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Mundo

Novembro 2004

 

Água, mulheres e guerra

 

Laura Santina *

Zmag

A água foi o principal assunto do congresso da Liga Internacional de Mulheres pela Paz e a Liberdade (WILPF, nas suas siglas em inglês), que teve lugar em Agosto na cidade sueca de Kungälv. Durante a conferência, que durou uma semana e que incluiu relatórios oficiais de 12 países, mais de 300 mulheres discutiram sobre as condições, a distribuição e a disponibilidade da água nos 31 países que estavam representados.

O congresso celebrou­‑se na escola Nordiska Folkhigschool, situada numa das múltiplas colinas de Kungälv com vistas para os canais e os rios. É uma das 350 escolas que pertencem a um sistema educativo especial apoiado pelo governo exclusivamente «para adultos que desejem estudar algo durante o inverno», segundo o seu director. «Aqui não há estruturas: não há exames, nem planos de estudo, nem créditos, nem classes obrigatórias». Ainda que alguns dos assuntos legislativos da WILPF (a organização de mulheres para a paz e a justiça mais antiga do mundo) sejam estruturados, esta escola informal, cujas conversas com frequência se estendem até bem entrada a noite, inspirou um processo de aprendizagem, de compartilhar e de reconstrução de um conhecimento colectivo único.

Ao longo do Congresso, a imagem da água no mundo tomou um aspecto sombrio e perigoso.

Com a decisão da ONU em 1991 – apoiada por corporações mundiais e a Organização Mundial do Comércio – de definir a água como uma necessidade humana em vez de um direito humano, sobreveio uma mudança dramática. Isto significava que podia ser comprada e vendida por companhias privadas para obter ganhos. Todas as delegadas da WILPF com que falei estavam em desacordo com a postura das Nações Unidas, e todas coincidiam em que a água era o recurso mais prezado da terra bem como um direito humano, o que significa que todo o mundo deve ter acesso equitativo e sem ânimo de lucro.

Apesar das inundações e das secas, a água foi dada como garantida pela maioria dos habitantes deste mundo até que as exigências explosivas do crescimento da população, da contaminação, da industrialização, da militarização e da privatização no século XXI,, criaram a crítica escassez actual. O congresso foi ilustrado por parte das mulheres da WILPF provenientes das nações em vias de desenvolvimento em como sementes geneticamente alteradas, desenvolvidas nos EUA e de uso obrigatório para os seus agricultores, criaram uma verdadeira catástrofe nos sistemas de irrigação. Os cultivos indígenas resistentes às secas foram sendo substituídos por outros que requerem mais água. Os rios foram começando a secar antes de chegar ao mar. Os métodos prévios de regadio sustentável foram substituídos por poços profundos e grandes represas para compensar a falta de água, a uma média de dois ao dia durante os últimos 50 anos.

«Seis mil trezentas pessoas morrem em cada dia no mundo por falta de água» anunciou Regina Birchem, recentemente eleita presidenta da WILPF Internacional.

A delegada da Bolívia, Katty Pattino, disse: «somente três em cada cinco pessoas no meu país têm acesso a água potável. A falta de água limpa é uma das maiores causas de mortalidade infantil e de doenças». Mostrou um frasco que continha água de sua casa. Metade estava cheia de sujidade.

Vários dos presentes confirmaram que a contaminação ocasionada pelas indústrias, pelos herbicidas e pelos insecticidas está a criar doenças graves como o câncer ou defeitos de nascimento em muitos países. «Os nossos rios, lagos, a água subterrânea e a da superfície está contaminada em 94 por cento» disse Leticia Paúl de Flores de El Salvador, «há uma absoluta falta de controle na construção e na indústria que contamina os nossos rios».

Há também um alto risco de mortalidade porque o água contaminada está especialmente presente em áreas onde a população tem um reduzido sistema imunológico devido à SIDA. Relatórios de vários países indicavam uma escassez crítica de água potável nas cidades e particularmente nas zonas rurais. Liss Schanke informou que a cólera, as febres tifóides e a diarreia estão estendidas na Tanzânia, situação que teve eco em outros participantes de outros países, de novo por causa da escassez de água potável.

Ainda que não tenha havido um representante oficial da água por parte dos EUA, os problemas deste país foram abordados em contínuos debates. Além do sobreuso da água, um problema devastador é o dos resíduos radioactivos procedentes da produção de plutónio para armas nucleares que estão a invadir os ribeiros e os rios no país. O esbanjamento de água esteve também considerado como um problema na Austrália, onde um cidadão médio consome mais água do que qualquer no resto do mundo.

