Informação Alternativa

África

Novembro 2006

 

Uma sucursal argelina para a Al­‑Qaeda

 

Mathieu Guidère *

Le Monde diplomatique

 

Até aos dois atentados com camiões armadilhados nos arrabaldes de Argel, a Argélia tinha conhecido o seu mês de Ramadão menos violento dos últimos quinze anos, com vinte e sete mortos para uma média de trezentos na década de 1990. A associação do Grupo Salafita para a Prédica e o Combate (GSPC) à Al­‑Qaeda causa preocupação, e desde logo em França, que foi qualificada como “inimigo número um”.

 

Num vídeo transmitido no aniversário dos atentados do 11 de Setembro, Ayman Al-Zawahiri, número dois da Al­‑Qaeda, anunciou uma “boa notícia”: a união oficial da Al­‑Qaeda com uma organização argelina conhecida pelo nome de Grupo Salafita para a Prédica e o Combate (GSPC). A França, que no entanto se vangloria de não ter seguido, no Iraque, os Estados Unidos na “guerra contra o terrorismo”, é nesse vídeo claramente designada como alvo, ao mesmo título que os Estados Unidos: «Esta união abençoada será uma espinha atravessada na garganta dos cruzados americanos e franceses [...] e fará nascer o medo no coração dos traidores e dos descrentes filhos da França».

 

Logo no dia seguinte, o emir argelino do GSPC, Abu Mussab Abd Al-Wadud, respondeu a Zawahiri, através da publicação duma carta de apoio e fidelidade, prometendo seguir Bin Laden «até ao martírio» e pormenorizando os motivos que o levaram a unir-se à Al-Qaeda: o facto de a sua linha de orientação estar «em conformidade com o Corão e a Tradição do Profeta», de «as suas fatwas serem conformes à charia», de «a sua política ser sábia e bem guiada». Mas acima de tudo, como nessa carta afirma, por «depositarmos inteira confiança na fé, na doutrina, no método e na maneira de agir dos seus membros, bem como nos seus chefes e líderes religiosos».

 

A presente união ilustra uma dinâmica mais ampla, revelando o novo rosto mundial do terrorismo islamita: a articulação de grupos armados que dispõem de forte implantação local numa vasta rede transnacional, fenómeno em que a Al-Qaeda, por muito debilitada que se encontre do ponto de vista operacional, tem o papel de referência simbólica e cujo principal catalizador é o conflito iraquiano. Apesar dos êxitos proclamados pelos serviços de segurança, a influência da Al-Qaeda nunca foi tão forte, tendo continuado a aumentar o seu ascendente ideológico sobre os movimentos radicais no mundo muçulmano. Até aqui, o Magrebe tem estado numa relativa segurança no tocante a esta corrente global, mas agora, com a união oficial do GSPC à Al­‑Qaeda, a situação está em vias de mudar.

 

O GSPC, criado no fim da década de 1990 pelos dissidentes do Grupo Islâmico Armado (GPA) argelino, responsável pelos atentados terroristas de 1995 em Paris, já designou a França várias vezes como o seu “inimigo número um”; de resto, em França e noutros países europeus, várias células dos seus simpatizantes foram desmanteladas a tempo nos últimos anos. Apesar das tentativas de infiltração e manipulação empreendidas pelos serviços secretos argelinos [1], o GSPC continua muito activo em todo o Magrebe, em particular na Argélia, onde parece ter conseguido fazer abortar o processo de reconciliação nacional inaugurado pela Carta adoptada em Setembro de 2005, à qual se mostrou desde logo hostil.

 

Com base nesta Carta, previa-se que a paz seria restabelecida no país, mas um ano depois os seus resultados são limitados. É verdade, em conformidade com as disposições deste texto, que mais de «250 terroristas» depuseram as armas e «mais de 2000 islamitas» foram amnistiados. Ao mesmo tempo, porém, o ministro argelino do Interior revelou que «foram abatidos ou capturados pelas forças de segurança, durante um ano, 500 terroristas» [2]. Por seu lado, o GSPC – incluindo todas as suas facções – reivindicou entre 1 de janeiro e 30 de Setembro de 2006 uma centena de operações, quase sempre mortíferas, em diversas regiões do país: ataques a postos de polícia ou outras forças da ordem, a unidades do exército em patrulha ou a carros blindados, assassinatos com alvos predeterminados e recurso a minas anti­pessoais.

 

Paralelamente, o GSPC trabalhou no sentido de inscrever a sua acção numa dimensão mais internacional. Não perdeu qualquer oportunidade para tornar a sua posição conhecida, fosse no que se refere à situação no Afeganistão, na Tchetchénia, no Líbano, na Somália ou no Sudão. Procurou sobretudo colocar­‑se, com assiduidade, sob a bandeira da Al-Qaeda, e portanto preencher as “condições” de tal união. O próprio emir do GSPC revelou, no seu comunicado que anunciou a união, «negociações e discussões intensas que duraram quase um ano». Assim, o grupo não foi admitido na Al-Qaeda por simples oportunismo, mas ao cabo de uma longa aproximação entre as duas organizações. Foi nisso que o conflito iraquiano teve um papel determinante, na sequência do diálogo encetado com a Al-Qaeda no “país dos dois rios” (Mesopotâmia) e da reprodução do modelo desta organização.

