Informação Alternativa

África

Abril 2005

 

Eleições de alto risco num Togo em crise

 

Comi M. Toulabor *

Le Monde diplomatique

 

A crise aberta pela sucessão do presidente Gnassingbé Eyadéma, falecido a 5 de Fevereiro de 2005 após trinta e oito anos de reinado, extravasou as fronteiras do Togo. Se o envolvimento da França – fiel apoiante do regime – é habitual, já o das organizações africanas contrasta com a inacção demonstrada no passado. A eleição presidencial está prevista para 24 de Abril, mas tudo está por organizar. Depois da Costa do Marfim, assiste­­­‑se ao despedaçar de um outro aliado da França. Qual será o próximo?

 

[Desde a publicação deste artigo, que apresentamos sem modificações, Faure Gnassingbé ganhou a presidência numas eleições contestadas. Este artigo permite perceber as circunstâncias e os interesses em jogo no período prévio às eleições.]

 

Foi um punhado de oficiais superiores que a 5 de Fevereiro de 2005 catapultou Faure Gnassingbé, um dos filhos do ditador Étienne Gnassingbé Eyadéma, falecido nesse mesmo dia, para a chefia do Estado togolês. A Assembleia Nacional e o Tribunal Constitucional, dominados pelo partido presidencial, a União do Povo Togolês (RPT, Rassemblement du Peuple Togolais), ratificaram de imediato o golpe de Estado; “eleito” presidente da instância governativa, Faure Gnassingbé assumiu interinamente a chefia do Estado e posicionou-se com vista a suceder plenamente a seu pai.

 

Ao longo de trinta e oito anos, Étienne Gnassingbé Eyadéma, “amigo pessoal” do presidente francês Jacques Chirac, conservou­‑se no poder graças a dois golpes de Estado, a um recurso sistemático à fraude eleitoral, ao apoio fiel de um exército infiltrado pelos seus íntimos e pela sua etnia, a sólidas redes de amizades no estrangeiro (nomeadamente em França) e a um hábil bloqueamento do acesso aos magros recursos económicas do país [1].

 

 

Em Dezembro de 2002, a Constituição togolesa foi quase inteiramente reescrita para permitir que o velho déspota acedesse a um terceiro mandato presidencial em Junho de 2003, multiplicando a nova versão constitucional os obstáculos destinados ao principal opositor, Gilchrist Olympio. Deste modo, Étienne Gnassingbé Eyadéma balizou legalmente o caminho para o seu filho Faure, que foi deputado à pressa e depois ministro das Minas, Equipamento e Telecomunicações. Nesse lugar estratégico – as minas e a indústria representam 20 por cento do produto interno bruto do Togo –, este último pôde saciar a ânsia predadora do seu clã. Além disso, foi­‑lhe atribuída a responsabilidade do imenso cofre-forte familiar no sector dos fosfatos, dos telefones e da prospecção petrolífera, avaliado em vários milhares de milhões de francos CFA pelo antigo primeiro­‑ministro Agbéyomé Kodjo [2]. Em contraste com os benefícios de tamanha prevaricação, os resultados económicos do Togo são inferiores aos dos outros países da zona, o poder de compra está a baixar [3] e os salários encontram­‑se bloqueados desde há vinte anos.

 

Destacam-se três campos no clamor de indignação que a escandalosa e grosseira sucessão togolesa provocou. Antes de mais, o dos intransigentes, para os quais este golpe de Estado constitui um ataque à laboriosa democratização da África [4]. A 10 de Fevereiro, o presidente em exercício da União Africana, o chefe do Estado nigeriano Olusegun Obasanjo, chegou a ameaçar o Togo com uma intervenção militar [5]. Por seu turno, o presidente da Comissão da União, o maliano Alpha Oumar Konaré, foi o primeiro a denunciar sem rodeios «um golpe de Estado militar», nisso apoiado pelo nigeriano Mamadou Tandja, que assume a presidência rotativa da Comunidade Económica para o Desenvolvimento dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) [6]. As declarações do antigo presidente maliano resumem perfeitamente a filosofia deste campo: «É óbvio que a União Africana não pode aceitar uma tomada do poder pela força, sendo pois importante que as regras constitucionais se respeitem» [7]. De resto, a CEDEAO adoptou a 19 de Fevereiro uma série de sanções excepcionais, contrastando com o espantoso silêncio de que deu provas aquando das fraudes eleitorais, consubstanciais à ditadura de Eyadéma: exclusão da organização sub­‑regional, chamada dos embaixadores a Lomé, proibição de se viajar na região, etc.

