Informação Alternativa

África

31/10/2005

 

Níger: verdadeira crise, falsas respostas

 

Claude Quémar *

CADTM

 

Após o silêncio, o Níger apareceu há alguns meses no topo da actualidade mundial. Kofi Annan, Louis Michel, Bernard Kouchner e Philippe Douste Blazy, todos queriam ser vistos e sobretudo filmados dando a sua contribuição para a luta contra a “fome” que toca certas regiões deste país saheliano. Esta crise alimentar e o seu tratamento pelo próprio governo nigeriano, pela ONU e as suas agências, pelos financiadores de fundos e pelas ONG merece que tentemos compreender o que está em jogo e as verdadeiras causas.

 

UMA CRISE ANUNCIADA

 

O caso começa no final de 2004. O resultado da colheita de painço e de sorgo apresenta um défice de 223.000 toneladas num total de mais de 3 milhões de toneladas nos últimos anos, ou seja, cerca de 7,5%. A colheita de 2004 é uma das piores de toda a história do país em quantidade. Este défice teria podido ser paliado por um aumento de 3% das importações de cereais.

 

A fraca pluviometria e a invasão de gafanhotos são dadas como causa de uma crise alimentar anunciada. A invasão dos gafanhotos teria destruído o que teria despontado apesar da paragem avançada das chuvas de inverno. O défice mais sensível refere-se à forragem para os animais (menos 4,6 milhões de toneladas).

 

Esta invasão tinha sido anunciada bem a montante. O governo de Tandja tinha então declarado poder fazer face com quantidades suficientes de produtos insecticidas. Quando os gafanhotos chegaram, os tratamentos prometidos eram insuficientes e os aviões para os pulverizar... ausentes.

 

Desde o Outono, o país sabia pois que o inverno de 2005 seria difícil. E é aí que uma das causas reais da crise actual intervém. Os comerciantes, frequentemente aliados do poder existente, conservaram as suas reservas, compradas a baixos preços, esperando um aumento dos preços que inevitavelmente se produziria. Ou, no pior, venderam­‑nas à Nigéria vizinha que conhece um poder de compra mais importante. Estima­‑se em 13.000 toneladas a quantidade de painço remanescente nos hangares só da cidade de Maradi. No ano passado, o saco de painço de 100 Kg, a base da alimentação nigeriana, vendia-se entre 8.000 e 12.000 francos CFA (de 12 a 18 euros). No coração do verão, subiu até 30.000, ou mesmo 35.000 francos CFA (45 a 50 euros). Recordemos que salário mínimo, que só diz respeito a uma minoria da população, se eleva a 20.000 francos CFA. 63% da população vive sob o limiar de grande pobreza (menos de 1 dólar por dia).

 

As bancas de Maradi, o coração agrícola do país, eram e são ainda fornecidas em cereais, amendoins, aves de capoeira que saem dos stocks. O que falta, são os meios para comprá-los a tais preços nas zonas agro­‑pastorais (Maradi, Zinder, Tahoua, Tillaberi em particular). Nestas zonas, o aumento dos preços dos produtos básicos junta-se à queda do preço do gado.

 

Os criadores Peuls e Tuaregues descem com efeito, após o inverno, para as zonas de cultura para aí fazer pastar as suas manadas. Os agricultores deixam-lhes os caules de painço e de sorgo. A brevidade da estação das chuvas em 2004 e os estragos causados pelos gafanhotos pesam então sobre eles: os animais não puderam alimentar-se como geralmente. As manadas serão dizimadas, por vezes até 90%. Daí decorre uma baixa do preço dos animais. Tradicionalmente, uma bela novilha vende-se a 85.000 francos CFA (130 euros), o que permite comprar 5 sacos de painço e ter o tempo da “soldadura” entre as duas colheitas. Este ano, o estado dos animais provocou uma queda do seu preço de venda: 5.000 francos CFA por vezes para um animal descarnado, o que mal permite comprar uma medida de painço (um tia).

 

É pois bem a uma crise do sistema de distribuição que assistimos, não tanto a uma crise de produção. A segurança alimentar no Níger foi deixada há anos nas mãos dos comerciantes, em paralelo à instauração de políticas liberais. A explicação pelos fenómenos naturais ou pela fatalidade permite cobrir estas contradições.

 

UM GOVERNO INCAPAZ DE FAZER FACE

 

Embora o alerta tenha sido lançado desde o Outono de 2004, o governo nigeriano, ocupado com as eleições presidenciais de Dezembro, reagiu tardiamente. Pediu então uma ajuda ao programa alimentar mundial (PMA) de 78.000 toneladas de cereais. Menos de 10.000 chegarão ao destino. O tsunami no sudeste asiático ocupou o lugar na actualidade humanitária com o eco que sabemos, e depois o Darfur. Em Fevereiro, o PMA lançou um apelo de fundos para 400.000 pessoas, ou seja, cerca de 3 milhões de dólares. Nada chegou antes de Maio. Em Agosto, um novo apelo foi lançado, desta vez para 3,6 milhões de pessoas, ou seja, 57 milhões de dólares. Chegarão 28 milhões, mas após a divulgação pela BBC de imagens de crianças esfomeadas. E a máquina mediática foi embalada...

