Informação Alternativa

África

22/09/2004

 

Garras sobre a África

 

Wilson Sobrinho

Planeta Porto Alegre

Uma carta global foi a resposta à tentativa do Banco Mundial de acelerar o processo de privatização dos recursos hídricos e dos serviços de saneamento básico no Gana. Há cerca de dois meses, o organismo dirigido por James Wolfensohn ofereceu US$103 milhões para «ajudar o governo do Gana na reforma do seu sector urbano de água» para prover o recurso «ao maior número de moradores urbanos do país». Apesar de a proposta apenas falar de parcerias entre os sectores público e privado, os activistas vêem com desconfiança a "ajuda" e temem que, nas entrelinhas não divulgadas dos contratos, esteja o projecto de abrir a exploração do sector a corporações internacionais.

Teme-se que o ingresso da iniciativa privada no sector provoque o aumento de preço da água em 20%, logo de início. Além disso, as tarifas serão indexadas à inflação. O empréstimo também é criticado porque irá aumentar a dívida externa do país para modernizar os sistemas de distribuição que mais tarde iriam para as corporações.

Não é difícil imaginar que a resposta, articulada pela ONG norte-americana Public Citizen jamais chegue próximo dos olhos dos destinatários ou mesmo influencie as suas decisões. Porém, o abaixo-assinado enviado na última terça-feira para o presidente do Banco Mundial e para os executivos das principais empresas interessadas em ingressar no mercado do país africano carrega mais que retórica anti-privatizante. A grande participação de entidades de países que provaram as agruras da privatização dos sistemas de saneamento é o maior trunfo do documento.

O exemplo latino

Argentina e Bolívia, dois países que beberam da água corporativa, participam com aproximadamente um terço das assinaturas colectadas e são mostrados como exemplo de má gestão. Na Bolívia, relata o documento, a passagem do saneamento para o sector privado seguiu-se de forte alta dos preços: «100 a 200% em alguns casos». O repentino encarecimento do suprimento de água «num país onde o salário mínimo é de menos de 100 dólares», gerou seguidos protestos de rua até que, em Abril de 2000, o governo se viu obrigado a recuar dos contratos privados. A empresa que explorava o sector saiu do país mas deixou uma reclamação judicial por perda de lucros presumidos.

Na Argentina, contratos que permitiam o atrelamento do preço dos serviços à flutuação do dólar catapultaram a cerca de 30% o número de famílias incapazes de arcar com o custo dos serviços. O texto ainda cita o exemplo das Filipinas e da África do Sul.

Sede na terra do lago gigante

«Estes são apenas alguns dos problemas que a privatização da água cria para as pessoas», argumentam os activistas. «Pedimos a vocês (destinatários) que ouçam as preocupações da Coalizão Nacional Contra a Privatização da Água» (CNCPA), organização ponta-de-lança na luta contra a privatização da água no país africano e que congrega grupos estudantis, de mulheres, de sindicalistas, de defesa do meio ambiente, religiosos e de direitos humanos.

Os problemas nos sistemas de saneamento e transmissão de água no Gana não são desprezados nem pelos activistas da carta, nem pela coalizão africana. «Somos os primeiros a reconhecer a urgente necessidade de reformar as instituições públicas», diz a CNCPA, reconhecendo as fragilidades do sistema actual, que garante água potável para apenas pouco mais da metade da população de um país que tem, entre os seus recursos hídricos, o maior lago artificial do mundo, o Volta, com 8,5 mil quilómetros quadrados.

Um estudo feito recentemente no Gana mostrou que em algumas regiões do país as famílias gastam entre 18 e 25% dos seus salários nas contas de água. Segundo o Public Citizen, cerca de metade da população sobrevive com menos de um dólar por dia.

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