 

A Organização Internacional da Francofonia (OIF), dirigida pelo antigo presidente do Senegal Abdou Diouf, suspendeu a 9 de Fevereiro as suas instâncias no Togo. Washington, as Nações Unidas e a União Europeia – nomeadamente por iniciativa da Alemanha e da Bélgica – condenaram também de forma explícita o golpe de Estado.

 

Perante essa oposição, Faure Eyadéma anunciou a 18 de Fevereiro a sua intenção de organizar a eleição presidencial nos próximos sessenta dias, em conformidade com a Constituição, pondo assim de lado a ideia de concluir o mandato de seu pai até 2008. Mas nem por isso a União Africana e a CEDEAO deixaram de continuar a exigir a demissão pura e simples do golpista, que acabou por ocorrer a 25 de Fevereiro, tendo então sido eleito Abass Bonfoth presidente da Assembleia Nacional em vez de Eyadéma (filho). Mas este logo anunciou a sua candidatura à eleição presidencial, em nome do RPT, começando de imediato a sua campanha através da distribuição de dinheiro. Durante aqueles vinte dias de crise, a diplomacia da firmeza desempenhou um papel decisivo, apoiada pela população local, que não hesitou, apesar do medo, em afrontar o exército para manifestar a sua oposição ao golpe.

 

PARIS NÃO CONDENA

 

A seguir a este campo dos intransigentes encontra­‑se o campo do silêncio enigmático, que agrupa a maior parte dos chefes de Estado africanos, com a notável excepção do senegalês Abdoulaye Wade e do sul-africano Thabo Mbeki. Com efeito, não é certo que as posições da União Africana e da CEDEAO, apesar de adoptadas por unanimidade, exprimam as opções profundas dos dirigentes dos respectivos países membros. Os vizinhos imediatos do Togo – Benim, Burquina-Faso e Gana (cujo embaixador assistiu à tomada de posse de Faure Gnassingbé) – adoptaram um mutismo cómodo que não engana ninguém. Gnassingbé Eyadéma cultivou habilmente as suas relações com os chefes de Estado estrangeiros, prevalecendo­‑se da sua longevidade no poder e de um sólido tecido de “amigos” em todos os círculos. O velho general chegou mesmo a assumir em 2000­‑2001 a presidência da Organização de Unidade Africana (antepassado da União Africana) e assegurou em 2003 uma mediação na crise costa­‑marfinense, na qualidade de “sábio” e “decano” dos dirigentes africanos. Em 1993, quando morreu Félix Houphouët­‑Boigny, passou a dirigir o sinistro “sindicato” dos ditadores da África francófona apoiados por Paris, entre os quais se conta o camaronês Paul Biya, o gabonês Omar Bongo Ondimba e o burquinês Blaise Campaoré.

 

O terceiro campo é o das declarações embaraçadas; a França é o único país ocidental que dele faz parte. Logo que foi anunciado o falecimento do «embondeiro de Pya» (aldeia natal de Gnassingbé Eyadéma), o presidente Jacques Chirac apressou-se a exprimir a sua «profunda tristeza», qualificando o falecido como um «amigo da França» e como «um amigo pessoal». E certo que a 11 de Fevereiro o Ministério dos Negócios Estrangeiros fez um apelo às autoridades togolesas para que estas realizassem eleições “livres e democráticas”. Mas dias antes o ministro francês da Cooperação, Xavier Darcos, tratou Faure Gnassingbé como presidente de facto, atribuindo­‑lhe boas intenções. A 20 de Fevereiro as autoridades francesas anuíram às sanções adoptadas pela CEDEAO, mas nunca condenaram com firmeza a forma hereditária de transmissão do poder.

