Informação Alternativa

África

16/06/2005

 

Exploração sustenta indústria de pneus

 

Carmine Curci

Brasil de Fato

 

Um grande cartaz, com o logotipo da transnacional, dá boas-vindas a quem chega às porteiras da plantação. A poucos metros de distância, num posto da Organização das Nações Unidas com pessoal nigeriano, um militar com metralhadora pesada controla o movimento de pessoas. Do outro lado da estrada, um carro blindado branco está pronto para qualquer eventualidade. Um segundo cartaz obriga os carros a parar e os passageiros a prosseguir a pé. Passa-se pela vigilância da polícia liberiana, depois pela da nigeriana. Ultrapassada a cancela, percorre-se uma estrada arborizada até Harbel City, bem no meio da plantação, e eis a empresa Firestone.


Está aqui desde 1926, isto é, desde quando Harvey S. Firestone, fundador da fábrica de pneus, decidiu tornar os Estados Unidos independentes da produção britânica e holandesa de borracha e assinou com o governo liberiano um acordo para a concessão de um milhão de acres de terreno, durante 99 anos (prorrogáveis), a um custo irrisório. As árvores – da espécie Hevea brasiliensis – foram importadas do Brasil.


Desde então, a companhia, absorvida pela Bridgestone em 1988, exportou da Libéria milhões de toneladas de caucho, mas jamais implantou no país um estabelecimento para produção de borracha e derivados. A Libéria é hoje o terceiro produtor mundial de caucho, depois da Tailândia e da Malásia – mas não produz um único objecto de borracha.


São 20 mil os trabalhadores na Firestone Rubber Plantation, 14 mil fixos, 6 mil sazonais. Um deles, Joseph Wolo, conta a jornada típica de quem extrai o látex: «Começamos às 4 horas e vamos até às 16 horas. Fazemos incisões nas árvores, aplicamos os baldes e, quando estão cheios, os esvaziamos e limpamos. Depois, aplicamos estimulantes e fungicidas nas incisões, para forçar as plantas a produzir outro látex, fazemos outras incisões e assim por diante». Um trabalhador chega a lidar com 850 árvores por dia. O contrato é de 3 dólares por dia. Mas, tirados os impostos e outros descontos, ficam com 1,5 dólares. São os operários que pagam mais impostos no país. Para aumentar a produção, a companhia introduziu uma espécie de “prémio por produção”. Que vai, sobretudo, para os superintendentes – autores de estratégias que se traduzem em maior exploração dos operários. Querem o dobro do trabalho: até 1,5 mil árvores por dia. «Somos obrigados a pedir a ajuda da família, inclusive dos filhos menores. É um verdadeiro sistema de escravidão, que nos torna servos dos campos. Se você diz não, é mandado embora da plantação. E sempre há outro desesperado como você, disposto a aceitar essas condições. Até mesmo a receber somente meia jornada, se você não consegue completar o número estabelecido de árvores», revela Wolo.

 

MORADIAS PRECÁRIAS

 

Moises Hoff, há 30 anos na Firestone, está às vésperas da aposentadoria: «Vou receber uns miseráveis 20 dólares por mês. Se pelo menos recebesse logo! Mas não, devo esperar muito tempo. O mesmo vale para a indemnização por demissão. Alguns colegas estão à espera há mais de um ano». Sentado à porta da casa, ele tem o rosto voltado para o chão. Os olhos semicerrados estão como que inflamados: «Trabalhei com substâncias químicas e os meus olhos sofreram graves danos. Mas tive mais sorte do que outros, que perderam a visão. Não recebem nenhuma compensação, nem da companhia, nem do Estado, embora tenham dado muitas contribuições». As moradias reservadas aos trabalhadores e suas famílias são precárias: um só cómodo, em condições deploráveis. «E aqui moramos quatro pessoas, até oito», diz Hoff, mostrando a mulher e os filhos.