 

Depois das crises alimentares dos anos 70, o Níger erigiu mecanismos de segurança que se vão mostrar desta vez insuficientes e mal aplicados. Cerca de 40.000 toneladas de reservas vão ser vendidas a preços reduzidos no âmbito de programas “alimentos por trabalho” ou “alimentos por formação”, programas financiados pela USAID e pelos principais financiadores europeus. A 10.000 francos CFA o saco, muitas famílias reencontram­‑se condenadas a comer folhas de tafasa vindas da Nigéria ou a disputar termiteiras. O embaixador da França apoia fortemente estas iniciativas que teriam a vantagem de não “desestabilizar os marcados”, como se as especulações dos grandes comerciantes não existissem.

 

Michael Hess, administrador da USAID, irá ao ponto de declarar cinicamente: «Mesmo que haja uma boa colheita, as dificuldades persistem devido ao mau hábito dos camponeses que vendem a baixos preços uma parte da sua produção após as colheitas, enquanto são obrigados a endividar-se para tornar a comprar os mesmos cereais durante o período de soldadura».

 

A ONG Médicos Sem fronteiras (MSF), que intervém há anos no Níger, criticará violentamente esta política. Acusa o programa do PMA de alcançar apenas 10% da população necessitada e de não responder às necessidades das principais vítimas, as crianças de tenra idade. São com efeito os bebés de seis meses a três anos que morrem, com falta de farinhas especializadas. Thierry Allafort-Duverger, responsável das urgências da MSF, declarará ao Libération: «Nada foi feito pelas Nações Unidas para orientar as populações em maior risco. As zonas actualmente orientadas são identificadas unicamente em função dos seus problemas de seca e das devastações feitas sobre as colheitas pelos gafanhotos, enquanto a leitura do drama, sobre o terreno, é muito mais extensa do que isso... A demografia galopante, as dificuldades financeiras devem igualmente ser tidas em conta».

 

De acordo com a MSF, em 2002, 2003 e 2004, o número de crianças tratadas por desnutrição cada mês em Maradi era em média de 500. Desde Janeiro de 2005, este número aumentou para mais de 1.000 crianças por mês.

 

As dificuldades financeiras das famílias mais frágeis são agravadas pela adopção em Janeiro de 2005 de um IVA de 19% sobre o leite, a farinha, o açúcar e os baixos consumos de água e de electricidade. Tratava-se de uma condição a preencher para poder beneficiar da ajuda orçamental atribuída pelo Fundo Monetário Internacional (FMI). Esta lei orçamental rectificativa vai mobilizar os movimentos sociais e sindicais do país. Mais de 100.000 pessoas se manifestarão em Niamey no dia 15 de Março; vários “dias cidade morta” serão organizados. A repressão contra os organizadores não dará em nada, e o governo terá de recuar. Só o açúcar mantém um IVA de 19% e a água e a electricidade vêem aumentar os consumos tocados por esta implementação. O governo, a fim de encher os seus cofres, cria uma taxa sobre a propriedade fundiária, o que era supostamente impossível algumas semanas antes. O presidente Mamadou Tandja vai respirar o calor e o frio. Em Junho de 2004, aquando da sua visita aos Estados Unidos, declarou: «Se alguém quer ajudar o Níger, nós aceitamos. Mas se o doador ou os jornalistas demasiado tagarelas do seu país devem mostrar imagens de crianças que sofrem de desnutrição, passeá­‑las no mundo e fazer uma campanha nefasta e perniciosa contra a imagem do Níger, isso, não o aceitaremos».

 

Irá mesmo mais longe no início de Agosto, negando a crise frente aos microfones da BBC: «O povo do Níger tem o ar bem nutrido, como pode vê-lo».

 

O poder não gosta que se fale desta crise. O primeiro jornal a ter falado é um órgão governamental, Sahel Dimanche, desde o mês de Abril. A redactora­‑chefe do jornal, Tchirgni Maïmouna, autora da reportagem, foi destituída das suas funções e posta em licença de funções por três meses. Uma enviada especial da RFI foi denunciada na cadeia de televisão pública pelas suas reportagens em Maradi. O governador da região de Agadez apresentou queixa contra um jornalista de uma rádio independente depois deste o ter acusado de ter distribuído alimentos aos responsáveis administrativos e habituais da região. A corrupção é no entanto de notoriedade pública no Níger. Desde o Outono de 2004, a região de Tillaberi, feudo do partido presidencial, viu chegar os primeiros stocks de cereais.