 

O regime togolês sabe aliás defender os interesses duma casta militar e de negociatas em que a França desempenha um dos principais papéis. Está muito presente no Togo a maior parte das grandes empresas, das pequenas e médias empresas e das pequenas e médias indústrias do ramo internacional do Movimento das Empresas de França (MEDEF) e do Conselho Francês dos Investidores em África (CIAN), nomeadamente nas obras públicas, na exploração dos fosfatos e no armamento.

 

O Togo continua ligado à França por um acordo de defesa assinado a 10 de Julho de 1963 e por acordos de cooperação técnica e militar que datam de 29 de Março de 1976. De Jean-Christophe Mitterrand a Jacques Chirac, são conhecidas as ligações da classe política francesa com os lóbis de negócios, ou até mafiosos [8]. Há universitários franceses que apoiam o regime togolês, entre os quais o jurista a soldo Charles Debbasch, que validou o golpe de Estado, é tão-só a figura emblemática. A França é o único país da União Europeia que se opõe a mais pesadas sanções contra o poder dos Eyadéma, privado dos subsídios europeus desde 1993 pelos seus atentados à democracia. E vivem no Togo três mil franceses.

 

A “eleição” de Faure Gnassingbé garantiria a continuidade deste sistema, constituindo ao mesmo tempo uma espécie de mal menor interno; originário do Norte e do Sul do Togo pelos seus pais, ele pode pretender a uma certa representatividade, num país onde o argumento étnico e regional é correntemente utilizado.

 

Entretanto, desde a demissão do golpista, a União Africana e a CEDEAO mostram-se estranhamente silenciosas. A questão crucial da organização da eleição presidencial de 24 de Abril num país habituado à fraude continua a ser muito preocupante, tanto mais que a União Europeia não poderá, por falta de tempo, enviar observadores. Terão os dirigentes francófonos da União Africana, e sobretudo os da CEDEAO, sido alvo de pressões da Presidência da República e do ministério dos Negócios Estrangeiros franceses? O que é certo é que Paris joga na deterioração da situação, esperando que o tempo acabe por vencer as mobilizações internas e externas dos togoleses. Trata­‑se de dividir a CEDEAO para a enfraquecer e de transferir o dossiê para o acomodatício Conselho da Concórdia. Este último, criado em 1959 pelo presidente costa-marfinense Félix Houphouët­‑Boigny por instigação da França, agrupa o Benim, o Burquina-Faso, o Níger e a Costa de Marfim, a que o Togo se juntou em 1966.

 

Os germens da divisão já são perceptíveis. Omar Bongo não condenou de forma explícita o golpe de Estado, limitando-se a lembrar a necessidade de ser respeitada a Constituição togolesa; convém lembrar que o presidente gabonês espera que lhe suceda o seu próprio filho Ali, actual ministro da Defesa. Além disso, o jornal togolês La Dépêche, próximo das instâncias de poder do RPT, afirma que numa visita oficial a Bruxelas Blaise Compaoré se terá pronunciado contra as sanções da CEDEAO [9].

 

PODERÁ O FILHO DO DITADOR VENCER?

 

Muito curiosamente, logo que Faure Gnassingbé anunciou a sua demissão, a CEDEAO suspendeu as suas sanções, sem esperar pela decisão do Conselho de Paz e Segurança da União Africana, cuja reunião ocorreu nesse mesmo dia [10], tendo assim este Conselho ratificado sanções da CEDEAO que já não existiam. Além disso, deu a sua bênção à eleição de Abass Bonfoth para a presidência da Assembleia Nacional, em vez de Fambaré Ouatara Natchaba, que ocupava esse lugar até ter sido afastado pelos golpistas em benefício de Faure Gnassingbé.