Em Harbei Hills – há uma barreira para atravessar – as residências destinadas aos dirigentes da Firestone são luxuosíssimas: electricidade, água corrente, parabólicas. Há até um campo de golfe e várias quadras de ténis. Henry Nyanti, electricista, está a trabalhar num transformador: «Graças à central hidroeléctrica, a companhia produz cerca de 1,5 milhões de quilowatts por mês». Nenhum quilowatt para os operários, mas mesmo assim as crianças vigiam os postes.


Nas 45 partes em que está subdividida a plantação, há dez escolas elementares e quatro escolas médias. Jennifer Taweh, mãe de quatro meninos, diz: «Os nossos filhos têm de caminhar 7 quilómetros para chegar à escola. Mas o que mais me dá raiva é que sempre falta material didáctico. As classes estão superlotadas. E, assim, nós, os pais, somos obrigados a construir cabanas de palha para acomodar os alunos. Anna, a sua vizinha, acrescenta: «Obviamente, isso vale só para os filhos dos operários. Para os dos dirigentes, as classes são bonitas e bem construídas. Antes da guerra civil, para eles havia inclusive autocarros escolares». Não há nenhuma escola superior na plantação. Terminada a escola média, 90% dos filhos dos operários permanecem na plantação.

 

DEGRADAÇÃO AMBIENTAL


Há um forte cheiro acre dentro da plantação. O estabelecimento emite grande quantidade de fumaça e a concentração de dióxido de carbono no ar é, com certeza, elevada. Os resíduos do processamento da borracha são lançados no rio Farmington. Em Monróvia, os responsáveis pela organização não­‑governamental (ONG) ambientalista Save my Future asseguram: «A Firestone polui o Farmington com os resíduos da seu grande maquinaria de centrifugação e outras. Demonstrámos que no rio são lançados ácido sulfúrico, amoníaco, formaldeído e outras substâncias tóxicas. É impossível beber a água. É grande a mortandade dos peixes».


A companhia nega as acusações. O dirigente Edwin Padmore declara: «Temos sistemas sofisticados para purificar a água usada no processamento da borracha. Testes feitos nos nossos laboratórios certificam a pureza da água e a não toxicidade das fumaças». Depois, no entanto, deixa escapar: «A situação ambiental na plantação está dentro de níveis aceitáveis».


James Makor, director executivo da Save my Future, insiste: «A companhia não está a fazer nada para melhorar a situação ambiental e as condições de trabalho dos seus funcionários. Os salários não pagam o trabalho exigido. Os líderes sindicais lá dentro são marionetes nas mãos dos dirigentes. Os trabalhadores não têm a quem recorrer para defender os seus direitos. Podemos documentar numerosas formas de exploração de menores».


No dia 5 de Abril, apesar da indignação de muitos cidadãos e de ONGs, a Assembleia Nacional Legislativa de Transição (ANLT) da Libéria ratificou um acordo com a Firestone para estender a concessão das plantações por mais 36 anos, até 2061. Makor afirma: «É um acto ilegal. A ANLT, como é interina, não tem nenhuma base para fazer isso. A nossa esperança é que, depois das eleições de Outubro, o novo Parlamento rejeite essa nova concessão». Mas o Parlamento vai fazer isso? «Vistos quem são os candidatos, tenho sérias dúvidas», completa Makor.


Uma pergunta fica no ar: a Ferrari não usa os pneus Bridgestone/Firestone na Fórmula 1? Será que os seus patrocinadores souberam de onde vem a matéria-prima?


CAUCHO – substância semelhante ao látex

 

Carmine Curci é director da revista Nigrizia, publicação parceira do Brasil de Fato.

 

REPÚBLICA DA LIBÉRIA

Localização: Oeste da África.

Nacionalidade: liberiana.

Cidades principais: Monróvia (capital), Harper, Gbarnga, Buchanan, Yekepa.

Línguas: inglês (oficial), bassa, kpellé, kru.

Divisão administrativa: 14 condados.

População: 3,2 milhões (2000), sendo grupos étnicos autóctones 72% (principais: capeles 19%, bassas 15%), árabes libaneses 25%, américo-liberianos 3% (1996).

Moeda: Dólar liberiano (LRD).

Religiões: 70% crenças indígenas; 20% muçulmana; 10% cristã.