 

UMA CRISE ESTRUTURAL DE RAÍZES SOCIAIS

 

Em tempo normal, a desnutrição, moderada e severa, atinge um terço das crianças. A mortalidade materna continua a ser muito elevada, com 1.600 falecimentos para 100.000 nascimentos. Uma criança em cinco não chega à idade de cinco anos. Por si só, o paludismo é responsável por 30% das consultas ambulatórias e 50% dos falecimentos entre as crianças com menos de 5 anos.

 

Com uma esperança de vida de 46 anos, uma taxa de escolarização primária de 40% e um analfabetismo de 83%, o Níger situa-se em penúltimo lugar na classificação de desenvolvimento humano do PNUD.

 

A seca, a nuvem de gafanhotos peregrinos e a indiferença, inicial, da comunidade internacional, explicam em parte a grave crise alimentar que golpeia o Níger este ano. Mas os efeitos sociais das políticas de ajustamento estrutural efectuadas desde há 20 anos criaram uma situação de precariedade social extrema. O serviço da dívida representa 30% das despesas do Estado. Os orçamentos sociais atingem dificilmente 20%. O país é considerado como um aluno exemplar das instituições financeiras internacionais e a esse respeito pôde “beneficiar” da iniciativa Países Pobres Muito Endividados (PPME) adoptada pelo FMI e pelo Banco Mundial. A esse título, o país devia beneficiar de redução da sua dívida externa pública. O resultado, por trás dos efeitos de anúncio, é claro: o Níger viu o serviço da sua dívida passar de 26 milhões de dólares em 2003 para 28,8 em 2004 e 29 milhões de dólares em 2005 (fonte: UNCTAD, Endettement viable, oasis ou mirage? [Dívida viável, oasis ou miragem?]).

 

O preço social a pagar por tão pobre resultado é colossal. As “condicionalidades” impostas pelas IFI pesam directamente sobre as condições de vida das populações. As privatizações traduziram-se em malogros retumbantes. As telecomunicações, vendidas a um grupo chinês, não viram nenhum investimento. A água, vendida à Vivendi em particular, só corre algumas horas por dia e pode-se ver nas ruas crianças a fazer fila durante horas em frente às fontes públicas. Mas a sua presença na escola não é mais desejada durante este tempo. Os financiadores impuseram uma diminuição dos orçamentos sociais, o que se traduziu na saída para a reforma de 75% dos professores, substituídos por “voluntários da educação”, sem formação pedagógica, mal pagos e constrangidos ao silêncio.

 

Jean Ziegler, relator da ONU para a alimentação, vai ao ponto de acusar o FMI por ter imposto uma redução das reservas de emergência de cereais.

 

O órgão de informação da ONU, o IRIN, levanta o problema de fundo num dos seus comunicados de Agosto de 2005: «Em todo o Níger, os sistemas agro­‑pastorais permanecem inalterados desde há séculos, apesar da mudança climática e de uma desertificação cada vez mais rápida. Os poucos serviços médicos disponíveis, a ausência de um sistema educativo para as crianças, e o estatuto tradicional da mulher não fazem mais do que somar­‑se à desastrosa condição dos nigerianos». Se não se trata de negar as modificações ligadas à diminuição das precipitações médias ou aos riscos naturais, os seus efeitos encontram-se muito amplamente agravados pelas políticas conduzidas desde o envolvimento directo das IFI no Níger. O primeiro plano de ajustamento estrutural, em 1983, impôs assim o abandono da ajuda do Estado aos agricultores. Na incapacidade de comprar materiais e insumos necessários para aumentar os rendimentos, são confrontados ademais com um controlo deficiente da água. A debilidade dos rendimentos impôs nas últimas décadas um aumento sensível das terras cultivadas, donde uma degradação dos solos e um desperdício dos fracos recursos aquáticos. Para sair desta espiral infernal que verá novas crises alimentares anuais, estas silenciosas, os movimentos sociais nigerianos, as organizações campesinas exigem que os recursos do país sejam voltados para a satisfação das necessidades da população. A anulação incondicional da dívida externa do país libertará meios que poderão ser utilizados nisso: ajuda aos agricultores para aumentar os seus rendimentos, política de irrigação, políticas de saúde e educativas ao serviço das populações. As mobilizações sociais que impuseram o abandono do projecto de IVA sobre os produtos de primeira necessidade, que impuseram a distribuição gratuita de cereais às populações mais atingidas, podem fazer nascer a esperança de ver o Níger romper com as políticas criminosas conduzidas há décadas pelas instituições financeiras internacionais e pelos seus aliados locais.

 

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* Claude Quemar é secretário­ geral do CADTM França.