Informação Alternativa

África

Março 2005

 

Advertência costa­‑marfinense à “Françáfrica”

 

Boubacar Boris Diop

La Monde diplomatique

 

Uma crise política eclodiu no Togo por ocasião do golpe de Estado que, com desprezo pela Constituição, levou ao poder, em 5 de Fevereiro, Faure Gnassingbé. Ela vem somar-se a uma outra que decorre na África Ocidental, a da Costa do Marfim, na qual Paris está implicada e é acusada devido às recentes actuações dos militares franceses da Operação “Licorne”. Lugar central e actor de relevo nas lutas pelo poder nas suas antigas colónias, a França é cada vez mais contestada nesses países.

 

Em conformidade com uma ideia muito difundida mas nunca formulada, a cultura da violência tem profundas raízes em África, preconceito esse que conduz em linha recta a uma leitura racial das lutas pelo poder no continente africano, invariavelmente encaradas como a expressão de ódios étnicos seculares. Não é por isso surpreendente que os media ocidentais continuem a relatar os graves conflitos ocorridos na Costa do Marfim com os seus estereótipos habituais. Segundo esses clichés, o chefe do Estado, Laurent Gbagbo, é um indivíduo violento e manhoso, ou mesmo delirante; em Abidjan, os revoltosos são bons “comunicadores” e os “jovens patriotas” massas vociferantes. Semanas depois de haver sido desencadeado a revolta, a 16 de Setembro de 2002, o ministro dos Negócios Estrangeiros francês, Dominique de Villepin, apresentou aos senadores do seu país a interpretação correspondente a tais lugares-comuns: «A crise em curso baseia-se em elementos tradicionais. O mosaico étnico e religioso que a Costa do Marfim constitui, em que se destaca uma clivagem Norte­‑Sul, encontra-se em crise desde o desaparecimento de Houphouët-Boigny». Em termos menos polidos, essa declaração poderia ser assim trocada em miúdos: “Minhas senhoras e meus senhores, na velha bagunça africana é sempre a mesma coisa”.

 

Por este andar, vem tudo a dar ao mesmo, tornando-se quase aceitável uma situação tão afrontosa – a divisão dum país importante e a legitimação duma revolta armada. Embora seja essencial denunciar os danos causados pelo discurso etnicista na Costa do Marfim [1], não devemos deixar que nos fascinem os seus efeitos, por mais espectaculares e condenáveis que estes se apresentem. Ocultar a dimensão “françafricana” de certos conflitos leva a um impasse ou ao ridículo. A Costa do Marfim não está na situação em que se encontra só porque os povos diolas e betés descobriram subitamente que já não podiam viver juntos. A haver um lugar central que explique a crise costa­‑marfinense, esse lugar é Paris.

 

Os interesses franceses na ex-colónia representam um terço dos investimentos estrangeiros e 30 por cento do produto interno bruto (PIB) [2]. Desde 1960, graças a contratos leoninos, as empresas francesas têm na Costa do Marfim uma grande quantidade de negócios, o que lhes permite repatriar 75 por cento da riqueza produzida neste país. Em 1994, o presidente Henri Konan Bédié, sucessor designado de Félix Houphouët­‑Boigny, tentou corrigir essas anomalias aplicando a retrocessão a contratos de exportação de café e cacau estabelecidos com gigantescas empresas norte­‑americanas e a uma licença de prospecção de petróleo concedida à companhia estadunidense Vanco: será destituído por um golpe de Estado, em finais de 1999.

 

Laurent Gbabo procura, ele também, aliviar a pressão que as empresas francesas exercem num país onde os transportes, a água, a electricidade e as vias de comunicação estão controlados por empresas como a Saur, a EDF, a Orange ou a Bouygues, sendo o sector bancário dominado pela Société Générale, o BNP e o Crédit Lyonnais. O novo poder, ao iniciar uma abertura dos mercados à concorrência internacional, ficou a saber que a Bouygues era menos competitiva, no tocante à construção da terceira ponte de Abidjan e ao aeroporto de São Pedro, do que os sul-africanos e os chineses, tendo a proposta apresentada por estes últimos sido até reforçada por uma componente de troca da edificação dessa ponte por fornecimentos de cacau. Complementarmente, a descoberta duma importante jazida de petróleo em Jacqueville, perto de Abidjan, não é coisa que contribua para baixar as tensões. As pressões sobre Gbagbo – suspeito de querer entender-se com os Estados Unidos – foram tão fortes que ele se viu obrigado a fazer marcha­‑atrás e confirmar alguns contratos franceses [3].