 

Nos sítios da Internet frequentados pelos partidários e simpatizantes da jihad, várias mensagens proferidas pelo comando da Al-Qaeda felicitaram o GSPC pela sua «acção jihadista» na Argélia. A viragem confirmou­‑se em Junho de 2005, quando o GSPC reproduziu uma carta do «chefe da divisão dos media da Al-Qaeda», Abu Maysara Al-Iraki, felicitando o GSPC pela sua «operação vitoriosa» desencadeada pouco tempo antes em território mauritano contra um quartel das forças de segurança, primeira acção de envergadura do GSPC num país vizinho da Argélia. De resto, outras acções da mesma índole levaram o próprio Bin Laden a elogiar os «mujahidines argelinos».

 

A FRANÇA VERBERADA

 

Em Julho de 2005, por seu turno, o GSPC felicitou a Al-Qaeda do Iraque por ter capturado diplomatas argelinos, Ali Belarussi e Izzedine Belkadi. No seu comunicado, chegou mesmo a pedir que lhes fosse aplicado «o julgamento de Deus», isto é, que os executassem, voto que em Agosto o seu emir Abu Mussab Abd Al­‑Wadud reiterou ao apoiar o assassinato dos seus compatriotas.

 

Desde então, ambas as organizações terroristas parecem estar em sintonia. Em meados de Agosto de 2005, um comunicado da Al-Qaeda foi transcrito pelo GSPC e endereçado aos «jovens da Nação» para que aderissem à «jihad contra os renegados da Argélia». E, em finais desse mês, a Al-Qaeda fustigou, numa mensagem de mobilização, «a oposição ao véu islâmico da França dos cruzados». Na sequência imediata desses apelos, o GSPC publicou, em francês e árabe, em todos os fóruns e nos sítios islamitas da Internet, um incitamento aos argelinos residentes no território francês para «apoiarem os seus irmãos mujahidines na Argélia». Nesse texto, a França foi verberada pela sua ajuda ao regime do presidente Abdelaziz Bouteflika e o GSPC instou os seus simpatizantes «à vingança».

 

Em 2006 deu-se o reforço dos elos entre as duas organizações. Comunicados concordantes ou concomitantes referiram diversos acontecimentos internacionais (Tchetchénia, Afeganistão, Sudão, Líbano). A morte de Abu Mussab Al-Zarqawi no Iraque, a 7 de Junho de 2006, deu azo a um longo comunicado de condolências do emir do GSPC. Em resposta, numa carta de agradecimento, Abu Maysara Al-Iraki felicitou Abu Mussab Abd­‑Wadud pela sua «comunicação eficaz com vista à mobilização da Nação a favor da jihad».

 

Esta última referência lembrava uma recomendação feita pela Al-Qaeda no início de 2006 aos responsáveis do GSPC, lembrando-lhes a importância da propaganda. O desenvolvimento de meios de comunicação adequados revelou­‑se depois o aspecto mais flagrante dum alinhamento do GSPC pelas práticas da Al-Qaeda. Convém assinalarmos aqui varias inovações importantes.

 

Ao longo dos últimos meses, o GSPC começou por criar uma lista de difusão regular e segura em que faz uma relação das suas operações e comunicados reivindicativos, bem como dos seus documentos oficiais áudio e vídeo. De início mensal, esta lista tomou-se a breve trecho semanal. O seu conteúdo é repetido na íntegra pelas outras listas de difusão islamitas, prova de que o GSPC passou a fazer parte do círculo muito fechado dos grupos jihadistas reconhecidos em todo o mundo muçulmano e já não só no âmbito local.

 

Além disso, imitando as publicações da insurreição iraquiana e em particular as da Al-Qaeda no Iraque, o GSPC voltou a lançar uma página na Internet intitulada Al-Jamaa (O Grupo). É uma publicação mensal, com umas trinta páginas, e passou a inspirar-se nas rubricas e na formatação dos magazines da Al-Qaeda no Iraque e do grupo Ansar Al-Sunna. O n.º 6 de Al-Jamaa, por exemplo, tem 36 páginas, abordando operações internas do GSPC e acontecimentos no Iraque, em Marrocos ou na Tchetchénia. Este magazine publica amplos extractos de ideias dos mestres pensadores do salafismo (doutrina rigorista e passadista do islão, de que derivou o jihadismo). Amplamente difundido nos fóruns da Internet, este magazine dispõe de retransmissores eficazes graças aos quais se pode encontrá-lo em vários sítios da rede mundial, tanto na Europa como no mundo muçulmano.