 

Segundo Gilchrist Olympio, a CEDEAO, dominada pelos Estados francófonos que considera estarem ao serviço da França, é incapaz de gerir sozinha a crise togolesa e de organizar eleições transparentes e credíveis. O filho do presidente Sylvanus Olympio (assassinado pelo general Eyadéma em 1963) considera ser indispensável o apoio da União Africana, presidida pela Nigéria [11] cuja capital, Abuja, disputa um lugar no Conselho de Segurança das Nações Unidas, e defende uma posição intransigente para com o regime togolês. Os Estados Unidos, que não têm nenhum interesse em jogo neste país, adoptaram uma posição semelhante, reavivando assim uma nova querela dos francófonos contra os anglófonos.

 

São lamentáveis as hesitações de ambas estas organizações – cuja credibilidade está em jogo na presente crise –, tanto mais que pela primeira vez desde a sua criação (1975, no caso da CEDEAO, 2001 no caso da União Africana) elas assumiram posições bastante firmes perante um dos seus membros que violou as regras constitucionais. É uma questão crucial em Estados onde a conquista do poder e a sua transmissão resultam muitas vezes de procedimentos opacos e autoritários.

 

No terreno, Paris não se poupa a esforços para apoiar Faure Gnassingbé. Em Lomé, o antigo conselheiro militar do presidente defunto, o tenente-coronel Benoît, responsável da Direcção Geral dos Serviços Externos (DGSE) na Embaixada de França, está encarregado de lhe obter apoios. Velho conhecedor do Togo, onde exerceu funções na década de 1960, na altura do assassinato de Sylvanus Olympio, o oficial francês tenta nomeadamente convencer o antigo chefe do estado-maior do exército, caído em desgraça e exilado no Burquina­‑Faso, o hábil tenente-coronel Kouma Biténiwé, a pôr-se ao serviço do filho do seu antigo patrão. Com efeito, Faure Eyadéma, politicamente isolado, não tem o apoio de todos os oficiais kabiyé nomeados por seu pai.

 

Na ausência de Gilchrist Olympio, afastado do escrutínio por não residir no Togo, seis partidos designaram Emmanuel Bob Akitani como candidato único da oposição. Contudo, a designação não foi unânime, havendo quem considere que este engenheiro de idade demasiado avançada (74 anos) não será capaz de mobilizar uma oposição dividida e sem programa definido.

 

A eventual vitória do filho do ditador na eleição presidencial de 24 de Abril poderá conservar, a curto prazo, os interesses económicos que a França tem no Togo. Mas também pode gerar – sobretudo se for fraudulenta – riscos de implosão deste país, susceptíveis de ir acrescentar-se à crise costa­‑marfinense.

 

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* Investigador do Centro de Estudos da África Negra – Instituto de Estudos Políticos (CEAN-IEP), Bordéus.

 

[1] Comi M. Toulabor, Au Togo, le dinosaure et le syndrome ivoirien, Le Monde diplomatique, Março de 2003.

[2] Lettre ouverte d’Agbéyomé Kodjo à Faure Gnassingbé, datada de 20 de Fevereiro de 2005.

[3] A taxa de crescimento do Togo é de 0,5 %, contra 4,1 % para os outros países da CEDEAO (5,1 no caso do Benim).

[4] Achille Mbembé, “Les chantiers de la démocratie”, Manière de Voir n.º 69, Résistances africaines, Fevereiro­‑Março de 2005.

[5] Nigeria National Assembly endorses military action against Togo, Le togolais, 11 de Fevereiro de 2005.

[6] Benim, Burquina-Faso, Cabo Verde, Costa do Marfim, Gâmbia, Gana, Guiné, Guiné­‑Bissau, Libéria, Mali, Níger, Nigéria, Senegal, Serra Leoa e Togo.

[7] Le Canard indépendant, Lomé, 11 de Fevereiro de 2005.

[8] Ver o comunicado da associação Survie e o da ATTAC.

[9] La Dépêche, Lomé, 24 de Fevereiro de 2005.

[10] Emmanuel Anning, “Critique de la levée des sanctions de la Cédéao contre le Togo”, Angola Press, Luanda, 28 de Fevereiro de 2005.

[11] Panapress, 4 de Março de 2005.

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