Informação Alternativa

África

28/04/2006

 

Ruanda: A arquitectura de um massacre

 

Igor Ojeda

Brasil de Fato

 

No mês em que o massacre de cerca de um milhão de pessoas da etnia tutsi no Ruanda completa 12 anos, a entidade de direitos humanos Human Rights Watch (HRW) lança o relatório O Genocídio do Ruanda: como foi preparado.

 

Divulgado no dia 7, o documento expõe, com base em materiais que não haviam sido estudados anteriormente, a estratégia utilizada pelos hutus (no poder desde a chamada Revolução de 1959) para levarem a cabo o genocídio bem antes de ele acontecer.

 

O plano sustentava­‑se basicamente em dois pilares: a “demonização” da minoria tutsi e a arregimentação de civis hutus na “luta” contra o inimigo comum. O presidente ruandês, Juvenal Habyarimana, que havia subido ao poder em 1973, encontrava-se, desde o final da década de 1980, numa encruzilhada. Desde Outubro de 1990, a Frente Patriótica Ruandesa (RPF, na sigla em inglês) – guerrilha formada por filhos de tutsis refugiados da revolução de 1959 –, com base no vizinho Uganda, realizava ataques periódicos à fronteira, exigindo o direito de voltarem ao Ruanda e pretendendo o derrube do governo, considerado repressor.

 

Internamente, a oposição crescia, principalmente a de líderes políticos hutus. Habyarimana já não exercia um controle político tão forte, e a economia apresentava problemas. Pressionado, o presidente permitiu, em 1991, o estabelecimento do multipartidarismo, o que, segundo especialistas, ajudou a fortalecer a oposição.

 

O principal temor de Habyarimana e dos seus partidários era uma possível aliança entre a RPF e os oposicionistas. A solução encontrada para evitar tal união foi a de justamente eleger os tutsis como os inimigos comuns a serem enfrentados. Assim, entre 1990 e 1994, foi posta em marcha uma propaganda massiva em jornais e rádios contra estes.

 

TUTSIS = INIMIGO

 

Entre os documentos achados pela HRW logo após o genocídio, estão notas mimeografadas que resumiam técnicas de propaganda. Como diz o relatório da entidade, «um dos métodos descritos é o de persuadir a população que o oponente pretende usar o terror contra ela; e se o convencimento for feito com sucesso, ‘pessoas honestas’ irão tomar as medidas que acharem necessárias para sua legítima defesa».

 

Em Fevereiro de 1991, um oficial do Exército distribuiu um panfleto dizendo que a guerrilha planejava «um genocídio, o extermínio da maioria hutu». No final de 1992, mesmo após a assinatura de um acordo de paz entre guerrilha e governo, um oficial das Forças Armadas do Ruanda fez circular entre os seus comandados um relatório de uma comissão militar que examinava as maneiras de derrotar o adversário.

 

O documento, que por meio da imprensa se tornou bastante conhecido no país, caracterizava o inimigo principal como «os tutsis de dentro e de fora do país, extremistas e nostálgicos pelo poder, que nunca reconheceram e nunca reconhecerão as realidades da revolução social de 1959 e que desejam reconquistar o poder por todos os meios necessários, incluindo o uso de armas». O relatório usava várias vezes a palavra “tutsi” como equivalente de “inimigo” e dizia que estes estavam unidos por uma única ideologia: a hegemonia de sua etnia.

 

Assim, Habyarimana alcançou o seu objectivo. Uniu grande parte da população civil e dos antigos oposicionistas em torno do chamado Hutu Power. Todos contra a “ameaça” representada pelos tutsis. Com isso, impediu a temida aliança entre oposição e RPF e, como diz o relatório da HRW, conseguiu transformar um conflito nacional numa guerra étnica.

 

PREPARAÇÃO DOS CIVIS

 

A participação massiva dos civis no massacre tampouco foi obra do acaso. Desconfiados da capacidade do Exército ruandês de proteger o país da guerrilha, muitos passaram a defender a formação de uma força civil de autodefesa. Na agenda do coronel Theoneste Bagosora foram achadas anotações bem expressivas sobre o assunto.

 

Ele descrevia como deveriam ser feitos o treinamento e o armamento dos civis e que estes deveriam ser organizados em sectores, sempre sob as orientações de ex­‑soldados, militares da reserva e polícias.

 

No começo de 1994, foi produzido um documento, chamado Organização da autodefesa civil, que detalhou o plano e estabeleceu as tarefas de cada um no processo, enfatizando que a «resistência popular» deveria ser liderada por aqueles que «defendem o princípio da República e da democracia». O alvo: combatentes da RPF em uniforme, mas também aqueles «disfarçados». Ou seja, civis da etnia minoritária. «Ao procurar a eliminação dos tutsis, as autoridades ruandesas transformaram o sistema de autodefesa numa arma de genocídio», conclui o relatório da HRW.

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