 

Desde Janeiro de 2006, o grupo argelino empreendeu também grandes esforços para fazer chegar aos internautas um sítio completo e actualizado. Devido aos ataques permanentes dos serviços de segurança, este sítio mudou várias vezes de endereço e já só é acessível de forma intermitente. Até ao dia 10 de Setembro de 2006, tinham­‑no visitado 85.000 internautas, com uma média de 10.000 por mês.

 

Na leitura da rubrica dedicada à “doutrina” figura um texto escrito por uma das figuras de proa do islamismo radical no Médio Oriente, Abu Muhammad Al-Maqdisi, que se encontra preso na Jordânia desde há alguns anos. Entre outras coisas, a “doutrina” situa o GSPC na esteira do Grupo da Unicidade e da Jihad fundado por Zarqawi antes de se ter aliado a Bin Laden e de haver sido nomeado para chefiar a Al-Qaeda no Iraque.

 

Depois da morte de Zarqawi, os principais chefes do GSPC fizeram questão, atravês duma série de entrevistas disponíveis no sítio Internet do grupo, de justificar as suas posições extremas, em particular no respeitante aos ataques a civis, encetando também uma radicalização ideológica e teológica em que se nota o pendor do salafismo para o jihadismo e o “martírio” face aos infiéis. Esta evolução não os situa ainda no plano de intransigência atingido pela Al-Qaeda no Iraque, mas os sinais dum próximo alinhamento são desde já perceptíveis, em especial nos mais recentes vídeos do grupo argelino.

 

O vídeo foi aliás a inovação mais importante do GSPC nos últimos meses. Imitando a propaganda da Al­‑Qaeda no Iraque, o grupo argelino organizou um Comité dos Media (Lajna I’lamiyya) e exigiu que todos os comandantes filmassem as suas respectivas operações, tanto de dia como de noite. Esta decisão com vista à mediatização das acções terá galvanizado os combatentes e dado novo fôlego a um grupo que, como este, se encontra isolado no deserto e nas montanhas da Argélia.

 

Em três meses, foram postos na Internet dois vídeos. O primeiro não chega a durar quinze minutos e contém apenas o relato filmado de um único comandante do GSPC. A reacção dos internautas foi sem concessões, tendo o filme sido considerado “oco” e “nulo”, amiúde comparado desfavoravelmente às obras­‑primas de propaganda produzidas pela Al-Qaeda no Iraque. O segundo vídeo, difundido no início de Setembro de 2006, já demonstrou consideráveis progressos. Dura uma hora e meia e inclui imagens mais duras e acções mais espectaculares. Apresenta-se como uma compilação de operações perpetradas nos quatro cantos da Argélia, dando assim a impressão, graças à própria diversidade das operações, duma omnipotência do GSPC.

 

Embora estes vídeos mostrem sempre um GSPC vitorioso, são reconhecidas baixas nas suas fileiras, sendo nisto que se pode apreender a tendência para a doutrina do “martírio” formulada pela Al-Qaeda. Os filmes mostram uma iniciação espiritual prévia ao combate e glorificam os combatentes mortos, lembrando estranhamente os filmes sobre os “mártires da Al-Qaeda”, rodados a propósito de todos os atentados suicidas de envergadura organizados no Iraque. Ainda que o GSPC não tenha por enquanto reivindicado nenhuma operação deste género na Argélia, a tendência da sua propaganda vai no sentido da forma de terrorismo suicida e espectacular que constitui a marca da Al-Qaeda.

 

O facto é tanto mais inquietante quanto o Comité dos Media do GSPC adoptou todos os cânticos de guerra e a maior parte dos acompanhamentos sonoros da Al-Qaeda no Iraque para sublinhar a sua mensagem, tendo também adoptado o método das confissões filmadas e das execuções sanguinárias.

 

A dinâmica de internacionalização vê-se também na forma como são apresentados os combatentes descritos nestes vídeos. Uma reportagem exalta as qualidades de um tal “Munir, o tunisino”, chefe do campo de treino militar do GSPC na Argélia. Outra é dedicada a uma operação comum com os «mujahidines da Mauritânia». A União do Magrebe árabe surge ilustrada numa cena de grande júbilo em que confraternizam jihadistas argelinos, marroquinos, tunisinos, líbios e mauritanos – cuja música de fundo são os cânticos da Al­‑Qaeda ressoando na terra de ninguém do Grande Sara.

 

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* Director do Laboratório de Análise de Informação Estratégica (CREC­‑Saint-Cyr), autor do ensaio Les “Martyrs” d’Al-Qaida, Éditions du Temps, Nantes, 2006.

 

[1] Ler Salima Mellah e Jean-Baptiste Rivoire, Enquête sur l’étrange “Ben Laden du Sahara”, Le Monde diplomatique, Fevereiro de 2005.

[2] Le Monde, 27 de Agosto de 2006.

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