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Abril 2005 Testemunho sobre os “anos
de chumbo” Noureddine
Belhouari A 25 de Dezembro de 2004,
num texto publicado pelo semanário marroquino Le Journal, Noureddine Belhouari
relata os efeitos sobre a sua família da repressão desencadeada no início da
década de 1980. Tudo começou em 1982. Os meus
irmãos Abdelillah e Mustapha, estudantes na Faculdade Cadi Ayyad em Marraquexe,
eram militantes da União Nacional dos Estudantes Marroquinos (UNEM). A meio
do ano, as visitas da polícia a nossa casa tornaram-se cada vez mais
insistentes. Em Novembro de 1983, Abdelillah foi preso, ainda que o alvo
fosse Mustapha, então dirigente nacional da referida organização estudantil.
Abdelillah foi rapidamente conduzido ao comissariado central de Gueliz e
colocado num gabinete no primeiro piso, onde em seguida teve início o
interrogatório. O chefe dos agentes policiais, Zahidi Youssef, revistou as suas
coisas, e as sevícias multiplicaram-se. Abdelillah recorda-se da
identidade dos seus torcionários. Os seus nomes são Zarghit e Sghir. Às 11 horas,
chegou o especialista na “matéria”, Salhi. O meu irmão perdeu nessa altura
uma parte das suas capacidades auditivas. No ano seguinte, Abdelillah foi
novamente interpelado. «Não te safas se não nos disseres onde está o teu
irmão e quais são as tuas relações com ele». Alguns dias mais tarde os meus
pais foram presos. Mustapha tomou conhecimento
do sucedido e apresentou-se ele próprio às forças da ordem. O comissário
Sebti transferiu‑o para Casablanca, para o centro de Derb Moulay
Cherif, onde foi prolongadamente torturado. Três meses depois veio o processo
de acusação e a sentença, que o condenou a dez anos de prisão. A polícia
regressou então ao meu bairro, para ocupar o terreno, o que levou as famílias
a unirem-se e a coordenarem os seus esforços. Foi então constituído um
movimento sem precedentes, tendo a luta ganho intensidade quando o primeiro grupo
de prisioneiros (chamado “grupo Belhouari”) iniciou uma greve de fome. A
pressão exercida pelas autoridades penitenciárias sobre os grevistas e a
perseguição que nos era movida cada vez que nos deslocávamos para distribuir
panfletos ou advertir a imprensa estrangeira aproximaram-nos da luta encetada
pelos prisioneiros grevistas. O meu irmão sucumbiu nesta greve, tendo as
sequelas de tortura a que foi sujeito em Derb Moulay Cherif e as atrozes
condições da sua detenção precipitado o seu fim. Até 1986, o meu pai foi submetido a interrogatórios regulares por parte do comissário Sebti, que procurava saber o que faziam os seus filhos, a maioria dos quais haviam partido para o estrangeiro. |