 

Muitos intelectuais africanos limitaram­‑se a fazer, por mimetismo, o processo do actual presidente da Costa do Marfim. É verdade que Gbagbo tornou este país um lugar perigoso para os opositores, os estrangeiros e os jornalistas. Em Março de 2004, uma marcha pacífica foi sanguinariamente reprimida, tendo o regime sido acusado pelas Nações Unidas de graves violações dos direitos humanos a propósito de 120 mortos oficialmente deplorados. A 4 de Novembro de 2004, num prelúdio aos ataques contra o quartel-general das Forças Novas em Bouaké, as sedes do Partido Democrático da Costa do Marfim (PDCI) e da União dos Republicanos (RDR) foram destruídas e incendiadas, tendo o mesmo acontecido a três jornais “mal-pensantes”; vários “esquadrões da morte” iniciaram um injustificável ciclo de execuções extrajudiciárias. Temos todavia a impressão de que em tudo isto há uma indignação selectiva. Tal como o presidente do Zimbabwe, Robert Mugabe, Laurent Gbagbo é apontado sobretudo por ter atacado os interesses dum país ocidental.

 

É certo que os motins de Novembro de 2004 não contribuíram positivamente para a sua política, mas por outro lado eles estão a mudar por completo o rosto do conflito. Em quarenta anos de associação pós­‑colonial, foi a primeira vez que as vidas de cidadãos franceses foram tão ameaçadas em África. Toda a gente se tinha habituado a ver os africanos matarem-se uns aos outros. A aflição de cidadãos comuns desembarcando em lágrimas no aeroporto francês de Roissy quase fez esquecer o facto de soldados franceses terem matado civis costa­‑marfinenses no seu próprio país; e o facto, também, de Jacques Chirac ter ordenado a destruição da aviação militar dum Estado soberano para tranquilizar 15.000 dos seus compatriotas e vingar a morte de 9 soldados franceses.

 

Em suma, mesmo os mais cépticos têm de reconhecer que o governo francês é um actor importante das lutas pelo poder nas suas antigas colónias. A França tinha o hábito de agir nos bastidores, mas os acontecimentos de Abidjan obrigaram­‑na a agir às claras. É lamentável que civis franceses, não responsáveis pela política do seu governo, tenham sido obrigados a pagar esta clarificação por tão elevado preço. Os africanos puderam nesta ocasião descobrir que o rei vai nu: uma forte presença militar no terreno não permitiu ao Estado francês garantir a segurança dos cidadãos franceses no seu “domínio reservado”; além disso, forçado a uma posição defensiva, atolou-se em contestações pouco convincentes.

PARIS NA POSIÇÃO DE ACUSADA

 

Na sua audiência no Senado, a 4 de Outubro de 2002, Dominique de Villepin admitiu discretamente que os revoltosos terão beneficiado de apoios externos. «A situação», declarou ele, «evoluiu de tal maneira que se levantaram interrogações a respeito de eventuais cumplicidades ou apoios externos». Naturalmente, quando se trata da “Françáfrica”, um ministro francês dos Negócios Estrangeiros sabe do que está a falar. Cada palavra tem o seu peso. Mas também o tem cada silêncio; porque o ministro esqueceu-se de acrescentar que o seu país é grandemente suspeito de ter financiado a rebelião. E a França, até aqui soberana na “sua” África, viu-se na posição de acusada.

 

Os breves recontros ocorridos em 7 de Novembro de 2004 entre as FANCI (Forças Armadas Nacionais da Costa do Marfim) e soldados da Operação “Licorne” não tiveram interesse militar, mas seria imprudente subestimar a sua importância simbólica. Já antes desses motins, e apesar de actuar em nome da ONU, o destacamento “Licorne” era visto como uma força de ocupação. Isso viu-se perfeitamente na brutalidade da resposta, que funcionou como um sinal, inclusive para os outros “Estados clientes” do seu “domínio privado”. O peso da história pode com muita facilidade dar aos seus jovens soldados a impressão de estarem aquartelados no meio de um povo qualquer que o Império tem a missão de submeter. Embora os chefes de Estado africanos – todos grandes democratas, como é sobejamente conhecido – se tenham alinhado sem tardança pelas posições do governo francês, em diversos países francófonos houve uma condenação enérgica daquilo que estava a começar a ser uma sangrenta expedição colonial.

