Informação Alternativa

África

28/09/2004

 

Mulheres: Dor em nome da castidade no Quénia

 

Joyce Mulama

IPS/Envolverde

 

Narok. Judy Santeyan, de 16 anos, e a sua irmã Dorcas Keiwa, de 14, foram obrigadas por oito adultos a submeterem­‑se à mutilação genital tradicional nessa localidade rural queniana. Agora, sofrem as gravíssimas consequências. Ambas choram ao recordar a experiência que sofreram no dia 30 de Agosto. Agora estão no não governamental Centro Tasaru de Resgate de Meninas em Narok, a cerca de 150 quilómetros de Nairobi, na província do Vale do Rift. O Centro cuidava de três meninas vítimas de mutilação genital no dia 23 de Setembro, quando a IPS visitou o local. Mas na temporada de férias escolares, quando essa prática aumenta, chega a abrigar 43 meninas.

 

Santeyan sofria fortes dores quando chegou ao Centro. Não podia sentar­‑se por causa dos ferimentos, descritos pelos médicos como graves e que podem ser corrigidos por uma cirurgia no futuro. A garota tem o olhar perdido, soluça e respira profundamente antes de começar a falar. «Naquela noite, a nossa mãe saiu para rezar. Deixou­‑nos com o nosso irmão de 18 anos, que nos acordou dizendo: Hoje é o dia. Vamos circuncizá­‑las e não quero ouvir nenhum barulho».

 

Há quatro anos, o irmão as havia ameaçado com a mutilação, mas elas fugiram para o Centro Tasaru, onde ficaram por dois anos, até que os dirigentes da instituição chegaram a um acordo com a família das meninas. O irmão não cumpriu a sua parte do trato. «Esbofeteou­‑me. Fugimos para a cozinha. Lá já estavam sentados oito vizinhos: cinco idosas e três homens da idade do meu irmão. As mulheres amarraram­‑me com cordas para que não me mexesse. Tentei resistir, mas bateram­‑me. Então, cortaram­‑me rudemente, e os meus pedidos para que parassem não adiantaram. Quanto tudo terminou, levaram­‑me para a cama, que ficou encharcada de sangue». Enquanto falava, Santeyan enxugava as lágrimas com um lenço.

 

Então, os agressores voltaram­‑se para Keiwa. «Quando vi como bateram em Santeyan, não tive outra escolha a não ser cooperar. A nossa mãe encontrou­‑nos quase mortas, sangrando. Levou­‑nos ao hospital e avisou as autoridades». As meninas foram mutiladas com instrumentos não esterilizados, num país onde dois milhões de pessoas vivem com o vírus HIV, causador da SIDA, segundo estatísticas oficiais. Mas apenas duas mulheres foram presas por esse brutal acto de violência. Depois, a polícia libertou­‑as mediante pagamento de fiança no valor de US$641, disse à IPS Agnes Pareyio, fundadora do Centro Tasaru. «Depositaram os títulos de propriedade das suas terras e recuperaram a liberdade, enquanto as meninas lutam para sobreviverem», afirmou Pareyio.

 

Trinta e oito por cento das quenianas foram submetidas à mutilação genital, segundo a ministra do Interior, Linach Kilimo. A Amnistia Internacional eleva essa proporção para 50%. Trata-se de uma prática generalizada em muitos países africanos, tanto no norte de predominância árabe como na região subsaariana. Segundo essa organização, também são submetidas a essa prática 98% das somalianas, entre 90% e 98% das mulheres do Djibuti, 97% das egípcias, entre 90% e 94% das mulheres do Mali, 90% da Eritréia e das etíopes, e 89% das sudanesas. Além delas, também sofreram essa intervenção entre 89% e 90% das mulheres da Serra Leoa, entre 60% e 90% das gambianas, 70% das habitantes de Burkina Faso, 60% das mulheres do Tchad e da Costa do Marfim, entre 50% e 60% das liberianas e metade das mulheres de Benin, República Centro­‑africana, Guiné Bissau e Nigéria, informou a Amnistia.

 

A brutal agressão contra Santeyan e Keiwa ocorreu pouco antes da realização de uma conferência internacional realizada no Quénia, entre 16 e 18 deste mês, que examinou a implementação do Protocolo de Maputo, que tem o objectivo de erradicar a mutilação genital feminina em toda a África. As mutilações aplicadas nesse continente vão desde a extirpação do prepúcio do clitóris — a variante menos grave — até à extirpação total ou parcial desse órgão, bem como dos pequenos e grandes lábios vaginais.

 

No Quénia, muitos a consideram um rito de passagem da infância para a idade adulta. Nesse país implica a remoção total ou parcial do clitóris e dos lábios vaginais, seguida da costura da vulva, às vezes utilizando instrumentos tocos, como espinhos. O comum é deixar um pequeno orifício para permitir a passagem da urina e do sangue menstrual. A cúpula da União Africana realizada em Maputo em Julho de 2002 adoptou a Carta de Direitos das Mulheres da África, que no artigo 5 proíbe e condena essa prática brutal.

 

Para que o Protocolo entre em vigor deve ser ratificado por, pelo menos, 15 dos 53 integrantes da UA. Mas no ano seguinte à sua aprovação, apenas Comoros, Líbia e Ruanda o ratificaram. A conferência em Nairobi, que contou com as presenças de 700 participantes de todo o mundo, decidiu pressionar os governos africanos para que consagrem a norma continental. A Lei Infantil aprovada no Quénia em 2001 proíbe a mutilação genital feminina de meninas com menos de 189 anos e prevê penas de prisão para quem viola a norma, que, de todo modo, não é cumprida.

 

Além disso, «a lei permite que uma mulher seja mutilada ao se casar, se não foi quando jovem. Precisamos de uma lei que proíba a mutilação em todas as idades», disse Agnes Yiapan, coordenadora da organização feminina Maendeleo Ya Wanawake (Mulheres em Desenvolvimento). A sociedade civil exige que o governo instale mecanismos para controlar o cumprimento da lei. De contrário, segundo os activistas, as boas intenções ficarão no papel. «Se o governo for sério na protecção das mulheres e meninas quenianas, deve enviar funcionários a campo para fazer com que todos cumpram a lei. Se isso tivesse sido feito, Santeyan e Keiwa não teriam sofrido o que sofreram», disse Yiapan.

 

A pobreza também contribui para a propagação dessa prática brutal. «A maioria das mulheres que fazem essas “circuncisões” mutilam tantas meninas quantas puderem para garantirem o seu sustento. Em Narok e áreas vizinhas, recebem cerca de US$13 por cada intervenção. Se a jovem tem 20 anos, o pagamento chega a aproximadamente US$250, disse Pareyio. No Quénia, 56% das mulheres vivem com menos de um dólar por dia, segundo números oficiais. O Centro Tasaru iniciou há dois meses um projecto­‑piloto que consiste em facilitar financiamento para as mutiladoras, a fim de se dedicarem a outros afazeres. «Desde então, cinco delas deixaram os seus instrumentos de lado», garantiu Pareyio.

­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­