

Não há dúvida que os meios de comunicação ocupam um lugar privilegiado nestas acções. Cabe a eles gerar uma corrente de informações e análises capazes de neutralizar o império da violência nas relações internacionais. No entanto, o sentimento dominante é muito crítico em relação às mídias contemporâneas, pelo menos nas suas formas dominantes.

São muitas as esperanças depositadas nas iniciativas e formas de comunicação alternativas como a internet, as TVs comunitárias, os jornais ligados a movimentos sociais, as formas culturais como os teatros de rua, os festivais de poesia, os espectáculos de massa, etc.

Uma das resoluções do encontro de mais efeito prático é a criação de uma rede de redes que terá uma coordenação a partir dos organizadores desta iniciativa. Da mesma forma, a proposta de uma rede de televisão do Sul, impulsionada pelo presidente da Venezuela, Hugo Chaves, recebeu aplauso entusiasmado.

Iniciativas de integração regional, por mais limitadas que sejam, foram apoiadas firmemente. Às vésperas da reunião de Ayacucho, para dar início a uma Comunidade de Nações Sul­‑americanas, o encontro da Venezuela chamou a atenção para a necessidade de concretizá-la de baixo para cima, com forte participação dos povos da região. O sentimento de uma união de inspiração bolivariana produziu uma identificação muito importante com a experiência em curso na Venezuela. É impressionante ver como neste país se desenvolvem novas formas de consciência e de participação popular baseadas no sentimento de unidade continental e latino­‑americana.

No colectivo tão diferenciado do encontro, evidenciou-se uma tendência de apoio a iniciativas como a empresa latino­‑americana de petróleo que a Venezuela propõe e várias outras no mesmo sentido. É surpreendente constatar a força que as ideias de cooperação regional têm, apesar de todas as dificuldades históricas que esses povos tiveram para poder actuar em conjunto.  Não há como deixar de constatar que a identidade cultural do “latino”, como dizem os estadunidenses, é uma força moral profunda que ganha consistência especial quando recebe suporte estatal.

Eu sugeriria ao leitor que não considere esta iniciativa como mais uma reunião entre as muitas que se realizam nos nossos dias. Vale a pena acompanhar com carinho o desdobramento destes primeiros passos, na realidade iniciados no México, na memorável reunião de Polyforum Siqueros, este templo escultórico dedicado à marcha ascendente da humanidade. Parece que as forças da destruição, da exploração e do terror se vão defrontar cada vez mais com a resistência moral e activa dos povos. Isto revela­‑se nos campos de batalha e nos embates políticos e diplomáticos, mas manifesta­‑se também nas iniciativas culturais que cimentam as relações sociais e entre os povos.

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* Theotônio dos Santos é professor titular da UFF, coordenador de rede da UNESCO, e da UNU sobre Economia Global e Desenvolvimento Sustentável.