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03/01/2006 Emad Mekay Organizações árabes e do Oriente Médio acusam o
escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR)
de ter colaborado com uma operação policial que causou a morte de pelo menos
25 refugiados sudaneses numa praça central do Cairo, na última sexta-feira.
Os refugiados, inclusive mulheres e crianças, acampavam num parque do
distrito Mohandiseen há três meses em protesto pelo mau tratamento recebido
de parte do ACNUR e exigiam ser imediatamente levados para um terceiro país,
como lhes haviam prometido. Mas no entardecer da sexta-feira, uma força
policial de aproximadamente quatro mil efectivos cercou o acampamento dos
sudaneses. Os policiais lançaram fortes jactos de água e bateram
indiscriminadamente. Centenas de pessoas foram arrastadas até aos autocarros
e levadas para quartéis e outros destinos desconhecidos. O enfrentamento
deixou 25 mortos. Organizações civis egípcias condenaram o uso da
força, numa declaração na qual se referem ao episódio como «um massacre» e «um
verdadeiro crime cometido pelas forças de segurança egípcias com a
colaboração do ACNUR contra refugiados desarmados, na sua maioria mulheres,
crianças e velhos». Entre as organizações denunciantes estavam a Rede Árabe
para a Informação sobre direitos humanos, o Grupo Egípcio Anti‑Globalização,
o Centro el Nadim, para Reabilitação das Vítimas da Tortura e o Centro de
Estudos Socialistas do Cairo. Aproximadamente 2.500 refugiados sudaneses que
escaparam da guerra civil no seu país estavam acampados numa praça da capital
do Egipto desde o dia 29 de Setembro, e afirmavam que não sairiam enquanto o
ACNUR não concordasse em enviá-los para algum país da Europa, segundo o
estabelecido. A violência com que foram tratados pela polícia egípcia
provocou a firme condenação por parte de intelectuais árabes bem como de
diferentes organizações civis e grupos defensores dos direitos humanos. As
autoridades egípcias afirmam que agiram em consulta com o ACNUR e diplomatas
sudaneses no Cairo. Porém, organizações defensoras dos direitos
humanos, árabes e egípcias, respondem que o uso da força foi absolutamente
desnecessário e que a situação poderia ser resolvida conversando com os
líderes dos refugiados. Estas organizações estão a somar forças para
estabelecer um comité independente que investigue o ocorrido e para persuadir
os refugiados a abrirem um processo contra «os crimes cometidos contra eles e
contra as violações dos direitos humanos que sofreram às mãos do governo do
Egipto e do ACNUR». Os activistas também exigiram visitar os acampamentos
para onde os refugiados foram levados para dar‑lhes assistência médica
e legal necessárias. De Genebra, o ACNUR disse que os refugiados não se
estavam a manifestar contra essa agência da ONU, mas que se haviam reunido «primariamente
para protestar contra as suas condições de vida e para exigir a transferência
para terceiros países». O ACNUR também informou que ao longo desta crise, que
já dura três meses, manteve um diálogo constante, realizou esforços de
mediação e sempre afirmou que a situação deveria ser resolvida de forma
pacífica. «Não há nenhuma justificação para esta violência e estas vidas
perdidas», disse no seu escritório em Genebra o alto comissariado, António Guterres,
que assumiu o cargo em Junho de 2005. Porém, o governo do Egipto respondeu às
afirmações de Guterres dizendo que essa agência havia pedido à polícia que
interviesse para pôr fim aos protestos que vinham acontecendo diante dos
escritórios do ACNUR no Cairo. A Organização Egípcia para os Direitos
Humanos, uma das maiores e mais antigas da região, disse numa declaração em
árabe que o ACNUR tinha uma parte de culpa. O ACNUR – a principal entidade
que cuida de refugiados no mundo – «burocratizou e permitiu que a tragédia
dos refugiados sudaneses se estendesse por muito tempo», disse a organização
egípcia. É responsabilidade do ACNUR garantir a segurança
dos refugiados em primeiro lugar, mas simplesmente abandonou aqueles que
devia proteger, expondo-os à possibilidade de serem expulsos do Egipto,
sugeriu a entidade. Outras organizações internacionais de direitos humanos,
como a Human Rights Watch, com sede em Nova York, preferiram destacar o papel
do governo do Cairo e não mencionaram o papel desempenhado pela agência da
ONU ou pelos diplomatas do Sudão no massacre. «O alto preço em vidas humanas
sugere que a polícia agiu com extrema brutalidade», disse Joseph Stork, director-executivo
em funções da Divisão para o Médio Oriente do HRW. «Uma força policial que
agisse de maneira responsável não teria permitido tamanha tragédia»,
acrescentou. A HRW também afirmou que o evidente planejamento
da operação para desalojar completamente o parque do distrito de Mohandiseen
demonstrou que a polícia havia agido com base numa decisão política tomada no
mais alto nível. Como os seus pares árabes e do Oriente Médio, a Human Rights
Watch exige uma investigação nacional que verifique todos os extractos do
comando policial, incluindo o ministro do interior do Egipto, Habib al‑Adli.
«Os caminhos ainda estão manchados de sangue, e o governo do Cairo já culpa os
refugiados e os imigrantes sudaneses. Uma investigação independente é
absolutamente imprescindível para estabelecer as responsabilidades e castigar
os responsáveis», disse Stork. |