«Da mesma maneira que há guerras pelo petróleo, havê­‑las­‑á pela água» foi o mantra ameaçador que sobrevoou o congresso de WILPF. A doutora Shusma Pankule da Índia confirmou­‑o: «temos disputas sobre o água com o Paquistão por um lado e com a China pelo outro». «Israel roubou a água aos palestinianos e está a vendê­‑la a preços que eles não podem pagar. A situação é explosiva», informou Aliyad Strauss de Israel.

Vivendi Universal, Suez Lyonnaise des Eaux e Bouygues-Saur de França, RWE – Thames da Alemanha e Bechtel-United Utilities dos Estados Unidos converteram­‑se nos magnatas da água e estão a apropriar­‑se dos serviços públicos. Uma prática comum é comprar a água às comunidades pobres, engarrafá-la e vendê­‑la aos consumidores nos EUA, deixando desse modo a comunidade de origem sem suficiente água para o seu próprio consumo. Estas corporações também compram os direitos locais da água e revendem­‑na à comunidade a um preço muito mais alto.

A maioria dos representantes da WILPF conveio em que devemos investir de forma sustentada em infra-estruturas aquíferas para preservar uma água limpa e segura. A lealdade das companhias privadas baseia­‑se nos benefícios e não na comunidade ou em soluções a longo prazo. Actualizar ou substituir as infra-estruturas resulta custoso. Para actualizá-las ou sobem o preço da água, ou vendem­‑na ao melhor concorrente. Muitas companhias têm assim mesmo os ganhos assegurados nos seus contratos, reservando-se o direito a elevar os preços se a comunidade usa menos água do que a prevista, prática que converte a poupança de água numa estupidez.

Devido à escassez de tempo e à dimensão do problema, o congresso não empregou muito tempo em discutir soluções, mas há muitas comunidades de base que estão a recuperar a sua água e a encontrar soluções a longo prazo para este dilema. Estão a avaliar as condições e a disponibilidade da água nas suas comunidades com base na posse, preços, contaminação militar, industrial ou agrícola, condições das infra­‑estruturas, propósito com que se usa numa comunidade dada, disponibilidade actual e predições de disponibilidade para o futuro. Estão a contra­‑atacar.

Podemos inspirar-nos em movimentos de protesto existentes. No Sri Lanka, Dulci de Silva informou que: «estamos a resistir a converter a água em mercadoria para a exploração nos mercados internacionais como fomenta o Banco Mundial. Estabelecemos diversas campanhas para proteger a nossa água. Somos uma coligação de 300 grupos de mulheres, de ONGs, de agricultores e de qualquer pessoa que se veja afectada pela privatização da água no Sri Lanka».

Os bolivianos conseguiram com sucesso expulsar a companhia Bechtel depois de esta ter comprado os direitos da sua água e elevado os preços de tal maneira que as pessoas não podiam permitir­‑se pagar. As campanhas “Killer Coke” e “Boicote Coke” iniciadas na Colômbia estão em marcha. Os cidadãos de Lexington, Kentucky, organizaram “Bluegrass FLOW” para retomar o controle sobre The Kentucky­‑American Water Company, a qual tinha sido comprada pela RWE em 2003. Os direitos da Nestle a engarrafar a água do manancial local de Mecosta County no Michigan estão a ser postos no pelourinho por parte dos seus residentes. Os exemplos são incontáveis.

Na manhã seguinte ao fim do congresso, fui passear por uma velha fortaleza na colina. As paredes estavam cobertas de erva que tinha penetrado na rocha como depoimento vivo da decisão tomada pelo povo sueco faz 190 anos de eliminar a guerra como maneira de resolver os problemas. Talvez seja possível para o resto de nós deixar também as guerras para atrás, incluindo a prognosticada guerra pela água.

Dava pena deixar a companhia destas novas e velhas amigas de todo o mundo que tomam a vida tão a sério. Em Kungälv, a essência dos nossos sonhos colectivos parecia estar ao alcance da mão.

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* Laura Santina é uma escritora por conta própria e vice-presidente da WILPF em Berkeley­‑East Bay, California. Os eus artigos apareceram em Z Magazine, Common Dreams, Counterpunch e The Awakened Woman.