 

Logo em Janeiro de 2003, o Fórum Social Africano de Adis­‑Abeba lançou a seguinte advertência: «Caso persista na sua actual lógica imperial, a França pode vir a multiplicar nos próximos anos intervenções militares no continente africano. Os africanos não o permitirão. À luz do genocídio ruandês de 1994, da guerra civil do Congo em 1997 e dos conflitos em curso na República Centro-Africana e na Costa do Marfin, é urgente que os Estados africanos francófonos reavaliem as suas relações com a antiga potência colonial».

 

A feição que a crise costa-marfinense tomou pode incitar os eleitores franceses a perguntar a quem de direito: o que está o nosso exército a fazer na Costa do Marfim? Porque, embora seja risível, a habitual resposta das autoridades francesas é aceite por uma sociedade pronta a engolir, a respeito deste assunto, as explicações já cozinhadas pelos seus dirigentes. O francês médio parece estar convencido de que 3.800 dos seus soldados se encontram na Costa do Marfim por motivos puramente éticos e que sem eles, segundo pudemos ouvir aqui e ali, uma gente que facilmente saca da catana já há muito teria destruído o seu próprio país. Chega­‑se até a invocar o precedente ruandês, pondo assim no olvido as responsabilidades da França no genocídio de 1994 [4].

 

A Costa do Marfim tem para o governo francês – e para algumas multinacionais – uma importância decisiva. Não é por amor à paz que os elementos do destacamento militar “Licorne” são ali o triplo dos que se encontram na Comunidade Económica para o Desenvolvimento dos Estados da África Ocidental (CEDEAO). Esta força é excessivamente numerosa e dispõe de demasiado equipamento apenas para proteger uns milhares de pessoas, cujo repatriamento massivo foi curiosamente posto de lado desde o início da crise. É essencial que Paris continue ali a dar cartas, mesmo que isso signifique o sacrifício de algumas vítimas francesas.

 

Na realidade, os governos franceses, tanto de esquerda como de direita, tiveram sempre as mãos livres no ex­‑império colonial. Daí os assassinatos políticos bem seleccionados, o saque organizado dos recursos económicos de numerosos Estados e o apoio a ditaduras sanguinárias. Até agora, tudo isso se fazia na sombra, mas o tiroteio de Novembro de 2004 já ocorreu às claras.

 

Em menos de um ano, a França foi publicamente posta em causa, nos termos mais virulentos, pelo presidente ruandês Paul Kagamé e por Laurent Gbagbo. Não é por acaso. No que diz respeito à Costa do Marfim, desde há muito que diversos sinais deveriam ter sido correctamente interpretados. O sentimento antifrancês não surgiu ali, de repente, em Novembro de 2004. O Liceu Jean Mermoz e o Centro Cultural Francês foram destruídos uma primeira vez em Maio de 2004; um jornalista da RFI (Radio France Internationale), Jean Hélène, foi assassinado no dia 21 de Outubro de 2003, continuando um outro jornalista francês, Guy-André Kieffer, a ser dado como desaparecido desde 16 de Abril de 2004; e a Embaixada de França e o 43º BIMA (Batalhão de Infantaria da Marinha) estiveram várias vezes cercados.

 

Tudo isso teve origem nos acordos assinados em Linas-Marcoussis a 24 de Janeiro de 2003. Pelo menos formalmente, o governo francês deu provas duma arrogância inominável. Por que motivo terá ele reunido toda a classe política e todo o aparelho de Estado dum país soberano num ginásio da periferia de Paris e destacado para dirigir os trabalhos desse encontro um simples funcionário público parisiense? Que chefe de Estado com um mínimo de orgulho poderia aceitar a nomeação fora do território nacional de um primeiro­‑ministro, Seydou Diarra, apesar de este ser considerado neutro e respeitado, e a imposição de chefes duma rebelião armada à frente de ministérios como a Defesa e o Interior?

 

Depois disso, as coisas evoluíram de mal para pior. O desprezo pelo sentimento nacional costa­‑marfinense fez multiplicar as inabilidades e foi possível ouvir Dominique de Villepin declarar o seguinte à saída de um encontro com Gbagbo: «Pedi ao presidente que expulsasse os mercenários e imobilizasse os seus aviões em terra». Ou, no resumo desenvolto de um jornalista: «De Villepin foi a Abidjan puxar as orelhas a Gbagbo».

 

O resultado destas provocações é desastroso. Os franceses da Costa do Marfim estão reduzidos a perguntar­‑se o porquê de tudo isto. Ser-lhes-á difícil habituarem-se à ideia de viver com o medo no ventre na sua segunda pátria. Depois da comoção dos primeiros momentos, em França estão já um pouco esquecidos e serão talvez sacrificados no altar do realismo. Em tempos “normais”, Gbagbo teria sido liquidado ou posto fora do poder por um golpe bem cozinhado. Mas actualmente uma tal operação é arriscada. Quererá isso dizer que os tumultos de Abidjan são o toque a finados da “Françáfrica”? Muito ingénuo seria imaginá­‑lo. Mas seria também um erro ver nesses tumultos um mero acidente isolado. Tais motins poderão ocorrer de novo, em muitas das antigas colónias francesas.

 

Em África, está a aumentar o exaspero, com que o presidente costa-marfinense soube jogar. Gbagbo não é homem que nos faça sonhar e ninguém o tomará por um Thomas Sankara ou um Patrice Lumumba. De resto, tem sem dúvida também contra ele o facto de ter sido um presidente mal eleito. Mas o seu calcanhar de Aquiles é o clima de uma xenofobia encorajada, que falseia uma leitura política do conflito. Se de facto houver uma vontade real de ruptura com o modelo neocolonial, é essencial, para a credibilidade de Laurent Gbagbo, que sejam saldadas, com audácia e definitivamente, as contas da “identidade costa-marfinense”: o pan­‑africanismo de Kwame Nkrumah e de Cheikh Anta Diop é acima de tudo um humanismo.

 

Muitos são os marfinenses que não serão convencidos de que o seu presidente seja um herói romântico destinado a trazer-lhes a liberdade, pois estão confrontados com um político astuto, obstinado e por vezes expeditivo. Mas Gbagbo só pôde virar a situação em seu favor por se ter mostrado mais corajoso do que a maioria dos seus pares. A Costa do Marfim já não é um território do ultramar; é um país atacado por homens armados. Não se pode criticar o seu presidente por desejar fazê-los regressar à estrita legalidade republicana. No seu lugar, qualquer um teria exigido o desarmamento dos rebeldes.

 

Na medida em que Gbagbo está no seu direito, o exercício da sua constante diabolização esbarra com limitações. Além disso, é legítimo duvidar da autoridade moral dos seus censores, que não parecem muito afectados pela implicação do seu país no genocídio ruandês. Onze anos depois do Ruanda, Abidjan e Bouaké foram sangrentos teatros de operações para o exército francês. Há quem opte por tratar este escândalo como um simples caso do dia, embora de grandes dimensões. O facto de muita gente não querer encarar a realidade é aliás simbolizado pela ausência de imagens da “limpeza” operada na capital costa­‑marfinense pelos militares do destacamento “Licorne”. Essas cenas, que não foram vistas em Paris, nunca serão esquecidas pelos costa­‑marfinenses. Mesmo na “Françáfrica”, pode ter chegado ao fim o tempo do crime perfeito.

 

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* Escritor senegalês, autor de Doomi golo, Ed. Papyrus, Dacar, 2004.

 

[1] Colette Braeckman, La grande fatigue des ivoiriens,  Le Monde diplomatique, Setembro de 2004.

[2] Bernard Ahua, “La France se taille la part du lion dans l’économie ivoirienne”, Manière de voir n.º 79, Résistances africaines, Janeiro­‑Fevereiro de 2005.

[3] Com a Bouygues, para a renovação da terminal de contentores do porto de Abidjan, e com a Sociedade de Distribuição de Água, filial da Saur, para a concessão, até 2007, do fornecimento de água potável.

[4] Laure Coret e François-Xavier Verschave (coord.), L’État français et le génocide au Rwanda, Karthala, Paris, 2005.